Laranjal

Clayton Romano

Produto corriqueiro da bazófia programática vigente na grande maioria dos partidos brasileiros, o PSL (Partido Social Liberal) se converteu em fonte inesgotável de candidaturas laranjas. Não é o único, porém, nenhum exerce hoje tanto poder quanto ele.

Fundado em 1994, o partido do ex-capitão e atual presidente da República não passava de uma sigla “nanica” até 2018, tendo apenas um deputado federal e 16 deputados estaduais. Tudo mudou com a chegada do "mito" ao partido, no início do ano passado.

O PSL saltou para 76 deputados estaduais, 52 federais, 4 senadores e 3 governadores eleitos. Foi o partido mais votado em 2018, recebendo 11.640.033 votos para deputado federal. Hoje com 54 deputados, divide com o PT o posto de maior bancada na Câmara.

Surgiu das urnas como legítima expressão da insatisfação de boa parte da sociedade brasileira em relação aos políticos, aos partidos e ao sistema político de modo geral. Porta-voz da “luta contra a corrupção”, livraria o país de ilícitos cometidos na vida pública.

Não é o que acontece. Ao contrário, brotam aos borbotões denúncias de crime eleitoral cometido pela campanha do PSL nos estados. Até o momento, candidaturas em Minas Gerais, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro são alvo de questionamentos.

O principal deles diz respeito ao uso sistemático de verba pública do fundo eleitoral para abastecer empresas ligadas a candidatos do partido. O caso gaúcho é o mais gritante. A candidata a senadora pelo PSL pagou a neta (!), a filha (!!) e sua própria empresa (!!!).

O esquema do PSL funcionava assim. Em razão dos escândalos no financiamento de campanhas eleitorais envolvendo empreiteiras, as candidaturas deixaram de receber das empresas para serem financiadas com recurso público distribuído entre todos os partidos.

Parte desse recurso vai compulsoriamente para as candidatas de cada partido. Conforme prevê a legislação eleitoral, os partidos são obrigados a ceder cerca de um terço de suas candidaturas às mulheres. Os desvios praticados pelo PSL envolvem essas candidaturas.

A primeira denúncia se deu em Minas. Candidata a deputada estadual acusou o atual ministro do Turismo, então candidato à reeleição para deputado federal e presidente do PSL no estado, de utilizar assessores para pressioná-la a devolver o dinheiro repassado.

Ao apurar a história, a Folha de S.Paulo constatou que outras candidatas que receberam repasse eleitoral o despejaram em empresas vinculadas a assessores do presidente do PSL/MG e tiveram desempenho pífio nas urnas. Candidaturas laranjas, pois.

Aconteceu exatamente o mesmo em Pernambuco. Candidata gastou milhares de reais e não obteve 300 votos. O episódio resultou na ruidosa demissão do ministro da Secretaria Geral da presidência e então coordenador geral da campanha de Jair Bolsonaro em 2018.

No Rio de Janeiro, mais do mesmo, com um agravante. Envolvido com membros da milícia e depósitos suspeitíssimos em sua conta, o filho do presidente da República e hoje senador também patrocinou esquema de extorsão a candidatas. Eis o laranjal. Até agora.

Clayton Romano, historiador vinculado ao Departamento de História da UFTM.

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