Discurso para Colação de Grau de Concluintes do Curso de Graduação em História da UFTM (2019-2)

Clayton Romano
Historiador vinculado ao Departamento de História da UFTM

Caras e caros concluintes, nobres colegas, familiares e amores das formandas e dos formandos de hoje, pessoas presentes, prezado legítimo reitor eleito, peço licença a todas e todos para me dirigir diretamente a esta bela turma de historiadores que a Universidade Federal do Triângulo Mineiro ora apresenta à sociedade.

A vida nos aproximou de maneira tão especial que agora cá estou, por decisão delas e deles, trajado como reza a liturgia, cumprindo ritos e protocolos que remontam em outros tempo e espaço a origem desta instituição chamada Universidade.

De certo modo, todo este cerimonial aqui montado busca ser a culminância da longa jornada vivida durante a graduação, momento para reafirmar o princípio que dá vazão à razão de ser da universidade, isto é, a unidade da diversidade de conhecimentos como valor universal.

Que, por ser universal, estende-se a toda gente. Numa República, como é o caso do Brasil, além da unidade de diversos conhecimentos, toda universidade comporta também a diversidade de sua sociedade, que se traduz material e historicamente em diferentes classes e interesses sociais.

Temos importantes universidades católica e presbiteriana, por exemplo, como PUC e Mackenzie. Há universidades capitalistas aos montes, segmentadas em faculdades ordenadas segundo interesse de classe. Aqui mesmo em Uberaba, temos a faculdade da associação de criadores de gado Zebu, a FAZU, ligada à ABCZ.

E temos, claro, as universidades públicas, hoje responsáveis por mais de 90% da pesquisa científica desenvolvida no Brasil. Universidades federais, estaduais e até faculdades municipais espalhadas país adentro, diferente das instituições privadas, não visam o lucro. Visam, sobretudo, a produção de conhecimentos civilizatórios centrada na promoção de plena cidadania.

Desigual desde sua criação, o Brasil conviveu com o escravismo por quatro séculos em seus quase 520 anos de história. Patrimonialista, patriarcal, personalista, escravista, excludente, nosso país transformou sua histórica desigualdade social em condição permanente para acúmulo de riqueza. E, também aqui, o peso de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.

Relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgado há pouco, em dezembro de 2019, coloca o Brasil como o 2º país com maior concentração de renda no mundo, atrás apenas do Catar, onde 1% da população de lá concentra 29% da riqueza. Aqui, 1% da população detém em suas mãos 28,3%, quase um terço de toda riqueza do país; já os brasileiros entre os 10% mais ricos ficam com cerca de 42% de tudo.

Por isso universidade pública e gratuita significa no Brasil a derradeira possibilidade de universalização do acesso ao ensino superior. Ensino superior que tardou a chegar em terras cabralinas. Durante séculos a elite dirigente local optou por enviar seus descendentes às instituições europeias, afinal, a ideia colonizadora daqui sempre foi a de acumular riqueza para regressar e desfrutar na metrópole.

Para efeito de comparação, enquanto a Universidade Nacional Maior de São Marcos foi fundada em 1551, no Peru, a criação da primeira “escola” de ensino superior no Brasil ocorreu somente após a fuga da corte portuguesa para cá, em 1808. Por aqui, universidade mesmo, pra valer, apenas no início do século 20.

E até a universidade pública, restrita aos ricos, se convertera então em mais um fator de exclusão social. Por muito tempo, e de alguma forma ainda hoje, o acesso ao ensino superior esteve facultado apenas às elites, com presença residual de setores médios, ficando reservado a estes os cursos tidos como instrumentais, as diversas licenciaturas entre eles.

Enquanto a Argentina teve na Reforma de Córdoba o início da universalização do acesso ao seu ensino superior, resultado de amplo movimento liderado por estudantes em 1918, o Brasil viveu sua “grande” reforma universitária com os militares, pelo alto, sob tortura e expurgo, a partir do final da década de 1960.

Reforma que expandiu a presença da universidade pública no território nacional, passando atender à demanda de elites e setores médios regionais, no entanto, sem abrir-se por completo à presença das camadas subalternas. Criada em 1969 e federalizada em 1978, a vizinha Universidade Federal de Uberlândia (UFU) é um bom exemplo.

De outro modo, a reforma dos ditadores também ampliou a participação das instituições privadas no ensino superior do país, revigorando a perversa máxima, que ainda prevalece em algumas praças, de que rico vai para a universidade pública, gratuita, e pobre, quando muito, vai para a universidade privada, paga.

A universidade pública forma dirigentes; a privada instruí a força de trabalho. Eis a regra instituída sob chancela oficial dos militares. Quadro que não mudou muito de figura desde então. A Constituição de 1988, por exemplo, aclamada como “constituição cidadã”, não aboliu por completo a legislação dos militares, limitando-se a reformá-la.

E mesmo as reformas universitárias de FHC e Lula, restaram amiúde em meras atualizações das bases lançadas durante a ditadura. FHC precarizou a universidade pública em favor de incentivos às instituições privadas. Lula, sem deixar de conceder vultosos recursos públicos aos interesses privados, alargou o alcance da universidade pública no país. A UFTM nasceu aí.

Criada em 1953 por obra de Juscelino Kubitschek e por ele federalizada, isto é, tornada pública, em 1960, a Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro, a antiga FMTM, transformou-se em universidade federal em 2005. Saltou de 3 para 24 cursos de graduação e outros tantos de pós-graduação num curto espaço de tempo.

O Curso de Graduação em História se iniciou em 2009 e a colação de grau de vocês, queridas e queridos, encerra a celebração dos 10 anos do nosso curso. Que começou bravamente com a querida professora Sandra, hoje aqui também homenageada.

Daquela primeira turma colhemos com satisfação os frutos. Sólida formação, desde o início, forneceu subsídio decisivo para que Anna Lívia, Giovanni, Marcus Vinícius, Robert, entre outros, sejam referências na profissão. São tantos casos assim em 10 anos, que seria no mínimo imprudente querer aqui rememorá-los, mas tendo a certeza de que todos eles atestam a excelência do Curso de Graduação em História da UFTM.

Sim, excelência. Excelência acadêmica: vários de nossos egressos são pós-graduados (mestrado e doutorado), ainda que não tenhamos uma pós-graduação em História na UFTM; o que, além de evidenciar uma lacuna, também revela a força do nosso diploma de graduação.

Excelência profissional: diversos egressos no serviço público, seja federal, estadual ou municipal, com praticamente todos lecionando, e outros tantos atuando na rede privada de ensino. Corpo docente qualificado, composto por doutores e pós-doutores.

Excelência universitária: o Curso de Graduação em História é um dos poucos cursos criados em 2009, ao lado do Serviço Social, por exemplo, a contar com uma identidade consolidada, altamente reflexiva, crítica e combativa, porém não menos ampla e plural, atuando decisivamente e se fazendo presente em diversos momentos da vida universitária.

Excelência cidadã: nosso curso se faz em diálogo permanente com a cidade. Parcerias e convênios como com a Câmara Municipal de Uberaba, por exemplo, que digitalizou e disponibilizou todo seu acervo de atas, reunidas desde o século 19, comprovam isso. ABCZ, Memorial Chico Xavier, Fórum de Uberaba, enfim, foram e são muitas as iniciativas de trabalho conjunto desenvolvidas com a cidade em uma década.

Também nos encontramos com o popular. O PIBID, programa de incentivo à docência, permite o contato direto de graduandas e graduandos com dezenas de escolas públicas em vários pontos da cidade. O PET-História, por sua vez, trabalhou com a comunidade dos bairros Estrela da Vitória, Jardim Planalto, Abadia e agora se concentra em Peirópolis, sob a impecável tutoria da professora Cláudia.

E o nosso segredo não é segredo pra ninguém. Trabalho sério. Bem feito. Aberto à participação e ao contraditório. Com respeito à pluralidade de ideias e valorização da relação dialógica.

Glaura, Alex, Robert (sim, temos um egresso da primeira turma como docente colaborador e orientador de excelentes pesquisas, convertidas em primorosos trabalhos de conclusão de curso), Alexandra, Anelise, Frizzo, Ilana, Marcelo, Flávio, Rodrigo, Tito, Wagner, Leandra, além de Sandra e Cláudia já citadas, enfim, docentes que estão ou passaram por aqui e que contribuem sobremaneira para a excelência do Curso de Graduação em História da UFTM. A diversidade de experiências e a unidade de expectativas, em torno do curso, são a marca desse timaço.

Que oferece uma matriz curricular contemporânea, tornando cada discente autor de sua própria graduação. Aqui cabe a graduandas e graduandos montar seu currículo de aulas, escolhendo inclusive boa parte de suas próprias disciplinas a partir de um rol temático e abordagem interdisciplinar, de acordo com sua área de interesse, tratando assim discentes como sujeitos adultos que são.

Sem esquecer de docentes de outros departamentos, tantas e tantos atuando com o mesmo compromisso. Quem, por exemplo, que as tenha cursado não cresceu com as aulas de economia política do legítimo reitor eleito da UFTM, professor Fábio César da Fonseca?

E por falar em reitor eleito, Fábio Fonseca, quem aqui não aprendeu com a vitória de Fábio e Patrícia em 2018?

A UFTM QUE QUEREMOS SER venceu duas vezes. A primeira, dramática, conquistada na comunidade universitária após virada surpreendente, graças à votação consagradora entre discentes. A segunda, tensa e sob escrutínio legal, em eleição do Conselho Superior. Vivemos esses momentos. Juntos.

Eis que o peso das gerações mortas e a esperteza de gente muito viva se fizeram presentes na UFTM. Interesses ocultos, talvez impublicáveis, se dedicaram a reescrever a história. Venderam a alma ao inquisidor iletrado de plantão e ressuscitaram o único artigo original da lei de 28 de novembro de 1968, dos idos da reforma universitária dos ditadores, não derrubado em quase quatro décadas de regime democrático.

Nem "constituição cidadã", nem FHC, nem LDB, nem Lula, nem REUNI, nem ninguém se dedicou a consagrar a autonomia universitária na escolha de seus reitores. Restava o artigo 16º da Lei nº 5.540/1968, reservando ao Presidente da República a nomeação de reitores em gesto monocrático. A UFTM foi a primeira vítima da monocracia herdada dos militares em quase duas décadas.

A pretexto de salvar a UFTM de suposta “balbúrdia comunista”, empossou-se como reitor personagem derrotado na comunidade universitária e no Consu, portanto ilegítimo, no mínimo infame, usado como que para tapar o Sol com a peneira. Que tenta exalar ares de legalidade, sem conseguir lidar com tantos interesses ocultos, quiçá inconfessáveis. Em vez de reescrita, esse garrancho da história converteu a vitória da UFTM em sua própria derrota enquanto universidade.

E para completar, apontado como “agente do comunismo internacional”, embora católico convicto e praticante, Fábio é associado ao Curso de História por muitos de seus detratores, embora tenha formação em Filosofia e Ciências Sociais. Para muitos, vejam só, Fábio, além de “agente da KGB”, é historiador. Cruzes!

De fato, historiadores de diferentes matizes, sejamos discentes ou docentes, costumamos nos posicionar e atuar como protagonistas na vida coletiva. Por isso somos acusados de “comunistas doutrinadores”. Nada mais falso. Aliás, quem dera fôssemos mesmo um batalhão de comunistas, pois quem sabe assim teríamos outro destino.

Não é esse o caso. Nem somos todos comunistas, tampouco somos doutrinadores. Tanto que a última colação de grau do curso contou com discurso proferido por discente concluinte de ode à Winston Churchill, expoente da direita no século 20, sem que isso causasse qualquer abalo sísmico.

Que estranha “doutrinação comunista” é essa que permite a um de seus doutrinados entoar em sessão pública ideias caras a conservadores e reacionários de todo o mundo? Ora, não há doutrinação alguma.

Temos entre discentes e docentes do curso, ao contrário, conservadores, liberais, social-democratas, socialistas, anarquistas e, claro, também comunistas, pois enquanto houver exploração capitalista haverá solo fértil para profusão de comunistas. Daí que se tente, desde sua fundação em 1922, e não se consiga acabar com o Partido Comunista Brasileiro, por exemplo.

Temos também católicos, evangélicos, espíritas, candomblecistas, umbandistas, agnósticos, etc. Há aqui mulheres, homens, negras, negros ou não, das mais diversas orientações sexuais, localidades geográficas (temos discente do Amapá!) e diferentes setores sociais.

Pragmáticos, sonhadores, poetas, cineastas, pesquisadores, especialistas, boêmios, madrugadores, esportistas, torcedores (e torcedoras), capoeiristas, artistas, cientistas, militantes, humanistas enfim. Tal ecletismo, fruto de nossa própria pluralidade, é o ponto de unidade da diversidade do nosso curso, ele mesmo uma versão monográfica e específica de uma universidade pública que seja gratuita, laica, popular, democrática e de qualidade.

Eis o quilate das historiadoras e dos historiadores ora ofertados pelo Curso de Graduação em História da Universidade Federal do Triângulo Mineiro à sociedade.

Vocês, queridas e queridos, são desde já artífices da consciência histórica desta e das próximas gerações. Estão, sem dúvida alguma, habilitadas e habilitados para empreitar por uma sociedade brasileira menos desigual, mais equânime e democrática em seus expedientes.

Por fim, um toque pessoal. Cheguei em Uberaba em 2010. Assumi como professor adjunto concursado em 12 de janeiro daquele ano. Vivi intensamente a partir de então cada um dos dias na UFTM, dedicando boa parte da vida a tornar melhor nossa universidade.

Exceto, como sabemos, os 21 dias que estive em coma, quando deixei de viver para sobreviver. E mesmo lá, inconsciente e inerte num leito frio, a UFTM me deu vida. De alguma maneira, que não sei explicar, vocês se fizeram presentes naquela UTI.

Também graças a vocês, cá estou, trajado de acordo com a liturgia, para agradecer e dizer que jamais conseguirei retribuir à altura o carinho de todas e todos.

Queridas e queridos colegas de ofício, parceiras e parceiros, cúmplices, amigas e amigos, camaradas, meu profundo muito obrigado!

Nos vemos na luta da vida! Onde venceremos!

Grato a todas e todos pela atenção.

Auditório Turmalina - UFTM
Uberaba, 28 de janeiro de 2020.

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