Clayton Romano
Historiador vinculado ao Departamento de História (UFTM)
Passados pouco mais de 30 dias desde a nomeação do atual reitor da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), em 18 de junho, parece oportuno iniciar aqui um necessário balanço a respeito do que a universidade viveu a partir da proclamação do resultado da consulta à comunidade da UFTM, em 08 de junho de 2018. Não foi pouco.
Criada em 2005, apenas em 2010 a UFTM passou a escolher seus reitores por meio de consulta à comunidade universitária. Foi assim na recondução do professor Virmondes Rodrigues Junior, que exercera a reitoria pró-tempore desde a criação da universidade. O mesmo ocorreu na eleição da professora Ana Lúcia de Assis Simões, em 2014.
Os resultados colhidos por Virmondes e Ana Lúcia na consulta universitária legitimaram suas vitórias no Conselho Superior da universidade (Consu), órgão responsável por elaborar e encaminhar ao MEC a lista tríplice para nomeação. Virmondes (2010) e Ana Lúcia (2014) encabeçaram as respectivas listas, e foram nomeados.
Bastou acontecer o improvável para tudo mudar, pois, ao contrário das consultas anteriores, em 2018 venceu o grupo que não ocupava a cadeira de reitor. A então reitora e seu vice foram rechaçados pela comunidade. Venceu a oposição ao modo como os gestores lidam com a coisa pública, uma ampla frente que abraçou toda a UFTM.
E importante, seguindo as mesmas regras vigentes em 2010 e 2014: consulta à universidade, dividida em 3 segmentos (discente, docente e técnico-administrativo), cada um deles responsável por um terço no peso final dos votos. E foi assim em 2018, com a diferença que desta vez os vencedores eram os vencidos até ali.
O que era improvável e dava luz a um outro projeto de universidade, mais democrática e republicana nas suas relações institucionais, também fez brotar o inaceitável, visto na postura assumida pelos derrotados de simplesmente não admitir a derrota. Da recusa em ouvir a voz da UFTM, expressa em consulta absolutamente correta, nasce o inacreditável.
Jamais a UFTM viveu tamanho constrangimento. Contagem e recontagem sucessivas dos votos. Reafirmada a vitória dos professores Fábio César da Fonseca e Patrícia Maria Vieira, os derrotados não se conformam. Acusam irregularidades na consulta, acionam Ministério Público, Justiça Federal, Polícia Federal e… nada, porque, de fato, nada havia.
Somente cerca de 20 dias depois da consulta o Consu foi convocado para elaborar a lista tríplice. Mesmo acossado por acusações infundadas sobre a lisura do processo, o Consu referendou o resultado das urnas, com Fábio e Patrícia compondo a lista tríplice, que contava ainda com o ex-vice-reitor e candidato derrotado a reeleição em 2018.
E coube ao professor Luiz Fernando Anjo, então reitor substituto, assinar em tons nada cordatos o memorando encaminhado ao MEC com a documentação comprobatória e o resultado do processo de escolha do novo reitor da UFTM. O ex-vice-reitor insistia em desacreditar a consulta universitária, procurando “contaminar” a lista tríplice ora enviada.
Apenas em agosto de 2018 a documentação foi reconhecida pelo MEC, espalhada e “perdida” no protocolo do ministério. O desleixo foi tal (e de tal modo premeditado) que o MEC solicitou esclarecimentos à universidade, dando início a um longo processo. Inaugurou-se também as idas sucessivas dos derrotados à Brasília. E tome vale-tudo!
Sempre com o mesmo objetivo: deslegitimar a escolha da UFTM. Para tanto, os derrotados lançaram mão de todo e qualquer artifício. Chegaram a produzir um dossiê contra o reitor eleito, recheado de exageros e absurdos, que terminou na mesa do então secretário da Casa Civil e atual ministro da Educação, Abraham Weintraub.
Amparado em ilações típicas do momento político no país, o tal dossiê transformara o reitor eleito legitima e legalmente em um agente infiltrado do movimento comunista internacional. Ainda no governo Temer, os derrotados fizeram circular foto do professor Fábio num ato em defesa da universidade pública federal, associando-o aos “vermelhos”.
Sim, Fábio tem trajetória militante, fato que nunca escondeu. No entanto, sua eleição representou algo muito maior que posições partidárias isoladas, reunindo adeptos dos mais variados espectros políticos, todos concordando sobre a necessidade de transformar a vida institucional da UFTM, afastando-a do compadrio autoritário e mesquinho.
Para citar exemplo bem vivo: a vitória de Fábio e Patrícia esteve ancorada em tão sólida vontade coletiva que fez petistas e bolsonaristas andarem de mãos dadas (!), porque não supunha o embate direita versus esquerda e sim uma clara posição sobre a urgência de fazer da UFTM uma universidade de fato, com respeito a diversidade e ao conhecimento.
A abrangência do significado da eleição de Fábio e Patrícia também pôde ser confirmada na pluralidade de apoios políticos recebidos. Sim, a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) declarou apoio publicamente, assim como fizeram os deputados federais Zé Silva (SD), que votou pelo impeachment de Dilma em 2016, e o recém-eleito Franco Cartafina (PP).
Os derrotados, porém, tramavam às escuras e recorreram a um velho conhecido, o ex-senador e ex-deputado federal Aelton Freitas (PL). Autor do projeto de lei que criou a UFTM, Aelton estreou em rede nacional no Fantástico (2012), flagrado ensinando aliados a comprar voto e a disseminar mentiras sobre adversários. Não se reelegeu em 2018.
E olha que os derrotados da UFTM tentaram ajudar. Em desrespeito a legislação eleitoral vigente, Aelton foi novamente filmado em 2018 pedindo voto a servidores federais da universidade nas dependências da UFTM, com consentimento e presença da reitoria pró-tempore. Ato feito sem publicidade e transparência, requisitos básicos da coisa pública.
Portanto se houve partidarização na escolha do novo reitor da UFTM ela se fez por obra e fé dos derrotados na consulta universitária e no Consu. Tanto que a nomeação do ex-vice-reitor, duas vezes derrotado em 2018, se deu por via política. Estão por aí selfies do reitor nomeado com o senador Carlos Viana (PSD) e o vereador Samuel Pereira (PL).
Numa tacada, a UFTM viu sua decisão ser embargada por políticos em Brasília e ser nomeado alguém que universidade rejeitou na consulta e no Consu. Pior, viu a nomeação de alguém que não debateu com a universidade, que não enfrentou o escrutínio sobre ser capaz ou não de conduzir a vida da instituição pelos próximos 4 anos.
A nomeação de Luiz Fernando Anjo, enfim, expõe os termos mais sinceros da prática política e institucional dos derrotados em 2018. Conchavo de bastidor, trapaça, virada de mesa, golpe, chame-se como quiser. O fato, porém, é que o reitor nomeado não tem legitimidade alguma, é um improviso, um malfeito de gente incapaz de assumir a derrota.
Nem que isso sacrifique a universidade, sufocando aquilo que a faz respirar. Pobre UFTM.
Nenhum comentário:
Postar um comentário