Sinal fechado

Clayton Romano
Doutor em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP-Franca). Docente vinculado ao Departamento de História da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM).

“Olá, como vai?/Eu vou indo e você, tudo bem?/Tudo bem, eu vou indo correndo/Pegar meu lugar no futuro, e você?”. Eis os primeiros versos de Sinal Fechado, pérola de Paulinho da Viola, canção vencedora da 5ª e última edição do Festival da Música Popular Brasileira, realizado pela TV Record entre 1965 e 1969. Foi o primeiro (e único) dos festivais após a decretação do mais antidemocrático dos atos institucionais da Ditadura Militar (1964-85).

O Ato Institucional nº5 (AI-5) demoliu a fachada democrática arquitetada desde o golpe de 1º de abril de 1964, “revolução redentora” que teria livrado o Brasil da ditadura comunista, dando início a uma série de reformas graduais. Com o AI-5, editado em 13 de dezembro de 1968, a Ditadura Militar aboliu completamente eventuais fantasias democráticas. Bradando “às favas com os escrúpulos”, assumiu-se ditadura, passando ao “prendo e arrebento”.

O AI-5 fechou o Congresso Nacional, suspendeu habeas corpus para crimes políticos, promoveu cassações de mandatos e de servidores públicos, instituiu a censura prévia aos meios de comunicação. Quando Paulinho da Viola subiu ao palco do Teatro Record Augusta, em 6 de dezembro de 1969, há uma semana do primeiro ano de vigência do AI-5, um Congresso mutilado, fechado por 10 meses, havia sido reaberto apenas em outubro.

A interrupção do sinal da TV Câmara, em 9 de dezembro de 2025, trouxe à boca o fel dos tempos de AI-5 e de fechamento do Congresso Nacional. Em noite de sessão sem votação, revezavam-se discursos parlamentares quando foi cortada a transmissão ao vivo da TV Câmara, que passou a exibir imagens gravadas. Sem TV, a Polícia Legislativa baniu jornalistas e assessores do plenário. À força, retirou parlamentar da mesa diretora.

Miseravelmente, ainda sob a efeméride dos 40 anos de democracia no Brasil, o sinal cortado da TV Câmara, o esvaziamento do plenário, a agressão a parlamentares, expressam profunda coincidência com o teor contido no ato de 13 de dezembro de 1968. E se, como ensina a filosofia, não há coincidências na história, convém admitir que a concepção ético-política estampada no AI-5 segue oprimindo como um pesadelo os cérebros dos vivos.

Lá como cá, partiu-se institucionalmente para o “prendo e arrebento”, sempre “às favas com os escrúpulos”. Lá como cá, teve-se por palco a Câmara dos Deputados, certamente o mais importante e paradoxalmente o mais disfuncional entre poderes políticos constituídos no país. Lá, em 1968, vigorava o artificial bipartidarismo de Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e Movimento Democrático Brasileiro (MDB) desde a edição do AI-2 (1965).

AI-2 que, além de extinguir os 13 partidos com registro eleitoral, ora veja, também decretou o “recesso” do Congresso Nacional, conferindo ao ditador de plantão, Castelo Branco (1964-67), a prerrogativa de legislar. Castelo, tido e havido como o mais liberal entre os cinco ditadores militares, voltaria a fechar o Congresso de outubro a novembro de 1966, supostamente para debelar a atuação de “contrarrevolucionários” no Legislativo.

Pretexto similar subsidiou a edição do AI-5. Márcio Moreira Alves (MDB) subiu à tribuna da Câmara dos Deputados, em 2 de setembro de 1968, para denunciar a invasão da Universidade de Brasília (UnB) por tropa militares, sugerindo que a população boicotasse os desfiles de 7 de setembro e conclamando: “Esse boicote deve passar também às moças que dançam com cadetes e namoram jovens oficiais”. A ditadura se fez de ofendida.

A ponto de solicitar à Câmara licença para processar Moreira Alves por injúria, permissão rejeitada pela ampla maioria dos parlamentares. Era 12 de dezembro de 1968. O resultado da votação teria deixado furioso o Conselho de Segurança Nacional, que, reunido no dia seguinte, baixou o AI-5. Estava aberta a Caixa de Pandora a liberar, institucionalizar, normalizar, práticas seculares da vida brasileira. Censura. Repressão. Tortura. Extermínio.

Do artificial bipartidarismo da Ditadura Militar brotou e se desenvolveu nas últimas quatro décadas um igualmente artificial (e altamente profissionalizado) pluripartidarismo. Partidos convertidos em empresas, verdadeiras indústrias políticas, que, em virtude do calendário estabelecido na Constituição de 1988, com eleições a cada dois anos, movimentam bilhões de reais via fundos eleitoral e partidário, e outros tantos via “recursos não-contabilizados”.

E se a história se repete, tal como ensina o filósofo, primeiro como tragédia e depois como farsa, cumpre reconhecer que a interrupção do sinal ao vivo da TV Câmara, bem como a retirada de profissionais da imprensa, não impediu a transmissão por parlamentares via smartphones. Tampouco evitou que diversos veículos de comunicação dessem amplo conhecimento à truculência da Polícia Legislativa, tornando inócua tamanha arbitrariedade.

Se Sinal Fechado de Paulinho da Viola exprimiu em versos aquele Brasil do “ame-o ou deixe-o”, o sinal fechado da TV Câmara confirmou de fato a resiliência daquela cólera autoritária.

A democracia resiste

Clayton Romano
Doutor em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP-Franca). Docente vinculado ao Departamento de História da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM).

O Brasil vive o maior intervalo democrático de sua história. Desde a eleição indireta de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral, em 15 de janeiro de 1985, e a posse de José Sarney, vice de Tancredo, em 15 de março daquele ano, já se vão 40 anos de democracia no Brasil. Não sem conflitos e paradoxos, as quatro décadas seguintes aos 21 anos dos militares na presidência sintetizam, em termos contemporâneos, a própria formação histórica do país.

Considerando-se apenas o período republicano, inaugurado por obra militar via golpe de estado em 15 de novembro de 1889, os intervalos democráticos no Brasil sempre foram excessivamente breves em sua duração e limitados em sua extensão. A começar pela fundação da República dos Estados Unidos do Brasil, consagrada na carta constitucional de 1891, que, embora federalista, se fez sob espada, isto é, sob comando militar, até 1894.

Prudente de Moraes, terceiro presidente republicano, foi o primeiro civil e o primeiro a exercer a presidência por eleição direta, com o voto restrito aos maiores de 21 anos, excluídos analfabetos, mulheres e religiosos. De 1894 a 1930, foram eleitos 11 presidentes pelo voto direto, em bases controladas por chefes políticos locais, coronéis promotores do conhecido “voto de cabresto”. Júlio Prestes, último dos eleitos, sequer tomara posse.

Fora defenestrado por novo golpe de estado, liderado por Getúlio Vargas, presidenciável derrotado por Júlio Prestes nas eleições diretas de 1930. Por via indireta, Getúlio manteve-se na presidência até 1945, incluindo a ditadura do Estado Novo (1937-45) que suprimiu os legislativos municipais, estaduais e federal, além de vetar a atividade de partidos políticos. Outro golpe de estado depôs Getúlio, promoveu eleições e uma Assembleia Constituinte.

Deu-se início ao intervalo democrático interrompido pelo Golpe Militar de 1º de abril de 1964, até então a mais rica experiência democrática do país. Entre 1945 e 1964, viu-se o estabelecimento de partidos nacionais, em vez dos partidos regionais existentes até a ditadura de Getúlio, com a vigência do pluripartidarismo, de fato, e o saldo de 14 partidos com representação no Congresso Nacional, incluindo o PCB, cassado em 1947. Não só.

Rompeu-se, pela primeira vez, com certo “bipartidarismo” existente desde os tempos de Império (1822-89), remodelado em tempos republicanos e encarnado por PRP (Partido Republicano Paulista) e PRM (Partido Republicano Mineiro) ao menos até 1930. Partido Social Democrático (PSD), Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e União Democrática Nacional (UDN), além do ilegal PCB (Partido Comunista Brasileiro), eram forças vivas.
  
Havia também partidos médios importantes: Partido Social Progressista (PSP), que elegera Café Filho vice-presidente em 1950, Partido Democrata Cristão (PDC), que elegera Jânio Quadros presidente em 1960, Partido Social Trabalhista (PST), que elegera Miguel Arraes governador de Pernambuco em 1962, e Partido Socialista Brasileiro (PSB), que elegera Aurélio Viana senador, em 1962, e Francisco Julião deputado federal por Pernambuco.

A Ditadura Militar (1964-85) deu fim àquela experiência democrática e, contradição que era sua, justamente por atrelar sua legitimidade política ao fato de haver livrado o Brasil de um “perigo vermelho” imaginário, deu vazão ao seu simulacro democrático. “Elegeu” por via indireta todos os seus cinco ditadores e, ao repor com o Ato Institucional nº 2 (1965) o bipartidarismo de priscas eras, criou os marcos do sistema partidário ainda hoje vigente.

ARENA (Aliança Renovadora Nacional) e MDB (Movimento Democrático Brasileiro), partidos paridos artificialmente, essencialmente orientados para o exercício profissional da política, não deixaram de existir com o retorno do pluripartidarismo a partir de 1979. Sim, a ARENA converteu-se em PDS (Partido Democrático Social) e o PDS compõe a raiz genealógica dos atuais Partido Liberal (PL), Partido Progressista (PP) e União Brasil (UB).

O MDB, criado em 1966, tornado PMDB em 1979, e hoje, diante de escândalos de corrupção, “com Supremo, com tudo”, novamente MDB, esteve no timão da travessia democrática sem jamais vencer uma eleição direta para a presidência da República. Governou com Sarney (1985-90), vice de Tancredo, e Michel Temer (2016-19), vice de Dilma Rousseff, deposta após 13 anos de governos do Partido dos Trabalhadores (PT).

O Brasil assistiu ao primeiro civil eleito em 21 anos, por via indireta, falecer sem tomar posse. Seu vice, ex-presidente de ARENA e PDS, assumir e promulgar a Constituição de 1988. Uma criatura da ARENA, feito prefeito-biônico, então abrigado no PMDB e depois no efêmero PRN (Partido da Reconstrução Nacional), vencer as primeiras eleições diretas em 19 anos e, diante de notórias evidências de corrupção, renunciar tempo pouco depois.

Em 40 anos, nove eleições diretas, cinco presidentes eleitos, três ex-presidentes presos, duas deposições por impeachment, uma tentativa de golpe de estado. E a democracia resiste.

AI-2, 60

Clayton Romano
Doutor em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP-Franca). Docente vinculado ao Departamento de História da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM).

O Ato Institucional nº 2 (AI-2), de 27 de outubro de 1965, completa 60 anos em 2025. Menos afamado que o terrível AI-5 (1968), não foi por isso menos nefasto, sendo responsável por exterminar a viva experiência pluripartidária instituída no Brasil após a queda da ditadura do Estado Novo (1937-1945). Fez mais. Ao extinguir o pluripartidarismo e dar vida a um artificial bipartidarismo, o AI-2 deu ampla vazão ao apartidarismo no país.

Fenômeno que, ainda hoje, segue como uma das marcas da democracia brasileira. De acordo com recente Informe Latinobarómetro (2024), 41% dos brasileiros creem que “a democracia pode funcionar sem partidos políticos”, mais que argentinos (27%), uruguaios (29%), venezuelanos (29%), dominicanos (33%), costarriquenhos (35%), salvadorenhos (36%), chilenos (36%) e mexicanos (40%); praticamente na média latino-americana (42%).

Por outro lado, segundo o mesmo Informe, menos da metade da população brasileira (46%) concorda que “sem partidos políticos não pode haver democracia”, índice que deixa o Brasil atrás de Argentina (64%), Uruguai (64%), Venezuela (63%), República Dominicana (62%), Costa Rica (60%), El Salvador (57%), México (54%), Chile (50%) e Honduras (48%), ao lado da Bolívia (46%) e abaixo do índice médio aferido na América Latina (50%).

É bem verdade que, embora pertencentes à mesma faixa continental, tratam-se de realidades sócio históricas distintas. O que não diminuí o valor da amostragem, exigindo, no entanto, contextualização de fatos e processos históricos próprios a cada país. E muitas são as especificidades do caso brasileiro. A começar por sua colonização portuguesa, que, bem ou mal, deu-lhe dimensões continentais e o converteu em sede do império português.

Feito único na história, ao fugir de Napoleão (1808) a corte portuguesa fez de sua maior colônia a sede de seu império, cabendo ao príncipe herdeiro declarar o Brasil independente de Portugal (1822). A fuga da corte e, logo depois, o processo de independência, ativaram o ordenamento político no Brasil em bases correspondentes à sua formação sócio histórica, isto é, escravista, latifundiária, monocultora, traduzidas em ética-política por partidos. 

“Corcundas” e “Constitucionais” certamente não foram os primeiros partidos brasileiros, mas, havidos durante o processo político da independência (1820-1822), fornecem os marcos da nascente organização partidária no país, isto é, autocrática, patrimonialista, censitária. Restritos a seletos atores e interesses, impermeáveis à enorme maioria da população brasileira e alheios às suas necessidades, assim nasceram os partidos no Brasil. 

Duas passagens ocorridas no Império (1822-1889) exemplificam bem a fragilidade dos partidos então nascentes. A primeira se deu já na promulgação da primeira (e até hoje a mais longeva) Constituição do Brasil (1824), ato autocrático do príncipe herdeiro entronado imperador brasileiro, que, ao dissolver a Assembleia Constituinte, inviabilizou na prática qualquer representação partidária na carta constitucional. Constituição sem partido.

Mais tarde, mesmo com a efetiva (embora excludente, patriarcal, plutocrática) organização partidária do país, ainda sob monarquia, sobressaíram-se dois partidos, Partido Liberal (1831) e Partido Conservador (1837). Em detrimento de divergências programáticas, alternando-se nos gabinetes imperiais, dizia-se à época: nada mais conservador que um liberal no governo, nada mais liberal que um conservador na oposição. Conveniente.

Veio a República (1889), via golpe de estado, e com ela certo federalismo manuseado por oligarquias regionais e seus partidos. Tempo de políticos coronéis, fraudes eleitorais e voto de cabresto. Sim, surgiram vários partidos municipais e estaduais Brasil adentro, incluindo-se os diferentes partidos socialistas e o Partido Comunista do Brasil (PCB), este criado em 1922, logo posto na ilegalidade. Seguiram estreitos, porém, os limites do pacto oligárquico.

Pacto quebrado a partir do golpe de 1930 e definitivamente suprimido com a ditadura do Estado Novo. Lapidar em seu artigo 1º, o decreto-lei nº 37, de 2 de dezembro de 1937, antecedeu o AI-2 em quase 30 anos: “Ficam dissolvidos, nesta data, todos os partidos políticos”. Ficaram dissolvidos por 8 anos. Todos os partidos políticos. Todos. A queda de Getúlio Vargas (1945), inaugurou a mais rica experiência pluripartidária da história do país.

Não sem conflitos e contradições, é certo. Contudo, por escassos 20 anos (1945-1965), é igualmente certo que o Brasil viveu uma massificação partidária sem precedentes. Criado por Getúlio, o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) tornou-se o primeiro partido de massa dos trabalhadores, assim como a União Democrática Nacional (UDN) converteu-se no grande partido conservador brasileiro. Eram 13 partidos até 27 de outubro de 1965.

O AI-2 os golpeou. Há 60 anos, instituiu à força o bipartidarismo vigente até 1979 e, assim, imprimiu termos contemporâneos à histórica falta de identificação partidária no Brasil.

80 anos do Partido Socialista Brasileiro

Clayton Romano
Doutor em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP-Franca). Docente vinculado ao Departamento de História da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM).

Surgido dos escombros do Estado Novo (1937-1945), constituindo-se força-viva do pluralismo partidário estabelecido após a queda de Getúlio Vargas, o Partido Socialista Brasileiro (PSB) teve sua certidão de nascimento autenticada somente em 6 de agosto de 1947. Sua história, porém, começara antes, bem antes. A rigor, é praticamente impossível identificar com exatidão a criação do primeiro partido socialista brasileiro, tendo em vista a dispersão partidária praticada durante a chamada Primeira República (1889-1930). 

Prevalecia então certo federalismo, gerido por oligarquias locais, resultando na organização de partidos estaduais e municipais sem qualquer vinculação nacional. Tanto assim que o período entre o golpe que proclamou a República, em 15 de novembro de 1889, e o golpe que depôs o presidente Washington Luiz, em 24 de outubro de 1930, também conhecido como “república oligárquica” ou “república do café-com-leite”, consagrou o pacto político entre o Partido Republicano Paulista (PRP) e Partido Republicano Mineiro (PRM). 

É bem verdade que os socialistas se organizavam no país desde a primeira metade do século 19, ainda no Império (1822-1889). Repercutiam o chamado “socialismo utópico”, expressão eternizada no Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels (1847/1848), reproduzindo aqui versões de Fourier e Saint-Simon, entre outros, em jornais como O Socialista (1845). Àquela altura, os socialistas brasileiros limitavam-se à “batalha das ideias”, sem vínculo orgânico com os trabalhadores, estes majoritariamente sob escravização.

O fim do trabalho de escravizados, instituição com mais de três séculos nestas terras, formalizado apenas em 1888 (aliás, última nação do ocidente a fazê-lo), acelerou sobremaneira o processo de importação de trabalhadores “livres” para o Brasil, em vigor desde meados do século 19. O alto fluxo de imigrantes nas últimas décadas dos 1800, sobretudo de italianos e espanhóis, que traziam na bagagem a forte presença anarquista e socialista em seus países, de fato, ampliou o alcance dos socialistas no território brasileiro.

Pulularam publicações, círculos, associações, partidos socialistas no Brasil. Foram criados partidos socialistas locais em Olinda, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo, Santos e também no interior do país, como em São José do Rio Pardo (SP) e Uberaba (MG), por exemplo. Traduziam, em boa medida, os termos da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), que previa a unidade entre “socialistas utópicos”, incluindo-se as diversas versões do anarquismo, e “socialistas científicos”, berço do socialismo inspirado em Marx e Engels.

A proeminência conquistada pelo partido operário alemão, fazendo do SPD o maior partido da Alemanha a partir dos anos 1870, refletiu-se nos rumos da AIT, criada em 1864 e dissolvida em 1876, justamente por conta da cisão entre “utópicos” e “científicos”. Declaradamente filiado à teoria de Marx e Engels, que, inclusive, chegaram a participar de querelas internas na época, o SPD assumiu a liderança dos socialistas na Europa, com repercussões mundo afora, sendo decisivo na formação da Segunda Internacional (1889).

Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), criado em 1879, e Partido Socialista Italiano (PSI), em 1892, sugiram exatamente naquele contexto e, devido à forte presença de imigrantes espanhóis e italianos, serviram de referência para a multiplicação de organizações e partidos socialistas no Brasil. A ponto de, ainda em 1892, serem celebrados dois congressos socialistas no país, independentes entre si, um no Rio de Janeiro e outro em São Paulo, já demonstrando a constituição de dois centros do socialismo brasileiro.

Um na capital do país. O outro naquele que logo seria o maior polo industrial do Brasil. Em São Paulo, a influência do PSI foi emblemática. Criado em 1900 e oficializado em 1902, o Centro Socialista Internacional (CSI) editou por anos a versão brasileira do Avanti!, publicação oficial do PSI, impresso aqui em italiano. Braço político do PSI no Brasil, especificamente em São Paulo, com grande concentração de imigrantes italianos, o CSI se converteu numa das matrizes que mais tarde dariam origem ao Partido Socialista Brasileiro.

A unificação dos socialistas brasileiros em um só partido não seria mesmo tarefa fácil. Não bastassem as contradições do movimento socialista internacional, refletidas e somadas às próprias contradições do movimento socialista brasileiro, havia, sempre, o próprio desenrolar da história. O desastroso endosso da Segunda Internacional à Primeira Guerra (1914-1918) levou ao rompimento liderado pelos bolcheviques do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR), autores da Revolução Russa (1917) e do Partido Comunista.

Com o advento da Terceira Internacional ou Internacional Comunista (IC), em 1919, e da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 1922, coube ao Partido Comunista da União Soviética (PCUS) orientar a criação e direção de partidos comunistas no mundo inteiro. Rechaçava tanto o “socialismo utópico” da AIT, quanto o “reformismo” e a “conciliação” da Segunda Internacional. Sua versão brasileira surgiu em 1922, com o Partido Comunista do Brasil – Seção Brasileira da Internacional Comunista (PCB-SBIC).

Por outro lado, a ascensão ao poder de fascistas na Itália (1922), nazistas na Alemanha (1933) e franquistas na Espanha (1939), primeiro freou para depois praticamente inviabilizar a atuação partidária nos três principais centros dos socialistas europeus, com repercussões imediatas também no Brasil. Sem falar da ortodoxia do PCB nos anos 1930, antessala do stalinismo que viria a seguir, ambos responsáveis diretos por nova fração socialista, reunida em torno do trotskismo. E havia, por fim, a ditadura do Estado Novo.

Importante lembrar. O golpe de Getúlio Vargas, em 1937, que rasgou a carta constitucional de 1934, redigida por Assembleia Constituinte eleita por voto direto, extinguiu os partidos políticos no Brasil. O decreto-lei nº 37, de 2 de dezembro de 1937, dizia sem meias-palavras já no primeiro artigo: “Ficam dissolvidos, nesta data, todos os partidos políticos”. A luta contra o nazi-fascismo na Segunda Guerra (1939-1945), aqui vista na mobilização nacional e popular em torno da Força Expedicionária Brasileira (FEB), deu fim à ditadura.

Os anos sob a ditadura de Getúlio, em detrimento da dissolução dos partidos e até mesmo por essa razão, deu vida à um bloco histórico heterogêneo, composto por conservadores, liberais, socialistas, comunistas, reivindicando liberdades democráticas e, consequentemente, a queda do Estado Novo. O Manifesto dos Mineiros, de 24 de outubro de 1943, talvez possa ser apontado como o instante de formalização e anúncio daquela heterodoxa aliança antigetulista, espécie de “frente ampla” pela redemocratização do país.   

O PCB deixou o bloco ao aderir à campanha por “Constituinte com Getúlio”, isto é, manter Getúlio no poder sob liberdade sindical e pluripartidarismo, até a confecção democrática de novo texto constitucional. “Queremos Constituinte com Getúlio”, o “queremismo” tentou impedir a queda do ditador e evitar o golpe que o derrubou, este capitaneado por atores e forças que logo a seguir estariam majoritariamente reunidos na União Democrática Nacional (UDN). Não sem dissidências, socialistas entre elas.

Duas iniciativas se destacaram ao repor em novo tempo e contexto a antiga dissociação socialista entre São Paulo e Rio de Janeiro. A União Democrática Socialista (UDS), dissidência da UDN em São Paulo, fundada em 1945, apresentou a seguinte comissão provisória: Antonio Cândido de Melo e Souza, Antonio Correa, Benedito Barbosa, Celso Galvão, Carlos Engels, Eliza Romero, Germinal Feijó, Israel Dias Novais, Jacinto Leal, Luiz Lobato, Paulo Emílio Sales, Paulo Zingg, Renato Coelho e Rômulo Fonseca.

Também tomaram parte inicialmente da UDS alguns comunistas brasileiros, entre eles Astrojildo Pereira e Caio Prado Junior, que logo aderiram ao PCB legalizado, no final de 1945. Aristides Lobo, Febus Gikovate, Fúlvio Abramo, João da Costa Pimenta, Mario Pedrosa e Plínio Melo, estes ligados ao trotskismo, igualmente estiveram ligados primeiro à UDS e posteriormente ao PSB, este oficializado em 1947. Na prática, porém, o PSB surgiu antes, com a obtenção do registro da Esquerda Democrática (ED), em setembro de 1945.

A ED, também fundada em 1945, reuniu socialistas do Rio de Janeiro e de outras regiões do país, com destaque para Pernambuco e Bahia. Ao contrário da UDS, concentrada em São Paulo, a ED já nasceu “nacional” e terminou por encampar a iniciativa paulista. Juntas, UDS e ED assinaram o manifesto de fundação da Esquerda Democrática, em 24 de agosto de 1945. Sua comissão nacional provisória contou com Hermes Lima, João Mangabeira, José Lins do Rego, Mari Monteiro, Sérgio Buarque de Holanda, entre tantos nomes.* 

Menos de dois anos depois, durante seu 2º Congresso Nacional, realizado em abril de 1947, a ED assumiu a denominação definitiva de Partido Socialista Brasileiro (PSB), oficializada em 6 de agosto de 1947. Tinha ali dois deputados federais. Entre 1945 e 1962, o PSB somou 18 deputados federais (entre eles Francisco Julião, líder das Ligas Camponesas) e 2 senadores, até ser golpeado junto aos demais 12 partidos brasileiros, extintos pelo Ato Institucional nº 2 (AI-2), de 27 de outubro de 1965, obra da Ditadura Militar (1964-1985).

O AI-2 completou institucionalmente o golpe de 1º de abril de 1964, ao concentrar poder no Executivo federal, comandado pelo general-presidente Castelo Branco, dissolvendo os partidos, exterminando assim a mais viva experiência pluripartidária já registrada no Brasil. Instituiu a eleição indireta para cargos executivos (presidente, governador, prefeito), a perda de direitos políticos de opositores e funcionários públicos, além do artificial bipartidarismo de Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e Movimento Democrático Nacional (MDB).

Sob outra ditadura, novamente envolvidos numa “frente ampla” por democracia, os socialistas brasileiros atuaram no interior do MDB, dedicando-se à estratégia de resistência democrática no combate à ditadura de 21 anos dos militares. Com o retorno ao governo civil, em 1985, diante do processo de reorganização do pluripartidarismo, o PSB obteve novo registro em 1º de julho de 1985, convertendo-se no único caso real de refundação de um partido alvejado pelo AI-2, já que o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) virou arenista.

O PSB trilhou o errático curso da redemocratização no Brasil. Não sem contradições. Integrou a chapa de Lula (PT) em 1989, 1994 e 1998. Lançou Anthony Garotinho à presidência, em 2002, e Marina Silva, em 2014. Apoiou as eleições de Lula, em 2006, e Dilma Rousseff (PT), em 2010. Votou majoritariamente no impeachment de Dilma, em 2016. Hoje, o Partido Socialista Brasileiro ocupa a vice-presidência da República, 3 governos estaduais e 19 cadeiras no Congresso Nacional (com 15 deputados e 4 senadores). Soma 54 deputados estaduais, 312 prefeitos e 3.557 vereadores no país.

O PSB completa 80 anos em 2025. Sua extinção pelo AI-2, em 1965, faz 60 anos. E sua refundação, em 1985, comemora 40 anos. Sempre, um só lema. Socialismo e Liberdade.

* “... Rio de Janeiro, 24 de agosto de 1945. A Comissão Provisória: (aa.) João Mangabeira, Hercolinio Cascardo, Domingos Vellasco, Alceu Marinho Rego, Edgardo Castro Rebello, Hermes Lima, Felipe Moreira Lima, Elyeser Magalhães, Elpídio Pessanha, Walter Peixoto, Rubem Braga, José Honório Rodrigues, Homero Pires, João Pedreira Filho, Celso Figueiredo, Osório Borba, Juraci Magalhães, Arnon de Mello, A. Chagas Freitas, José Silveira, Mari Monteiro, José Luís de Araújo, Guilherme Figueiredo, Fábio de Oliveira, Evandro Lins e Silva, Jurandir Pires Ferreira, Paulo Emilio Sales Gomes, Francisco Martins de Almeida, Amarílio Vieira Cortez, Emil Farhat, Alberto Pádua de Araújo, Luiz Lins de Barros, Antero de Almeida, José Lins do Rego, Jader de Carvalho, Antonio José Shueller, Juvêncio Campos, Sílvio Maia Ferreira, Rui Barbosa de Mello, Raimundo Magalhães Jr., Vitor E. Santo, Carlos Amorety Osório, Carlos Cartílio Cabral, Carlos Pontes, Sérgio Buarque de Holanda, José da Costa Paranhos, Pergentino Alves, Wagner Estelita Campos, Helio Pires Ferreira, Godofredo Moretzohn. Comissão Estadual Provisória de São Paulo: Abon Prado Lima, Antonio Cândido de Melo e Souza, Ary Porto Fernandes, Gastão Massari, Germinal Feijpo, G. G. Moreira Porto, Jacinto Carvalho Leal, Marcelino Serrano, Paulo Zingg, Sergio Milliet, Wilson Rahal”. CHACON, V. História dos partidos brasileiros. 3ª ed. Brasília: Editora da UnB, 1998, p. 419.

Bibliografia consultada

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KONDER, L. O futuro da filosofia da práxis. O pensamento de Marx no século XXI. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

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Iberismo e americanismo na educação pública brasileira

Clayton Romano
Doutor em História (UNESP-Franca). Docente vinculado ao Departamento de História da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM).

Resumo: Pensar sobre os marcos atuais da educação pública brasileira, sob perspectiva histórica, recorrendo, para tanto, à duas categorias analíticas de forte presença e impacto na realidade do país: iberismo e americanismo. Recurso nada novo, diga-se, visto desde o seminal Raízes do Brasil (1936), célebre ensaio de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982). Nele, Holanda refaz os processos de colonização verificados na América Ibérica, distinguindo a empresa comandada por espanhóis daquela levada à cabo por portugueses. Situados no extremo ocidente europeu, na Península Ibérica, partilhando assim de similaridades geográficas e históricas, os impérios espanhol e português patrocinaram, entretanto, experiências distintas durante seus respectivos domínios na América, de finais do século 15 às raias dos anos 1900. Portadores e promotores do iberismo, Espanha e Portugal desenvolveram empreendimentos específicos diante do comum desafio de invenção daquele “novo mundo”. A singularidade brasileira, aponta Holanda, reside na configuração de inédito ser histórico-social, por ele denominado de “homem cordial”, fruto da simbiose entre o iberismo português e o americanismo do “novo mundo”. Com ênfase na formação dos Estados Unidos, Alexis de Tocqueville (1805-1859) expõe os termos gerais do americanismo em A Democracia na América (1835), clássico da ciência política. Antonio Gramsci (1891-1937), contudo, rompe o sentido metafísico de democracia em Tocqueville para compreender o americanismo em conflito com as tradições parasitárias dos europeus, segundo a dinâmica do fordismo visto nos Estados Unidos já no início do século 20. Iberismo e americanismo nos oferecem assim instrumental promissor para se pensar sobre os marcos atuais da educação pública brasileira.

Palavras-chave: iberismo; americanismo; educação pública no Brasil.

Ibéria e iberismo

A vontade de mandar e a disposição para cumprir ordens são-lhe igualmente peculiares [aos ibéricos]. As ditaduras e o Santo Ofício parecem constituir formas tão típicas de seu caráter como a inclinação à anarquia e à desordem (HOLANDA, 1977, p. 11).

Ibéria é uma ideia e iberismo, um conceito. Referem-se, geográfica e historicamente, à Península Ibérica, localizada no extremo ocidente da Europa, conectada ao continente europeu, ao norte, pelo istmo da cordilheira dos Pirenéus. Heródoto de Halicarnasso já se referia à Ibéria cinco séculos antes de Cristo. Iberos, originários daquelas terras em torno do Rio Iber, atual Ebro, e celtas vivenciaram a invasão e a conquista da península pelo Império Romano, a partir de 218 a.C, iniciando tardiamente sua romanização, isto é, sua ocidentalização europeia, se comparada à ocorrida em outros territórios europeus.

Ocidente extremo, se geográfico, e tardio, quando histórico, a Ibéria foi palco de sucessivas invasões, partindo dos romanos para, depois, instalarem-se suevos, vândalos, alanos, visigodos. A dominação mulçumana, a partir de 711 d.C, inaugurou os sete séculos de presença árabe na península, tornando-a bilíngue (latim e árabe) por algum tempo em algumas de suas regiões, fazendo assim robustecer sua antítese, o iberismo cristão, responsável por encerrar o domínio mulçumano em movimento chamado de reconquista, concluído somente em 1492, com a retomada de Granada pelos ibéricos.

Berço do primeiro estado-nação europeu, Portugal, surgido entre os séculos 12 e 13, convertida dois séculos depois em porto das caravelas que, mais tarde, fizeram do rei da Espanha, Carlos I, o primeiro, na era moderna, a comandar “um imperio donde nunca se pone el sol”, a Ibéria esteve simultaneamente na vanguarda de dois processos, em tese, distintos. Tanto patrocinou a instalação do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, dando origem à conhecida inquisição espanhola, em 1478, e à sua versão portuguesa, em 1496, como tornou os ibéricos líderes das expedições marítimas que deram nova cartografia ao mundo, transformando-o definitivamente.

Por meio de Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela, o iberismo cristão conferiu novo viço ao instituto medieval do Santo Ofício da Inquisição, oficializado ainda no século 12 e que assumiu renovada importância durante a Contrarreforma, instaurada a partir de 1545. Àquela altura, Tomás de Torquemada, frade investido de Inquisidor-Geral da Espanha, fina-flor do iberismo cristão, já se afamara “Grande Inquisidor”, “honraria” que jamais perderia. Dominicano, fez jus ao exercício dos domini canis, cães guardiões do cristianismo, sempre implacável com hereges, estabelecendo nítidos marcos aos conceitos acalentados e aos métodos praticados pelo iberismo cristão em termos ético-políticos.

Anterior ao advento oficial da Contrarreforma, Torquemada integrou o sacro-exército ibérico-cristão incumbido de extinguir, primeiro, a dominação mulçumana e, posteriormente, a presença e a influência árabes na Ibéria. Tratava-se de expulsão bélica das forças mulçumanas e de afirmação doutrinária da cultura cristã entre os ibéricos, tarefas executadas a ferro e fogo. Não estranha, portanto, que os impérios espanhol e português tenham permanecidos fiéis ao Tribunal do Santo Ofício da Inquisição por séculos a fio, dele extraindo fundamentos ético-políticos caros ao seu iberismo cristão.

A necessidade de expulsão árabe-mulçumana, em boa medida, conduziu e justificou o rápido processo de alinhamento das forças internas para o ordenamento estatal em bases nacionais, primeiro em Portugal, oficializado estado-nacional após a expulsão mulçumana, em 1297, e depois na Espanha, epopeia oficialmente dada por concluída com a ascensão de Carlos I, em 1516. Portugal e Espanha anteciparam-se assim aos demais estados-nação europeus, no caso português em séculos, desfrutando de certa vantagem quando tratou-se de lançar caravelas ao mar. A formalização dos estados-nacionais de Inglaterra (1689), França (1789) e Itália (1870), por exemplo, dão bem a medida do notável feito ibérico.

Em comum, embora o caso espanhol seja sempre mais complexo, Portugal e Espanha chegam aos seus respectivos estados-nação guiados por alianças envolvendo a realeza, o clero, a aristocracia fundiária e a emergente burguesia comercial, bloco histórico conciliador de demandas e interesses, capaz de patrocinar odisseia histórica jamais vista. Ao cravar seu esquadrão de naus nas Antilhas, em 1492, Cristóvão Colombo documentou obra concluída por Américo Vespúcio, que, ao demonstrar o “achamento de novas terras”, o que Colombo não fez, terminou por batizar o novo continente, um “novo mundo”.

Colombo, Vespúcio, Pedro Álvares Cabral, entre tantos, representavam as respectivas burguesias comerciais espanhola e portuguesa, a serviço da realeza, do clero, da aristocracia, todos interessados na conquista de rotas comerciais e de exploração mercantil. Encontraram na América sua máxima realização histórica ao darem ampla vazão ao imperialismo de seus reis católicos, assentado bloco histórico, via domínio territorial empresarialmente realizado sob o “signo da cruz no cabo das espadas” (GALEANO, 1979, p. 25).

Empreenderam, a partir de então, o maior genocídio da história, ao dizimar povos originários como parte de suas estratégias de conquista do “novo mundo”, e consumaram a maior diáspora humana, ao traficar da África mais de 10 milhões de pessoas escravizadas e que sobreviveram à travessia atlântica em condições desumanas. Com destaque ao tráfico humano nas naus portuguesas, responsáveis por desembarcar 4,8 milhões de africanos escravizados apenas naquela que era sua maior colônia, atual Brasil (SCHWARCZ, 2019, p. 22-23).

Protagonistas, Espanha e Portugal capitanearam aquele novíssimo processo de circulação de mercadorias, isto é, o “comércio, forma desenvolvida da circulação de mercadorias”, integrando “as condições históricas que dão origem ao capital”. Diz Karl Marx, n'O Capital (1867), que a “circulação de mercadorias é o ponto de partida do capital”, em outras palavras, que o “comércio e o mercado mundiais inauguram no século XVI a moderna história do capital” (MARX, 1982, p. 165, I). O que significa dizer que a Ibéria foi precursora da “moderna história do capital”, do capitalismo, em termos dissonantes daqueles característicos ao novíssimo modo de produção capitalista empreendido pela burguesia, “classe dos capitalistas modernos, proprietários dos meios de produção social, que empregam trabalho assalariado” (MARX; ENGELS, 1961, p. 21, I).

Ao contrário, leal ao iberismo cristão, a burguesia ibérica não se fez em fábricas e indústrias, mas sim por empreita comercial. Seus capitalistas, especialmente portugueses e, depois, brasileiros, repletos de duques, marqueses, condes, viscondes, barões, dedicaram-se mais aos meios de circulação de mercadorias, ao comércio, que propriamente aos meios de produção de mercadorias, à indústria. Teceram, com isso, forte trama entre o progressismo próprio ao seu advento enquanto classe social, sucessora histórica da nobiliarquia, e o conservadorismo inquisidor típico do iberismo cristão.

Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil (1936), parte da Península Ibérica, formação histórica absolutamente original no continente europeu, apontando para seu produto histórico igualmente original, o iberismo. Que, distante dos marcos tipicamente eurocêntricos de ingleses ou franceses, por exemplo, ou mesmo do arianismo étnico visto entre germânicos, se fez em condições e caracteres históricos bem específicos, entre os quais, seu “tradicional personalismo, de que provêm a frouxidão das instituições e a falta de coesão social” (HOLANDA, 1977, p. XV).

Soma-se, ainda, “a ausência do princípio de hierarquia e a exaltação do prestígio pessoal com relação ao privilégio” (1977, p. XV). Diante da nova empresa na América, com espanhóis mais empenhados em transplantar para o novo continente seu ocidente ibérico, sua civilização ibérica, “o esforço dos portugueses distingue-se principalmente pela predominância de seu caráter de exploração comercial” (1977, p. 64), fazendo entrever sua “repulsa ao trabalho regular e atividades utilitárias”. “Em Portugal somos todos fidalgos”, exclamava-se (1977, p. XV).

O “homem cordial”, expressão tomada de Ribeiro Couto, sintetiza o tipo ideal brasileiro ensaiado sob inspiração weberiana por Sérgio Buarque de Holanda. Formado nos quadros da tradicional estrutura familiar, afeito às relações interpessoais, logo, inapto às relações impessoais típicas do Estado, sua cordialidade não pressupõe bondade, mas tão somente “predomínio dos comportamentos afetivos, inclusive suas manifestações externas, não necessariamente sinceras nem profundas” (1977, p. XVII). O “homem cordial” brasileiro consagra-se o executor do patrimonialismo, transposição das relações privadas ao trato público, e de sua peculiar burocracia, franqueada à afetos e interesses interpessoais.

Décadas depois de Raízes do Brasil, em revista a O Espelho de Próspero (1982), de Richard Morse (1988), Luiz Werneck Vianna oferece boa síntese aos termos assumidos pelo iberismo no Brasil. Destacando certa heterogeneidade da versão brasileira, diz que, aqui, o “ iberismo se constitui como elemento de determinação estrutural, impondo-se aos atores e às suas circunstâncias”. Para uns, importando “um caminho natural de obscurantismo, autoritarismo e burocratismo para a vida política e social, e, para outros, a preservação de uma ética não-individualista e comunitária” (VIANNA, 2004, p. 153).

América e americanismo

Advertência
Os americanos têm um estado social democrático que lhes sugeriu naturalmente certas leis e certos costumes políticos.
Esse mesmo estado social, além disso, fez nascer, entre eles, uma profusão de sentimentos e de opiniões que eram desconhecidos nas velhas sociedades aristocráticas da Europa. Ele destruiu ou modificou relações que existiam outrora e estabeleceu novas. O aspecto da sociedade civil viu-se tão mudado quanto a fisionomia do mundo político (TOCQUEVILLE, 2000, p. XI).

América é uma ideia e americanismo, um conceito. Referem-se, geográfica e historicamente, à continental extensão de terra, localizada no extremo ocidente do globo, separada de África e Europa pelo Oceano Atlântico e de Ásia e Oceania pelo Pacífico. Criação europeia, a ideia de América se fez realidade “sob o signo da cruz no cabo das espadas”, fazendo ver a diversas nações europeias que a “conquista do novo mundo” não ocorreria sobre uma folha em branco, exigindo dos colonizadores extermínio e controle de diversos povos originários. Ingleses, franceses, holandeses, além de espanhóis e portugueses, deram destinos distintos à “invenção da América” (O’GORMAN, 1992) e, consequentemente, ao americanismo.

Em Ordem de Progresso (1959), por exemplo, Gilberto Freyre recorre a americanismo tanto para catalogar o componente étnico indígena do povo brasileiro, quanto para indicar certo progressismo urbano individualista, que logra vigorar no Brasil, antes imperial, convertido republicano a partir de 1889. Interessante que os estudos decoloniais, em hoje em voga por romperem com categorias epistemológicas de matriz eurocêntrica (QUINTERO; FIGUEIRA; ELIZADE, 2019), avessos, assim, aos termos freyreanos de “democracia racial” por atenuarem a gravidade do racismo enquanto elemento estrutural da formação histórica brasileira, podem encontrar no americanismo de Freyre, no entanto, boa chave para validação histórica e epistemológica dos povos originários do Brasil. 

Coube a Alexis de Tocqueville, em A Democracia na América (1835), ao documentar sentimentos e opiniões a respeito da formação histórica dos Estados Unidos, conferir dimensão universal ao americanismo, em detrimento do uso dado por analistas anteriores. Diz que os “americanos não têm, pois, necessidade de buscar seu método filosófico nos livros: encontram-no em si próprios” (TOCQUEVILLE, 2000, p. 5), isto é, que “na maioria das operações do espírito, cada americano apela apenas para o esforço individual da sua razão” (2000, p. 3). O que explicaria, segundo Tocqueville, “por que os americanos mostram maior aptidão e gosto pelas ideias gerais do que seus pais, os ingleses” (2000, p. 15), ou “por que os americanos nunca foram apaixonados quanto os franceses pelas ideias gerais em matéria política” (2000, p. 21). Singulares em relação aos colonizadores europeus, essencialmente, em decorrência de duas circunstâncias.

Primeiro, diz Tocqueville, porque foi “ a religião que deu origens às sociedades anglo-americanas – nunca se deve esquecer esse fato. Nos Estados Unidos a religião se confunde, pois, com todos os hábitos nacionais e todos os sentimentos” pátrios, “o que lhe proporciona uma força particular” (2000, p. 6). Soma-se a essa, outra razão: “a religião, por assim dizer, estabeleceu ela própria seus limites; a ordem religiosa permaneceu inteiramente distinta da ordem política, de tal sorte que foi possível mudar com facilidade antigas leis sem abalar as antigas crenças” (2000, p. 6).

Já a outra circunstância seria a de que “os americanos têm um estado social e uma constituição democrática, mas não tiveram uma revolução democrática. Chegaram ao solo que ocupam mais ou menos como os vemos” (2000, p. 7). “Não há revoluções que não revolvam as antigas crenças, debilitem a autoridade e obscureçam as ideias comuns”, sentencia Tocqueville, indicando a inexistência de tais obstáculos na formação dos Estados Unidos, para sintetizar na sequência que cada americano “procura então ser autossuficiente e vangloria-se de ter sobre todas as coisas crenças próprias. Os homens passam a estar ligados apenas por interesses, não por ideias”, conclui Alexis de Tocqueville (2000, p. 7). 

Antônio Gramsci, em seus Cadernos do Cárcere (1929-1935), retoma a originalidade do americanismo notada por Tocqueville, enquanto expressão ético-política de processos, valores e comportamentos, “sentimentos e opiniões”, como diz Tocqueville, essencialmente distintos dos verificados entre europeus de toda espécie. “A América não tem grandes ‘tradições históricas e culturais’”, afirma Gramsci referindo-se ao Estados Unidos, “mas tampouco está sufocada por esta camada de chumbo: é esta uma das principais razões – certamente mais importante do que a chamada riqueza natural – de sua formidável acumulação de capitais” (GRAMSCI, 2004, p. 247). 

“O americanismo, em sua forma mais completa, exige uma condição preliminar”, que, diz Gramsci, “pode ser chamada de uma ‘composição demográfica racional’”, consistindo na inexistência de “classes numerosas sem uma função essencial no mundo produtivo, isto é, classes parasitárias” (2004, p. 243). Sem grandes “tradições históricas e culturais”, por um lado, e sem “classes parasitárias” alheias ao mundo da produção, por outro, o americanismo encontra sua efetiva realização histórica menos em institutos coercitivos impostos por sua sociedade política, e mais em aparelhos privados de hegemonia no interior de suas sociedades civil e econômica. Sua “hegemonia nasce da fábrica e necessita apenas, para ser exercida, de uma quantidade mínima de intermediários profissionais da política e da ideologia” (2004, p. 247-248).

Diferentemente do “estado social democrático” visto por Tocquevillle, ou mesmo da estreita relação entre A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (1904) capturada por Max Weber (2003), o americanismo encontra em Gramsci outra dimensão ético-política ao ser compreendido também a partir dos marcos instituídos nos Estados Unidos ao modo de produção capitalista. Gramsci dispõe, ao contrário de Tocqueville e Weber, do impacto causado pelo fordismo nas relações de produção do capitalismo no início do século 20. Retira, com isso, certo sentido metafísico que parecia revestir o americanismo, atrelado então somente à noção de democracia.

“A americanização exige um determinado ambiente, uma determinada estrutura social (ou a decidida vontade de cria-la) e um determinado tipo de Estado” (2004, p. 258-259). Para Gramsci, em concordância com Tocqueville e Weber, esse estado é “o Estado liberal”, mas, discordando deles, “não no sentido do livre-cambismo ou da efetiva liberdade política, mas no sentido mais fundamental da livre-iniciativa e do individualismo econômico” (2004, p. 259). Estado liberal da livre-iniciativa e do individualismo econômico, obra de “um novo tipo humano, adequado ao novo tipo de trabalho e de processo produtivo” (2004, p. 248).

Educação pública no Brasil

... assim como o americanismo das novas elites não pode dispensar as antigas formas de controle social e político do iberismo, o americanismo dos seres subalternos adere à compreensão tipicamente ibérica de primazia do público sobre o privado, visando democratizar aquela primeira dimensão (VIANNA, 2004, p. 189).

Iberismo e americanismo coabitam o Brasil há tempos. Iberismo desde as caravelas. Americanismo, nos termos propostos por Tocqueville, Weber ou Gramsci, sem exato momento de chegada. Gilberto Freyre (1974), por exemplo, crava a transição do patriarcalismo para o individualismo, através da abolição do escravismo e adoção do trabalho livre (1888), entre o fim do império e início da república (1889), como instante de progressiva difusão do americanismo no Brasil, sem necessariamente indicar qual teria sido seu ponto de partida. Questão bizantina, sem dúvida, uma vez admitida a já larga presença em solo brasileiro de caracteres próprios ao americanismo, sejam eles nos termos propostos por Tocqueville, Weber ou Gramsci, todos recolhidos com base na experiência histórica do Estados Unidos. O tardio alvorecer da república brasileira, quando comparada a vizinhos igualmente ibéricos, sob a denominação de “Estados Unidos do Brasil”, parece dar razão a Freyre e seu marco temporal.

O fato é que iberismo e americanismo coexistem já há algumas quadras da história brasileira, numa relação incômoda, tensa, repleta de hibridismos, e que se manifesta em múltiplas dimensões da vida em sociedade. Um breve olhar a respeito da educação no Brasil, mais precisamente, da educação pública brasileira, permite estabelecer necessária conexão entre conceitos históricos e realidade vivida. A educação nacional, mais precisamente, a educação pública nacional sintetiza e expressa ao seu modo todo o grosso caldo de valores, comportamentos, interesses, invariavelmente conflitantes e necessariamente compartilhados por dada sociedade, em dado tempo. Percorrer alguns pontos no itinerário da educação pública brasileira, destacando a interação, via-de-regra ambígua, entre iberismo e americanismo no Brasil, exige reconhecer que essa história começa antes mesmo de Brasil haver.

Por força da Ibéria, a educação pública brasileira nasceu por expurgo. Alvará Régio expulsou a Companhia de Jesus do império português, em 1759, e criou “as primeiras aulas estatais” (FONSECA, 2011, p. 7), tornando pública (se não isso, ao menos tornando estatal), a educação quase que exclusivamente a cargo dos jesuítas, que monopolizavam o ensino não superior.  Eram tempos da chamada reforma pombalina, conjunto de medidas de ordem econômica, política, cultural, levado a cabo por Sebastião José de Carvalho e Melo, Marques de Pombal, entre 1756 e 1777. Na prática, as reformas introduzidas por Pombal afrouxavam o laço a unir realeza, clero, aristocracia fundiária e burguesia comercial no bloco histórico português, reduzindo seus poderes em favor de maior poder estatal. Inspirado por versões do absolutismo esclarecido francês, visava o fortalecimento do estado a partir de maior controle estatal de instituições e atividades verificadas na metrópole e nas colônias.

No Brasil, ainda colônia, a expulsão dos jesuítas encerrou monopólio exercido desde as primeiras naus aportadas nesta Terra de Vera Cruz. Não havia, contudo, quem pudesse ensinar, tanto que, até efetivar-se de fato a figura do professor régio, as aulas régias instituídas por Pombal foram ministradas no Brasil, durante bom período, por sacerdotes de outras ordens religiosas e até mesmo por jesuítas remanescentes. E uma vez contratados, professores régios ainda padeciam com a irregularidade e o excesso de formalismos para o recebimento de seus vencimentos (FONSECA, 2011).

Deu-se, assim, o advento da educação pública no Brasil, a léguas de distância da realidade brasileira, sem propriamente haver estado no Brasil, mas somente um conjunto pouco articulado de aparelhos administrativos devotados à corte. Fruto de arbítrio, improviso, abnegação, o estabelecimento da educação pública brasileira antecipou e induziu à própria organização estatal no Brasil, que, também através da educação, alcançou dimensões nacionais. E esse é o ponto. O surgimento de “aulas estatais” sem que houvesse estado, fez da educação pública uma das principais vias, talvez a principal, para a efetivação do estado no Brasil, antes mesmo da fuga da corte portuguesa, em 1808, e da criação oficial do estado nacional brasileiro, em 1822. Quando se tornou, enfim, estado nacional, o Brasil já dispunha de educação pública nacional, erguida e sustentada por toda sorte de contradições, é certo, mas ainda assim pública (na verdade, mais estatal que pública) e nacional.

Mas a educação pública brasileira não se fez (e faz) apenas por gênio do iberismo. Versões de americanismo, diga-se, americanismo à brasileira, podem ser vistas em diversos contextos. Bom exemplo foi O Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (1932), quando setores da sociedade civil buscaram interferir nos rumos da organização da educação pública brasileira, ao consagrar à “educação, uma função essencialmente pública”, a ser desempenhada em “escola única”, sob “laicidade, gratuidade, obrigatoriedade e coeducação” (Apud. GHIRALDELLI JR, 1994, p. 61-63). De fato, o Manifesto dos Pioneiros não se tratou de um libelo à livre-iniciativa e ao individualismo econômico, entretanto, demonstrou rara capacidade da sociedade civil em informar à sociedade política os termos de suas atribuições educacionais.

Nenhum exemplo, porém, parece ser mais eloquente sobre a atuação do americanismo em temas da educação pública brasileira que o conjunto de 12 acordos MEC-USAID, firmados entre 1964 e 1968. Eram tempos de ditadura militar (1964-1985), durante a fase mais aguda do encastelamento dos militares no poder. Os acordos entre o então Ministério da Educação e Cultura (MEC) do Brasil e a Agency of Internacional Development (AID) dos Estados Unidos, responderam por ampla reforma no sistema educacional brasileiro, não apenas na educação pública. A “indústria do vestibular”, por exemplo, fez fortuna e ergueu impérios privados de educação desde então.

Graças à reforma universitária dos militares, em 1968, que, entre outras questões, manteve limitado o acesso ao ensino superior, ainda proibitivo para amplos setores populares. Estes deveriam se dirigir ao ensino médio profissionalizante, criado pelos militares em 1971, se empenhando depois na livre-concorrência por técnicos no mercado de trabalho. Cumpria-se a máxima americana de lastro liberal para orientação estatal centrada em livre-iniciativa e individualismo econômico, não sem contradições. A começar pelos militares, históricos agentes do iberismo, àquela altura guiados por americanismo emitido desde o Pentágono, aqui traduzido pela Escola Superior de Guerra (ESG). Encenaram por 21 anos uma ditadura dedicada a “salvar a democracia”. Por força da Ibéria, o Brasil encontrava a América.

Da creche à universidade, o impacto das reformas educacionais resultantes do acordo MEC-USAID ainda repercute na educação pública brasileira. Com a reforma universitária de 1968, retraiu-se importância da dimensão ético-política no ensino superior, substituída por estratagemas e engrenagens tecnocráticas de caráter administrativo e produtivo. Com a reforma dos ensinos de 1º e 2º graus de 1971, atuais ensinos fundamental e médio, cindiu-se de vez a educação pública, reservada desde então (e cada vez mais) às classes populares, instrumentais, destinadas a funções subalternas no mundo da produção, nos aparelhos de hegemonia, na organização da cultura. Sem dúvida, uma educação pública brasileira hoje voltada à livre-iniciativa e ao individualismo econômico, mantendo vivos, porém, elos patriarcais, personalistas, interpessoais, autoritários e sua ibérica “vontade de mandar”.

Referências

FONSECA, Thaís Nívia de Lima e (org.). As reformas pombalinas no Brasil. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2011.

FREYRE, Gilberto. Ordem e progresso. v. 1 e 2. 3ª ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympo Editora: Instituto Nacional do Livro – MEC, 1974.

GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. 8ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
GHIRALDELLI JR, Paulo. História da educação. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 1994.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. v. 4 (Temas de cultura. Ação católica. Americanismo e fordismo). 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

MARX, Karl. O capital. v. 1. 7ª ed. São Paulo: Difel, 1982.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Obras escolhidas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Vitória, 1961.

MORSE, Richard. O espelho de Próspero. Cultura e ideias nas Américas. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

O’GORMAN, Edmundo. A invenção da América. Reflexão a respeito da estrutura histórica do Novo Mundo e do sentido do seu devir. São Paulo: Edunesp, 1992.

QUINTERO, Pablo; FIGUEIRA, Patrícia; ELIZADE; Paz Concha. Uma breve história dos estudos decoloniais. MASP Afterall. São Paulo. 2019. p. 3-11. Disponível em: <https://assets.masp.org.br/uploads/temp/temp-QE1LhobgtE4MbKZhc8Jv.pdf>. Acesso em: 13 dez. 2024.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na América. Sentimentos e opiniões. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

VIANNA, Luiz Werneck. A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil. 2ª ed. Rio de Janeiro: Revan, 2004.

WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Martin Claret, 2003.