Dinheiro sujo

Clayton Romano

Historiador vinculado ao Departamento de História da UFTM

Convém admitir, ao contrário de pesquisas de opinião e versão corrente: a vida não tem sido lá mui amiga de Jair Bolsonaro. Dias depois de proclamar o fim da corrupção, vê-se às voltas com outro escândalo atingindo integrantes de seu governo. Seu vice-líder no Senado é a bola da vez.

Bolsonaro declarou em 7/10: “É um orgulho, uma satisfação que eu tenho de dizer a essa imprensa maravilhosa nossa, que eu não quero acabar com a Lava Jato... Eu acabei com a Lava Jato, porque não tem mais corrupção no governo”. “Sincericído” com boa dose de cálculo político, diga-se.

Porque admite ter encerrado a famosa operação de flagrante preferência por casos envolvendo petistas e que contribuíra decisivamente para sua eleição em 2018, reconhecendo o óbvio. Seu Procurador-Geral da República, nomeado à revelia de lista tríplice, desmontou mesmo a Lava Jato.

O herói da operação, feito superministro, fora defenestrado sem constrangimentos em abril, atestando o superficial interesse do bolsonarismo em dar sequência ao combate à corrupção responsável pela queda de Dilma Rousseff em 2016 e a vitória eleitoral de Bolsonaro 2 anos depois.

Por outro lado, o fim da Lava Jato sempre fora objetivo declarado do grupo político que garante governabilidade no país desde priscas eras e que atende por Centrão, isto é, uma sociedade político-mercantil, com fins lucrativos, entre parlamentares federais de partidos grandes, médios e pequenos.

Romero Jucá (MDB-RR) vocalizara ainda em 2016 a necessidade de “estancar a sangria” causada pela Lava Jato, que, ao investigar os petistas, alcançava também seus sócios, muitos dos quais políticos do Centrão, agentes e beneficiários do “maior esquema de corrupção da história do país”.

Michel Temer tentou dar cabo a operação e terminou alvejado, flagrado em negociata com Joesley Batista (multimilionário da agroindústria pecuária) e processado por corrupção ativa e lavagem de dinheiro na Eletronuclear, acusação que lhe rendera alguns dias na carceragem policial em 2019.

Bolsonaro surfou na onda da Lava Jato e terminou eleito com muitos votos de defensores fervorosos da operação. Antes da posse, porém, soube-se de depósitos na conta de sua atual esposa, feitos por Fabrício Queiroz, ex-subtenente da PM fluminense e amigo de Bolsonaro desde 1984.

Também antes de subir a rampa, assistiu a repercussão nacional da investigação de um dos braços da Lava Jato sobre movimentação financeira suspeita envolvendo o mandato de deputado estadual de seu filho, Flávio (PSC-RJ), tendo como pivô justamente Queiroz, então assessor do parlamentar.

Era a tal “rachadinha” (deve ser enorme a dificuldade estrangeira em traduzir o termo à respectiva língua pátria), prática bastante comum em gabinetes parlamentares Brasil adentro e usual em mandatos de parlamentares inexpressivos, afeitos a ilícitos comezinhos, chamados de “baixo clero”.

Severino Cavalcanti (PP-PE), genuína expressão do baixo clero, elegeu-se Presidente da Câmara em fevereiro de 2005, impondo severa derrota ao governo Lula, e caiu em setembro daquele ano por cobrar propina para a instalação de restaurantes na Câmara, episódio conhecido por “mensalinho”.

A “rachadinha” de Flávio consistia no recolhimento regular de parte dos salários de assessores nomeados no gabinete, acerto em tese feito no ato da contratação, sob administração de Queiroz, amigo de longa data e muitos serviços prestados aos mandatos da família, inclusive aos de Jair.

Sabe-se agora que os Bolsonaros, Flávio à frente, apresentaram inusual volume de transações e recursos financeiros no período investigado, sempre com altas somas em dinheiro vivo. Aquisições de bens e empreendimentos comerciais exibem exuberante montante de cédulas manuseadas.

Num único exemplo, a loja de chocolate de Flávio registra receita em espécie bem superior a eletrônica, na contramão de toda a cadeia de venda varejista. Soube-se ainda que 89 mil reais foram depositados por Queiroz na conta da primeira-dama, valor bem acima do admitido de início por Jair.

Embora tão evidentes os crimes praticados, Queiroz foi preso somente em junho deste ano, vivendo há meses em propriedade do então advogado de Jair e Flávio, Frederick Wassef, em Atibaia, interior paulista. Ato contínuo, ora, não demorou para Queiroz ser autorizado a cuidar da saúde em casa.

Sem falar nas laranjas do PSL, partido de sua eleição e com o qual rompeu em 2019, caso em que seu ministro do Turismo é investigado. Então candidato a deputado e presidente do PSL mineiro, o ministro de Bolsonaro lançou candidatas apenas para abocanhar recurso eleitoral reservado a elas.

Há também admissão de caixa 2 de seu atual ministro da Cidadania, condenado a pagar 189 mil reais como prestação pecuniária, por ter recebido entre 200 mil e 100 mil reais da JBS de Joesley Batista, ora veja, na campanha ao governo gaúcho em 2014. Ministro admite 100, delator diz 200.

Tem ainda o ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, condenado em 2019 por improbidade administrativa ao favorecer empresas ligadas à FIESP quando secretário do governo paulista. Multa de 200 mil reais, direitos políticos cassados por 3 anos e impedido de contratação no poder público.

Já sua ministra da Família usou recursos públicos, humanos e financeiros, para impedir que uma menina de 10 anos, abusada por tio desde os 6, interrompesse legalmente a gravidez. Cedeu ainda 7,5 milhões de reais, destinados ao combate à Covid-19, a ONGs por ela indicadas, sem licitação.

Seu secretário de Comunicação é sócio de empresa prestadora de serviços do governo, responsável, oras bolas, por assessorar e direcionar o orçamento dedicado à veiculação da propaganda federal nos canais de comunicação. Para completar, seu ministro das Comunicações é genro do dono do baú.

No rol de operadores políticos de Bolsonaro, Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo no Congresso, e Fernando Bezerra (MDB-PE), líder do governo do Senado, acusados de corrupção, receberam recentes vistas da Polícia Federal em suas residências e dependências parlamentares.

E como miséria pouca é bobagem, chegou a hora de Chico Rodrigues (DEM-RR), outro “parça” de Bolsonaro, agraciado como vice-líder no Senado. Investigado por desvios de recursos públicos destinados ao combate da pandemia de Covid-19, Rodrigues foi flagrado com 30 mil reais na cueca.

Por obra do destino, de certo, Chico Rodrigues emprega em seu gabinete Léo Índio, primo dos filhos de Bolsonaro, muito próximo a Carlos (PSC-RJ), vereador carioca, e com acesso franqueado ao Palácio do Planalto. Como no caso dos suspeitos vizinhos de condomínio, mero acaso.

A operação da PF que visitou Rodrigues apura desvios na ordem de 1 milhão de reais. Realizada na última quarta-feira (14), teria encontrado ao todo 100 mil reais na casa do senador do DEM de Roraima, incluindo maços de nota escondidos entre as nádegas do nobre parlamentar. Incrível.

Nefasto em praticamente todas as dimensões, escorando-se num ultraliberalismo econômico encenado em reacionarismo político, refém da sanha do Centrão, Bolsonaro, tão dado a autoproclamações, pode gabar-se por oferecer ao mundo sua original versão de dinheiro sujo.

Em tempo: Flávio e Carlos estão hoje no Republicanos, um dos principais acionistas do Centrão.

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