Bolsonarismo em campo

Clayton Romano

Historiador vinculado ao Departamento de História da UFTM

Quem diria que, após longo intervalo, a transmissão de uma partida de futebol voltaria a ser tratada como assunto de estado? O fato deu-se na última terça-feira (13), envolvendo o confronto entre as seleções de Peru e Brasil, válido pela 2ª rodada das eliminatórias para a Copa de 2022.

Os brasileiros venceram em Lima por 4 a 2, mas o resultado foi o que menos importou. O assunto é o uso político da seleção, envolvendo CBF e governo federal. Vale entender o caso. Pouco antes da partida, marcada para 21h (horário de Brasília), a TV Globo confirmou que não faria a transmissão.

Por volta das 19h50, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) comunicou acordo para a transmissão do jogo na página da entidade e na TV Brasil, emissora pública, aberta e de alcance nacional. Desmantelada no governo Jair Bolsonaro, a TV Brasil teve seu dia de Globo.

Bola rolando, a TV estatal não tardou a mostrar a que veio. O narrador André Marques, escalado às pressas, depois de saudar a direção da CBF e ao presidente da República, emendou: “Um abraço especial para o presidente Jair Bolsonaro, que está assistindo ao jogo. Um abraço presidente”.

Em cena adequada aos termos do jornalismo esportivo varonil, Marques recebeu a pronta sequência de Márcio Gomes, eterno comentarista da TV Brasil: “O presidente torce para o Palmeiras, em São Paulo, e para o Botafogo, no Rio”, embora já fotografado com camisas de Corinthians e Flamengo.

Há muito se sabe que Bolsonaro não torce para time algum. Sua prática rotineira de se deixar ver com camisas de tantos quantos clubes de futebol houver no país, salvo raríssimas exceções (São Paulo FC entre elas, por ser “Bambi”), expõe ao menos duas facetas importantes do mandatário.

Primeiro demonstra que, em vez de encarnar a figura do torcedor brasileiro, em tese apaixonado por futebol, Bolsonaro confirma a morte da própria essência de torcer, deixando de identificar-se com um clube e por ele sofrer, sorrir, brigar, celebrar, pois, quem torce para tantos, não torce para nenhum.

Revela ainda desejo manifesto de mobilizar politicamente o futebol, gesto cujos antecedentes históricos acompanham a trajetória da República no Brasil. Da profissionalização do esporte (1933), passando pela realização das Copas de 1950 e de 2014, futebol e política caminham juntos por aqui.

Nada se aproxima, porém, ao usufruto visto durante a Ditadura Militar (1964-1985). A participação do ditador de plantão na demissão de João Saldanha, arquiteto da seleção tricampeã no México (1970), e efetivação de Zagalo como técnico às vésperas do torneio sinalizara o que viria depois.

A posse definitiva da Jules Rimet atrelou-se ao discurso oficial dos ditadores de “Brasil Potência” e ao slogan ufanista “Brasil, ame-o ou deixe-o” (para qual faltou complementar: “vivo ou morto”). Seguiu-se um festival de uso político do tricampeonato. Jantar com Médici, Fuscas do Maluf, etc.

Para além dos símbolos, do ponto de vista estrutural a conquista no México selou o destino do futebol nacional desde então. Sob o comando de João Havelange entre 1958 e 1975, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) se fundiu à Ditadura e terminou rebatizada como CBF (1979).

Tal associação permitiu uso político jamais imaginado e deu vida, por exemplo, ao Campeonato Nacional (1971), atual Campeonato Brasileiro, além de produzir iniciativa inédita mundo afora: a realização da Minicopa (1972), incluída no festim dos 150 anos da Independência.

Quanto ao Campeonato Nacional, é bastante conhecido o manejo político dado à competição, que estreou com 20 clubes e chegou a 92 (!) na edição de 1979. “Onde a ARENA vai mal, um time no Nacional”, ouvia-se à época, em referência ao esfacelamento eleitoral do partido dos militares.

Já em relação ao torneio de seleções em 1972, a Minicopa (também chamada de Taça Independência), os ditadores distribuíram os jogos em 12 capitais brasileiras, estendendo como isso a euforia do tricampeonato por longo período e aos quatro cantos do país. Ao final, Brasil campeão.

Houve também o inesquecível Torneio do Povo ou Torneio General Emílio Garrastazu Médici, competição entre clubes brasileiros. Disputado entre 1971 e 1973, reuniu o clube “mais popular” dos seis principais estados do país: Atlético, Bahia, Coritiba, Corinthians, Flamengo e Internacional.

Exemplos não faltam, enfim, quando se trata do uso político dado ao futebol pelos ditadores, sob beneplácito da antiga CBD, atual CBF. Recorrendo ao poder simbólico, resta significativo o escudo da CBF em 1979, com a Jules Rimet ao centro, três estrelas acima e ramo de café ao lado.

Acusado de trazer mau algoro, terminou substituído pelo atual em 1993, versão contemporânea do antigo escudo da CBD. O trato político da CBF, contudo, seguiu inabalável, ainda que com outro viço. Finda a Ditadura, a relação entre política e futebol se mercantilizou de vez. A CBF fez fortuna.

Lances pontuais de uso político deliberado e explícito, envolvendo a CBF, entre os governos de Collor, Itamar e FHC. Regular, a bancada da Bola no Congresso Nacional colhia crescimento constante. Coube a Lula, torcedor alvinegro paulistano (e cruzmaltino carioca), reacender a chama.

Conduziu o consórcio responsável pela Copa de 2014 (e também pelos Jogos Olímpicos de 2016), liberou financiamento público de dívidas e chancelou o patrocínio da Caixa a clubes de norte a sul. Caso notório, o estádio do seu clube de coração contou com generosas facilidades de crédito oficial.

De qualquer modo, Lula não inventara a bola. Apenas a colocara pra rolar. E ela rolou. Àquela altura, ele e seu partido já enfrentavam processos e condenações por corrupção. Paralelamente, a CBF não tivera melhor sorte, com três de seus ex-presidentes condenados por crimes financeiros.

E aqui novamente os times se encontram. A luta contra a corrupção dos petistas vestiu a amarelinha da CBF, celeiro de ex-presidentes pegos em atos de… corrupção. Não importa. A camisa da CBF é um símbolo nacional, representa toda a nação e está acima de seus dirigentes, alegam seus adeptos.

Aparentemente sem se darem conta, ao vergarem a amarelinha para se manifestarem politicamente, tais sujeitos (torcedores?) confirmam o vínculo entre política e futebol, via CBF, convertida, mesmo que implicitamente, em grande partido nacional. Logo ela, tão autocrática, velhaca, vil, correto?

Nada disso. “A CBF é o Brasil que deu certo”, sentenciara Carlos Alberto Parreira. Verdade supostamente inquestionável mediante rios de dinheiro (e irregularidades fiscais) movidos por Neymar e seu estafe, por exemplo. Ou pelas cifras do Brasileirão, com cotas e direitos de imagem.

Que o futebol brasileiro é um grande negócio, não se duvida. Como também não resta dúvida que a CBF é um grande negócio para Bolsonaro e seu bolsonarismo, termo ainda mal definido que aqui sintetiza a perversa e original união entre ultraliberalismo econômico e reacionarismo político.

“Em nome da secretaria especial de comunicação social da Empresa Brasil de Comunicação e do secretário Fabio Wajngarten, agradecemos à CBF, nas pessoas do presidente Rogerio Caboclo, do secretário-geral Walter Feldman e do diretor Eduardo Zerbini. E um abraço especial também ao presidente Jair Bolsonaro, que está assistindo ao jogo”, escalou Marques o bolsonarismo em campo.

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