A amarelinha amarelou

Clayton Romano

Doutor em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) e professor-adjunto vinculado ao Departamento de História da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM).

O insight é do jornalista Alvaro Costa e Silva, que, a despeito do sobrenome de más recordações, costumeiramente assina os melhores textos entre colunistas da Folha. Marechal, como é conhecido, narrou em “Seleção honra suas cores e amarela” (8/6/2021, p. 2) sua ida à padaria vestindo a amarelinha, em meio à polêmica participação do escrete nacional na Copa América de 2021.

Assunto que rendeu caracteres e imagens impagáveis nas últimas semanas. Era aquela velha corrente pra frente, quando todo o Brasil dava a mão, agora com sinais trocados. Gabinetes do ódio, como de praxe, difundiram memes de comissão técnica e jogadores travestidos de Marx a Stalin. A eventual recusa a jogar o torneio patrocinado por Jair Bolsonaro opôs país e seleção, caso raro.

Mas não o único. Também em 1970 o selecionado nacional de futebol provocara fissuras, sendo famosa a torcida contrária de opositores da Ditadura Militar (1964-85), em grande parte desfeita já na primeira partida da Copa do México. Impossível não se encantar com aquela seleção, admitiam. O tricampeonato mundial, aliás, soldou o elo entre futebol e política sob têmpera jamais rompida.

Fenômeno social sem equivalência mundo afora, desde muito cedo o futebol deixou de ser apenas um esporte para se afirmar enquanto palco da vida coletiva no Brasil. Gesto sem precedentes na história do país, fora capturado por setores subalternos e historicamente excluídos no interior daquela incipiente sociedade civil havida entre os séculos 19 e 20. Espalhou-se, pois, Brasil adentro.

Popular, como ocorre em outros países, aqui o futebol instituiu o associativismo civil em níveis e dimensões originalmente não previstos por seus precursores, tal era a demanda social por ativismo coletivo. E ao praticá-lo em várzeas sem-fim, brasileiros de norte a sul alargaram sobremaneira os estreitos limites da cidadania exercida no alvorecer da República. Com eles, campos coroavam reis.

Negros, pobres, subalternos, enfim protagonistas na cena nacional. Getúlio Vargas (1882-1954), sempre ele, decifrou a novidade durante a Copa da França (1938), ao ver ruas e praças convertidas em arquibancadas e gerais. Desde então o futebol e sua mobilização popular figuram entre temas de estado no Brasil. Não à toa o país sediou a Copa de 1950, logo após a Segunda Guerra (1939-45).

Sob ditadura, os militares recorreram ao futebol para aplacar sua fúria política e social. Trancafiavam a democracia no bipartidarismo, trucidavam opositores nos porões, exploravam trabalhadores nas fábricas, dizimavam vidas nas periferias. O fiasco na Copa da Inglaterra (1966) exigia da ditadura a posse definitiva da Jules Rimet no México. Deu certo. A seleção se fez nação.

Instrumento político para garantir necessário consenso social, o uso dado ao futebol pelos militares fundou na prática seu derradeiro partido político. Engana-se quem acha que a ARENA (Aliança Renovadora Nacional) foi o braço partidário da ditadura, cumprindo somente tarefa eleitoral e descartada sem-cerimônia em 1979, ano de fundação da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Antiga CBD (Confederação Brasileira de Desportos), a CBF passou a exercer função ético-política reservada aos modernos partidos, dando vazão a valores e comportamentos sociais. Tanto assim que, desprezando-se a histórica corrupção de seus dirigentes, camisas com seu escudo estampam manifestações contra a corrupção. A recusa recém-ensaiada daria novo significado a tudo isso.

Restou, porém, o desfecho anotado por Marechal: a amarelinha amarelou. A CBF segue em frente.

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