Entrevista - Desafios e problemas do ensino online

Juba Maria - Na sua opinião, quais os principais desafios da educação online diante do coronavírus e em que grau ela aumenta as disparidades entre ensino público e privado no Brasil?

Clayton Romano - A história da educação no Brasil é a história de nossa disparidade enquanto civilização. Aqui, a educação sempre foi tratada como privilégio reservado a poucos e doutos. Na Colônia e no Império, por exemplo, nossa aristocrática e escravista elite enviava seus herdeiros para Coimbra, Porto, Lisboa, Paris. Educação popular no Brasil se resumia à catequese jesuíta e ação missionária.

Quando, no final do Império e início da República, virada entre os séculos 19 e 20, são instaladas instituições de ensino superior no país, as são para atender aos filhos das classes dirigentes. As escolas de medicina e faculdades de direito então surgidas eram destinadas a formar novas gerações dirigentes, sempre segundo abonada hereditariedade.

E mesmo a Universidade de São Paulo (USP), criada nesse contexto, não fugiu à regra, convertendo-se em instituição de ensino superior dedicada e restrita a poucos. Quando a educação pública passou definitivamente a ser tratada como atribuição republicana, o que ocorreu apenas a partir da década de 1930, sob Getúlio Vargas, substituiu-se a díade confessional-laico anteriormente vigente pela sobreposição entre o ensino público voltado às classes dirigentes e aquele destinado às classes subalternas.

Entre ensino científico, destinado às classes dirigentes, e ensino instrumental, voltado à “capacitação” dos subalternos, a educação pública, isto é, a educação assumida e promovida pelo Estado, atualizou os termos da disparidade educacional do Brasil. Aqui, a educação sempre serviu aos propósitos de exclusão social. Mesmo quando a educação é assumida definitivamente pelo Estado, suas instituições, seus sistemas e seus atores invariavelmente atuaram para reforçar e não dissipar o abismo social resultante de quatro séculos de escravismo no Brasil.

Tanto assim que, após JK, Ditadura Militar e todo o processo de redemocratização, tenhamos hoje um quadro que beira o absurdo. A educação pública nos níveis iniciais (infantil, fundamental e médio) destina-se aos pobres, enquanto a educação privada nesses níveis serve aos ricos (e setores médios que se matam para honrar mensalidades por morrerem de medo da escola pública). Por outro lado, o ensino superior público, especialmente nas áreas mais valorizadas monetariamente, é destino reservado ainda quase que exclusivamente aos ricos, enquanto os bancos das instituições privadas são preenchidos majoritariamente por pobres, sobretudo em cursos “instrumentais”.

A pandemia e os interesses de mercado não criaram, mas aceleraram sobremaneira o agravamento de contradições resultantes deste cenário. A educação privada manteve seu calendário de maneira remota, por exemplo, por contar com mais recursos, ter um público com mais recursos e dispor de larga experiência em EaD, sobretudo no ensino superior. A educação pública, ao contrário, sempre imaginando-se “competindo” com as instituições privadas, colheu fracasso retumbante em suas diferentes tentativas de ensino remoto. Daí que gestores públicos e empresários da educação se empenhem tanto no retorno ao ensino presencial, o que, a meu ver, é hoje uma temeridade.

Com relação ao ensino online, de que forma as ferramentas tecnológicas de ensino à distância podem ser favoráveis para a educação e em que medida ela apenas se mostram afeitas aos anseios do mercado?

Façamos algumas distinções para facilitar nossa análise. Ensino remoto e ensino a distância são sinônimos? Creio que não. EaD é uma modalidade de ensino, cuja principal característica é não ser presencial, valendo-se, para tanto, de tecnologias de comunicação e informação. A iniciativa privada há tempos explora a modalidade. Eu mesmo já produzi material para EaD para uma instituição privada. E essa é uma diferença crucial. Tudo ali é concebido, produzido e transmitido sabendo-se que se trata de ensino a distância. Programas, linguagens e materiais adotados partem do pressuposto de um ensino não presencial.

São criados sistemas e plataformas especificamente para o EaD. Estúdios são erguidos, polos são alugados Brasil adentro. Salas são fechadas, cursos cancelados e docentes demitidos. A EaD se mostrou a galinha dos ovos de ouro das instituições privadas de ensino superior por aumentar substancialmente seus lucros. Em vez de se ter vários docentes para lecionar em sala de aula, tem-se apenas um ou dois para produzir dado conteúdo que ficará disponível para novas turmas. Em vez de investir em material humano, investe-se tão somente em tecnologia.

Sabe-se lá por que, as instituições públicas de ensino superior, que, em tese, não visam lucro, passaram mais recentemente a também oferecer cursos a distância. Embora haja algumas iniciativas a serem observadas com atenção, a EaD pública ainda não mostrou a que veio, a não ser para precarizar ainda mais o trabalho docente.

Ensino remoto é outra coisa. Deriva do trabalho remoto, isto é, do desenvolvimento de atividades laborais valendo-se de tecnologias de comunicação e informação, manuseadas a partir do ambiente residencial. O tal home office não é propriamente uma novidade. Grandes empresas já adotavam tal modalidade de trabalho antes mesmo da pandemia. Sempre visando a maximização dos lucros, o trabalho remoto rompe a barreira entre mundo da produção e mundo privado, fazendo da sala de estar ou do quarto da Ester sua linha de montagem.

Com a pandemia, trabalho remoto tornou-se medida de isolamento. Somente então entrou em cena o ensino remoto, ao menos nos termos que temos visto por aí, isto é, uma forma de reposição e substituição ao ensino presencial, este impedido por razões sanitárias. As bases de sua implementação não guardam semelhanças com as vistas no trabalho remoto, este concebido para ser a distância, resultando em adequações de programas, conteúdos, metodologias presenciais ao ensino remoto. Resultam, em boa medida, em notório prejuízo programático e metodológico, em uma forma de rebaixamento da produção do conhecimento em relação ao que fora inicialmente proposto.

O ensino online, portanto, comporta tanto a EaD quanto o ensino remoto, ainda que hajam diferenças substantivas entre eles. EaD é uma modalidade de ensino, ensino remoto é uma adequação. Ambas mobilizam o acesso e manuseio de tecnologia de comunicação e informação. Se não há dúvida quanto a seriedade do debate que questiona a qualidade e a eficácia profissional de cursos EaD, como ocorre nos conselhos federais de Medicina e Serviço Social, por exemplo, por que não questionar a qualidade do ensino remoto, ele mesmo um improviso?

Infelizmente, essa questão não tem recebido a atenção que merece, tanto por parte de instituições ensino, docentes e estudantes, quanto pela própria sociedade e em especial pelo poder público.

O ensino online, seja EaD ou remoto, claro, tem suas virtudes. De fato, criam a possibilidade de produção e difusão do conhecimento cujo o alcance beira o infinito. Tratada como modalidade, a EaD exerceria um papel fundamental no alargamento da cidadania num país de dimensões continentais e de contradições históricas. O ensino público, a universidade pública, cumpririam relevante tarefa republicana se orientassem seus esforços em EaD ao acesso dos milhões excluídos da educação pública a um sistema regular de ensino, ainda que a distância, mas pensado e exercido para ser assim. A EaD teria importância estratégica em nosso desenvolvimento civilizacional se a educação nacional fosse tratada a partir de sua dimensão pública.

E mesmo o ensino remoto possui suas facetas. Surgido como improviso, poderia ter estimulado e sistematizado a oferta de cursos online, estes sim originalmente pensados para o ensino não presencial, abertos à sociedade de maneira geral. Da educação infantil à pós-graduação, a educação pública poderia ter compreendido a gravidade da situação e ter orientado seus esforços humanos e estruturais para difusão do conhecimento que produz. No caso da universidade pública, responsável por 90% da pesquisa científica produzida no país, por que não se valer do ensino remoto para compartilhar sua produção com a sociedade, através de cursos de extensão?

O ensino remoto, no entanto, tem sido mobilizado para dar sequência ao ensino presencial, seus calendários e programas. Que as instituições privadas o façam, não se estranha, pois precisam justificar as mensalidades cobradas. Estranha sim que a educação pública não entenda que não se trata de seguir a vida como se nada tivesse acontecendo, justo ela que não possui condições materiais para “competir” com o ensino privado.

Se a educação privada forma para o trabalho, a educação pública prepara para a vida em sociedade, ou deveria. Se educação privada diz que o ensino remoto substituí o presencial sem prejuízo para o ingresso no mercado de trabalho, a educação pública deve seguir no mesmo caminho? Em ambos os casos, não temos menos por mais? Não há aqui um rebaixamento no processo educativo, do ensino infantil à pós-graduação? Público ou privado?

E mesmo sobre o argumento utilizado na educação pública de que é preciso aderir ao ensino remoto para justificar o pagamento de impostos por parte da sociedade para seu custeio, cabe perguntar: que justificava de impostos é essa que acarreta em rebaixamento do serviço oferecido? A meu ver, esse argumento é um engodo.

Sem falar no acesso às tecnologias de comunicação e informação, também ele determinado pelos cortes e contradições sociais de toda sorte. A pandemia agudizou distorções históricas e impôs novos desafios. Não vejo esse debate sendo feito nessa profundidade, considerando tais questões e outras tantas, ao menos não nos meios de comunicação e em redes sociais.

A pandemia permitiu o aumento dos encontros virtuais e, consequentemente, gratuitos. Isso significa ser possível uma maior democratização do conhecimento?

Sim, a pandemia nos forçou ao contato remoto, virtual, online. Os aplicativos mais populares já ofereciam recursos para esse tipo de comunicação. Mas podemos dizer que se trata então de um processo de democratização do conhecimento? Sim e não. Sim, as infinitas lives, por exemplo, permitem amplo acesso a determinado conteúdo. Não, nem todas e todos têm acesso a tais conteúdos.

E não têm acesso por várias razões, que vão do aparelho de smartfone ou “pacote de internet” ao simples desconhecimento da oferta de dado conteúdo, muitas vezes disponibilizado e acessado apenas por “bolhas sociais”, grupos fechados em si mesmos. Tenho dúvidas quanto à real democratização do conhecimento, por mais que seja notória a expansão de ferramentas, plataformas e iniciativas online.

Por outro lado, para boa parte dos professores e alunos, o ensino online tem se mostrado fator de estresse ainda maior. Você concorda? Por que isso ocorre?

A dimensão mais problemática do trabalho remoto, isto é, a invasão da produção empresarial no espaço residencial talvez seja a única e penosa característica também levada ao ensino remoto. Trabalha-se mais e por todas as plataformas disponíveis. Não há mais fronteira entre vida profissional e pessoal, sobrepostas num mesmo espaço. Talvez seja producente no caso de telemarketing, por exemplo, mas será também no caso da educação?

Instituições, profissionais, docentes, estudantes, sociedade. Fomos preparados para isso? Estamos preparados para isso? Temo que não.

Uberaba, 8 de setembro de 2020.

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