Mas não é

Clayton Romano
Historiador vinculado ao Departamento de História (UFTM)

Parece piada. Levou mais de um ano para o Ministério Público Eleitoral de Minas Gerais (MPE/MG) denunciar crime eleitoral ocorrido nas dependências da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), em setembro de 2018. Auditório da universidade foi utilizado para Aelton Freitas (PL), então buscando reeleição à Câmara Federal, fazer campanha eleitoral, prática vedada em prédios públicos, conforme prevê legislação em vigor.

Parece piada. Assinada em 04 de outubro de 2019, a denúncia do MPE/MG veio a público somente dez dias depois. Matéria sobre o assunto no Jornal da Manhã está publicada desde 0h do dia 15. O G1 – Triângulo Mineiro postou reportagem no final do dia, às 20h43. São denunciados na peça do MPE/MG o ex-deputado federal Aelton, o vereador “Kaká Se Liga” (PL) e a ex-reitora da UFTM, atual superintendente do Hospital de Clínicas da UFTM (HC/UFTM), Ana Lúcia de Assis Simões.

Parece piada. Para o promotor Laércio Conceição Lima, segundo a imprensa, “não há nenhuma dúvida que os investigados Aelton Freitas, vereador Kaká e Ana Lúcia de Assis Simões praticaram conduta [nos] artigos 377 e 346 do Código Eleitoral (Lei nº 4.737/65), em concurso de pessoas, previsto no artigo 29 do Código Penal. Se confirmadas as denúncias, os três podem ser condenados a até seis meses de prisão e multa” (G1, 15/10/2019; JM descreve algo parecido, 15/10/2019).

Parece piada. Denúncia anônima enviou uma série de vídeos para autoridade policial federal. Oito foram degravados pelo MPE/MG, incluindo vídeo oficial de campanha com Ana Lúcia declarando apoio a Aelton, onde ela diz: “são inúmeras as contribuições que a Universidade Federal do Triângulo Mineiro já teve para o seu trabalho, para o efetivo desenvolvimento da educação com o apoio do deputado Aelton Freitas, e é por isso que eu declaro meu apoio ao Deputado”.

Parece piada. Aelton Freitas já quase se deu mal por causa de outro vídeo. Suplente de José Alencar (PL), assumiu o mandato de senador por Minas Gerais quando Alencar elegeu-se vice-presidente de Lula (2002). Senador por 4 anos, sem suficiente capital político para pleitear sua reeleição, Aelton elegeu-se deputado federal em 2006. Depois em 2010. E novamente em 2014, mesmo após edição do Fantástico (21/07/2013) exibir imagens nada nobres do nobre edil.

Parece piada. Lá Aelton ensina correligionários a comprar votos e difamar adversários. “Uma aula com o que há de pior na política”, assim se apresenta a matéria em rede nacional. O ex-deputado começa lecionando sobre a “técnica do cartãozinho”. Manda-se imprimir 200 cartõezinhos, dizendo “nada”, reúne-se 20 “companheiros” com 10 cartõezinhos para cada e a missão de distribuí-los. Cada cartão valeria 100 reais. “O cara não vai votar nocê. Vai votar nos 100 reais”, diz Aelton.

Parece piada. Aelton também explica como difamar adversários. De acordo com ele, basta convocar um grupo de “três ou quatro pessoas que possa tá em boteco ou em ponta de rua soltando boato e fofoca”. Com isso o adversário “tem que desmentir e perder tempo naquilo”, argumenta o ex-deputado no vídeo. Confrontado com as imagens, primeiro alegou se tratar de “uma reunião fechada entre companheiros”, depois afirmou ser “brincadeira de mau gosto”.

Parece piada. Disse Aelton a repórter Cristina Serra: “Porque quando é brincadeira você pode fazer de mau gosto. Igual quando você brinca às vezes com a raça, às vezes com a cor de uma pessoa, você conta uma piada pesada, aquilo pode se tornar um processo”. Sobre soltar boatos contra o adversário: “Isso é natural. É igual jogo. É um jogo. Campanha é um jogo”. Diante da incredulidade da repórter sobre ser normal difamar, recua: “Não. Prefiro dizer o que você quer ouvir. Não é”.

Parece piada. A matéria deu em nada. Aelton reelegeu-se em 2014. Na ocasião produziu material de campanha, farto e colorido, voltado especificamente para a UFTM, onde ufanava-se por ser responsável pela transformação da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro (FMTM) em universidade (2005). Não há, porém, gramatura de papel couché que seja capaz de ilustrar tão bem a atuação de Aelton na criação da UFTM que suas palavras degravadas na denúncia do MPE/MG.

Parece piada. Em auditório da UFTM, às portas do primeiro turno das eleições de 2018, Aelton explana com detalhes os trâmites no Senado para a criação da universidade. Após breve introdução da anfitriã, que, depois de enumerar seus feitos (criação da UFTM, auxílio para HC e construção do campus de Iturama), diz conceder “essa oportunidade para que ele [se] apresente pra nós”, o ex-deputado narra seu “gol”. Conseguiu a “relatoria da UFTM na comissão de educação” no Senado.

Parece piada. A seguir soube de caso de uma mesma relatoria valer para duas comissões. Aelton foi além e viu a possibilidade de fazer a relatoria em plenário, para todas as comissões. Mas, segundo ele, não podia colocar o projeto na pauta. “Se puser na pauta, a assessoria dos outros Senador [sic] tudo ia ver, cada Senador tinha um interesse semelhante ao meu, eles podiam até autorizar o meu, desde que o deles tiver junto”. Foi então à presidência do Senado e a fez incluir na pauta do dia.

Parece piada. Ao fim da sessão, a presidência incluiu o projeto de Aelton na pauta. “Ninguém sabia de nada”. Feito o relato de criação da UFTM, projeto aprovado. “ACM [ex-senador Antônio Carlos Magalhães] viu que nós tínhamos criado a UFTM, ele foi na tribuna e falou: 'eu tô aqui há 24 anos pra criar o Recôncavo Baiano, não consigo. Um 'senadorzinho' de primeiro mandato vem e cria a UFTM'. Não importa ele ter me xingado, o gol já 'tava' feito”, regozijou-se o ex-deputado.

Parece piada. Aelton Freitas, “senadorzinho de primeiro (e único) mandato”, deu um passa moleque no lendário Toninho Malvadeza (UDN/ARENA/PDS/PFL/DEM). Incluiu a criação da UFTM na ordem do dia. “Mas ninguém sabia de nada. Ninguém se obsteve, ninguém sabia o que era o assunto”, relembra Aelton, ressaltando o fato em sua biografia: “Estou tentando meu quinto mandato, mas meu feito mais importante, pra mim, foi ter participado dessa transformação aqui!”.

Parece piada. A ex-reitora confirma a importância de Aelton em vídeo oficial da campanha do ex-deputado: “Pra começo de conversa, é importante dizer que nós somos Universidade Federal do Triângulo Mineiro por conta do trabalho do Deputado como relator do projeto lá no ano de 2005, que trabalhou muito intensamente para que conseguíssemos transformar a então Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro na atual Universidade Federal do Triângulo Mineiro”.

Parece piada. O ex-deputado também comentou sobre a criação do campus de Iturama. Benemérito, ressaltou a doação de terreno feita por sua família à UFTM. Quando a universidade demonstrou interesse em Iturama, “todos os vizinhos da cidade cresceram o olho, queriam um valor muito caro pra vender a área pra UFTM à época”, diz Aelton, emendando: “Conversei com minha família e doamos a área para a UFTM. O pedido da UFTM à época foi de 40 mil metros e nós doamos”.

Parece piada. O auditório Topázio Imperial da UFTM assistiu ainda “Kaká Se Liga”, que, espera-se, seja melhor vereador que analista político. Todas suas previsões fracassaram, entre elas: “o único candidato com real possibilidade – isso é importante falar – com real possibilidade de ser eleito chama-se Aelton”; “esse não é o momento de experiências, não é o momento do novo”. Aelton não reelegeu-se. Franco Cartafina (PP), 32 anos, elegeu-se deputado federal para seu primeiro mandato.

Parece piada. Aelton arremata o encontro sem rodeios: “O meu número é 2222, é um número muito fácil”. Procurados pela imprensa, os três denunciados alegam não terem cometido crime algum.

Parece piada. Mas não é.

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