Clayton Romano
Doutor em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Professor-adjunto vinculado ao Departamento de História da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM).
A premissa é a seguinte: o capitalismo exige que todas as relações sociais estabelecidas se mercantilizem, muito além da esfera econômica, transformando toda e qualquer atividade humana em mercadoria, em objeto de compra e venda, para efetivo acúmulo de capital a partir da extração de mais-valia, de trabalho não pago. Ente histórico, não metafísico, o mercado se faz palco da vida.
Relações, comportamentos, equações, cálculos próprios ao mundo da produção material, terreno original da contradição entre capital e trabalho, são incorporados ao fazer cotidiano de outras dimensões sociais. Afirmar a existência do capital político e seu mercado da política apenas confirma a premissa acima, apontando para a mercantilização de sujeitos e processos políticos.
Não se trata da mera transposição de relações e cálculos econômicos para a ação política, tampouco da sabida representação de interesses econômicos na arena política. Ao contrário, capital político e mercado da política sugerem o adensamento das relações capitalistas a ponto de converter a política em produção destinada à mercância e ao acúmulo de capital. A política se faz mercadoria, enfim.
Assim é concebida e encarada, enquanto produto, alvo de relações e cálculos de produção, circulação, troca, compra, venda, consumo. Sua conversão em mercadoria a faz instituir capital e mercado próprios, orientados e executados segundo suas especificidades, donde capital político e mercado da política. Incorpora equações e comportamentos econômicos, recriando assim os seus.
Cifra econômica e programa ético-político, antes dispostos em personagens distintos, estão agora consagrados num mesmo ator. Também não se trata de economia política ou de política econômica. Trata-se, pois, da histórica simbiose entre transação econômica e exercício político, responsável por demarcar novos parâmetros e procedimentos a seres e organismos políticos, mercantilizando-os.
O funcionamento da sociedade política atende então aos preceitos e regramentos da sociedade econômica, do mercado. Versões pueris de política como instrumento para realização do bem comum ou cândido espaço dedicado ao confronto de ideias e projetos, assumem outro significado diante das leis de mercado. Produtos, bem comum, ideias, projetos, etc. adquirem valor político.
Passam com isso a ser negociados, comercializados, vendidos de diversas formas e por todas as camadas sociais, de acordo com seus diferentes níveis de proximidade e envolvimento com a sociedade política. Não à toa compra-se eleitores com caminhão de terra ou aliados, com cadeira ministerial, afinal, o capital político a ser obtido define o preço a ser pago por dada mercadoria.
Os dois casos mencionados, caminhão e cadeira, escolhidos ao acaso, não correspondem apenas ao valor econômico da operação, que existe, mas que não o condiciona ao valor político expresso por eleitores e aliados, produtos políticos expostos ao trato venal. Sua precificação é tão somente o cumprimento de regra mercantil elementar, fazendo com que toda mercadoria política tenha preço.
Caminhão de terra ou cadeira ministerial (ou “orçamento secreto”) são mercadorias políticas transformadas em capital político empregado para a acumulação de mercadorias políticas e sua transformação em capital político acumulado. Assim como um colar de pérolas ou um latifúndio transmutam-se de mercadorias em capital, caminhão ou cadeira podem ser mercadoria ou capital.
Condição definida segundo seu valor de uso e seu valor de troca. Seu uso garante capital para aquisição de mercadoria. Sua troca a torna mercadoria para obtenção de capital. Interesses e necessidades do ator político determinam os termos de compra e venda. E tal qual o econômico, também o capital político prescinde da extração de mais-valia, no caso, mais-valia política.
Se mais-valia é força de trabalho não remunerada, sua expressão política dedica-se a alienar os meios de produção política. Dito de outro modo, firma-se ao concentrar, quando não monopolizar, postos da sociedade política e o acesso a seus agentes e instituições. A contradição entre capital e trabalho, vista nas relações materiais de produção, opõe então dirigentes e subalternos políticos.
Extração da mais-valia política consiste, portanto, em exploração política daquela que é sua real força de produção, daqueles que a produzem na vida cotidiana, a dão sustentação social e a legitimam institucionalmente. Quanto maior a alienação dos subalternos em relação à sociedade política e seus meios, maior o capital político extraído da força subalterna sem devida quitação.
Numa democracia como a brasileira, erguida sobre irregular histórico de participação popular na vida política do país, voto é moeda, programa é ativo, partido é empresa, político é empresário, cidadão é consumidor. Todos em prol da máxima exploração de sujeitos políticos subalternos, mantendo-os assim para usufruto dirigente e acúmulo de capital político. Eis o mercado da política.
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