Clayton Romano
Doutor em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) e professor-adjunto vinculado ao Departamento de História da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM).
Verificar a existência de trejeitos fascistas entre bolsonaristas, de fato, não é uma das tarefas mais complicadas. São vários episódios de notória identificação e farto registro documental. De assessor presidencial recém-indiciado por gesto supremacista em pleno Congresso Nacional, por exemplo, a secretário nacional da Cultura demitido após reencenar discurso nazista à luz do bolsonarismo.
Da criminalização política de movimentos, organizações, partidos, ao tratamento policialesco a opositores, dissidentes, aliados. Da aniquilação de minorias, supressão de direitos e garantias, ao corporativismo de forças militares e grupamentos armados. Da fascista “dialética dos punhos e dos revólveres” ao bolsonarista “minha vontade é encher tua boca na porrada”, abundam semelhanças.
Semente do fascismo, os Fasci di Combattimento (1919) foram milícias disseminadas por Benito Mussolini (1883-1945), em meio aos escombros da Primeira Guerra (1914-1918). Reuniam ex-combatentes desmoralizados com o fracasso italiano no conflito e logo contaram com adesão entusiasmada de setores radicalizados da classe média. Eliminavam oponentes em nome da pátria.
Milícias convertidas em partido político (1921) e que jamais deixaram de existir durante a vigência do fascismo na Itália. A chegada ao poder via golpe de estado (1922), em pouco tempo permitiu ao Partido Nacional Fascista seu unipartidarismo ditatorial de duas décadas (1925-1945) e a própria institucionalização dos camicie nere na letal Milícia Voluntária para a Segurança Nacional (1941).
Paramilitar, miliciano em sua essência, o fascismo significou a paramilitarização da sociedade política, atribuindo a seus atores, organismos e instituições predicados típicos às milícias. Apelava ao conservadorismo romântico de tradições imemoriais para a afirmação da histórica grandeza nacional, então efetivada em bases modernas. Promoveu ascenso popular sob terrorismo de estado.
Vítima de sua violência, terminou com Duce empalado em praça pública a 28 de abril de 1945. Seu encerramento não indica que suas concepções e práticas tenham simplesmente evaporado, mas, ao contrário, sugere sua permanência mesmo que subterrânea ou residual em sujeitos e processos políticos posteriores à experiência fascista, dentro e fora da Itália. O fascismo vive, miseravelmente.
Não vive e nem poderia viver como antes, pois assim vagaria anacrônico, irreal. Suas características derradeiras, contudo, podem apresentar novas formulações e situações mediante novos ambientes e contextos, sempre exigindo exata sincronia entre princípios e ações de teor fascista. Ou seja, admitindo formas contemporâneas de fascismo, cumpre checar a relação entre programa e prática.
É possível haver programa fascista sem prática fascista, ou prática fascista sem programa fascista, sem configurar propriamente em fascismo. Este parece ser o caso do bolsonarismo, um conjunto difuso e ainda bastante disperso de ideias e atos de nítida inspiração fascista, atrelado a valores e comportamentos antagônicos ao fascismo. Ou haverá fascismo que seja a favor da livre iniciativa?
Porque no Brasil atual há fascista em defesa da liberdade de mercado e amortização da presença estatal na atividade econômica do país. Haverá fascismo liberal? Do mesmo modo, descentralizadas e orientadas por lucro, as milícias do bolsonarismo, sejam elas armadas ou virtuais, não exibem partido definido. Haverá fascismo sem unipartidarismo? Aliás, haverá fascismo sem partido algum?
Que a paramilitarização do Brasil está em curso, não resta dúvida. Será fascismo ou coisa pior?
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