Clayton Romano
Doutor em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Professor-adjunto vinculado ao Departamento de História da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM).
Alexis de Tocqueville (1805-59), em A Democracia na América (1835), talvez forneça os termos originais do americanismo, isto é, de uma cultura política específica à formação histórica da América, cuja principal característica consistiria em consagrar os marcos civilizatórios da modernidade ocidental livre do pesado fardo estamental e parasitário visto entre os europeus.
Sem a “camada de chumbo” europeia, de acordo com Antonio Gramsci (1891-1937) dos Cadernos do Cárcere (1929-1935), outro analista a destacar a singularidade do americanismo, a América, especificamente os Estados Unidos, desenvolveu bases político-culturais próprias. Apresentava novas configurações para a interface entre as sociedades política e civil, seus agentes e processos.
Gramsci, quase um século atrás, identificava a dimensão técnica do americanismo, então documentada na orientação das relações materiais, patrocinadas pelo modo de produção fordista. O comunista sardo, porém, indagava se àquela altura o americanismo já ofereceria arsenal ético-político para a disputa de hegemonia, se capaz de revoluções “passivas” ou as de “tipo francês”.
Restava incógnito para Gramsci se aquela técnica de ordenamento da produção resultaria no desenvolvimento de transformações políticas graduais, como as vistas no Risorgimento italiano (1815-1870), ou explosivas, como no ciclo revolucionário da França oitocentista (1789-1799). Se o americanismo cumpriria, enfim, função dirigente, permitindo afirmar-se enquanto cultura política.
Havia base material para tanto, uma vez que a ausência da “camada de chumbo” dos europeus autorizava o reordenamento das relações estabelecidas entre a sociedade política e a sociedade civil. Novos preceitos éticos e morais movimentavam a vida social, ativando novas formas de organização da política e da cultura, ensaiadas a partir da ação de amplos estratos sociedade civil.
As forças subalternas não se deparam com o alto muro das tradições de gerações passadas a impedir seu acesso a postos avançados da sociedade política. Promovem assim o alargamento da base social presente em organismos e institutos da vida política, que deixa de ser monopólio estatal-nacional, restrita a classes tradicionais, para se tornar palco de ação civil-popular de um “novo tipo humano”.
“Bruta” porque não lapidada por processos de revolução nacional-popular nos moldes europeus, diz Gramsci, a hegemonia do americanismo “nasce da fábrica”, da racionalização da produção material extraído da vida econômica, lugar por excelência deste “novo tipo humano” industrialmente forjado. Oscilando entre economia programática ou individual, a fábrica informa o americanismo.
A fórmula de democracia política adotada, sinônimo de competição e alternância, confirma o teor da base “superestrutural” edificada na América, escorada em técnicas industriais de produção transmutadas em referencial político-cultural. Sob o americanismo a iniciativa privada floresce na ação política e expande na sociedade política a presença civil, sobretudo da sociedade econômica.
Emulado desde a fábrica, a indústria, a empresa, o americanismo despersonaliza seus atores políticos tratando-os como obras coletivas que são. Democratiza o exercício político, antes reservado a atores tradicionais (aristocratas, plutocratas, fisiocratas, etc.), no sentido de facultá-lo a setores subalternos, embora o faça por empresa individual, por self made, e não sem contradições.
Empreita de longa data, o americanismo assume no Brasil a contradição como condição primordial de sua efetivação. Opostos segundo o que define a particularidade político-cultural da América, restauração e revolução caminham juntas na formação sócio-histórica brasileira, no mais das vezes conciliadas por um mesmo sujeito político, como se deu durante a Ditadura Militar (1964-85).
Agentes da ordem e da tradição de gerações passadas, instrumentos da restauração, os militares instituíram a fórceps sua versão de americanismo. Despersonalizaram seus ditadores, instigaram o associativismo civil por clausura e asfixia da vida política, instituíram partidos tecnicamente profissionais e programaticamente artificiais, extraíram do arrocho fabril sua hegemonia política.
A ditadura dos militares legou aos civis duas décadas de americanismo às avessas, com o peso brutal do passado senhorial, escravista, latifundiário, monocultor, interferindo decisivamente nos rumos da vida democrática no Brasil. Mesmo quando alcança o chão da fábrica, a versão brasileira de americanismo se faz desde o alto, colhendo sujeitos por via autoritária, quando não autocrática.
A ampliação da presença e da participação política, aspecto crucial da cultura política da América, decorre aqui da multiplicação de empresas partidárias destinadas a atender interesses privados em detrimento de expressas vontades coletivas. Sem corresponder à complexificação programática da sociedade civil, se resume a capital político no mercado da política. Eis o americanismo à brasileira.
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