Clayton Romano
Historiador vinculado ao Departamento de História (UFTM)
Cerca de uma semana após a nomeação do atual reitor da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), a ex-reitora, candidata derrotada à reeleição em 2018 e então reitora temporária, professora Ana Lúcia de Assis Simões, publicou carta em jornal de Uberaba, narrando o que prometia ser “a verdade sobre a nomeação para reitoria”. Dizia:
“Desde a nomeação do professor doutor Luiz Fernando dos Santos Anjo à reitoria da UFTM, a esquerda [?] e seus movimentos [?] vêm alardeando a narrativa de golpe contra [a] democracia na escolha do reitor da instituição” (Jornal da Manhã, p. 2, 26 jun. 2019).
Ora, não é disso que trata a matéria em tela: a “verdade sobre a nomeação para reitoria”. A “esquerda e seus movimentos”, seja lá o que signifiquem, podem alardear a narrativa que lhes der na telha. Assim é numa democracia. Vincular, porém, a nomeação do atual reitor ao fla-flu direita-esquerda é querer jogar para a plateia. Nada disso.
É simples. A disputa na UFTM em 2018 não foi encarada e decidida na balança direita versus esquerda, e sim na dinâmica situação-oposição, que não se fez aqui, como de resto não se faz em lugar algum, numa automática associação direita-esquerda. Pode-se ser de oposição e ser de direita, vide a eleição do atual presidente da República, talquei?!
Sim, a vitória de Fábio César da Fonseca e Patrícia Maria Vieira contou com apoio entusiasmado e sincero de simpatizantes de “PT, Psol, PSTU e PCB”, como escreveu a ex-reitora, que esqueceu-se de mencionar outros tantos. Não é difícil ver que Fábio e Patrícia estavam entre eleitores de Haddad, Boulos, Ciro, Alckmin, Amoêdo, Bolsonaro, etc.
É habitual na democracia a convivência e mesmo a convergência entre ideias políticas dissonantes. Se de fato há uma sociedade política constituída no país, ela se expressa em palcos como a universidade. Fábio e Patrícia souberam sim extrair da pluralidade seu ponto de convergência, tanto que venceram na consulta e no Conselho Superior (Consu).
Além do mais, pau que dá em Chico, dá em Francisco: também entre apoiadores e entusiastas dos derrotados houve quem já disputara cargo eletivo e exercera direção em partido de trabalhadores. Até mesmo o ex-deputado federal Aelton Freitas (PL), aliado da ex-reitora, não se enquadraria no fla-flu, pois votou contra a saída de Dilma em 2016.
Definitivamente a moldura direita-esquerda não comporta o quadro total da UFTM e não explica a tal “verdade sobre a nomeação da reitoria”. Ao menos não explicitamente. Porque, na verdade, o rótulo de “esquerda” dado pelos derrotados aos vencedores na consulta universitária e no Consu foi uma canga que não serviu no cangote desejado.
Os fatos a negam. “Pela consulta acadêmica, após apuração, a Chapa 2 [Fábio-Patrícia] acabou sagrando-se vencedora com 3.187 votos (50,47% dos votos válidos) e a Chapa 1 [Ana Lúcia-Luiz Fernando], com 2.649 votos (49,53% dos votos válidos)” (Jornal da Manhã, 25 jun. 2018).
“Polícia Federal não instaurará inquérito para apurar eventuais irregularidades na eleição informal da UFTM, o que é pleiteado pela chapa derrotada” (Jornal da Manhã, 26 jun. 2018). “MPF arquiva denúncia de irregularidade no processo eleitoral para reitor da UFTM” (Jornal da Manhã, 18 ago. 2018). Estariam JM, PF e MPF a serviço da Ursal?
Não houve irregularidade no processo de consulta à universidade. Ponto. Acusações de troca de cédulas e outras mais elencadas por Ana Lúcia em sua carta não passavam de cortina de fumaça, talvez para desviar olhos e atenções e assim agir nos bastidores, quem sabe? O certo é que a narrativa de “irregularidades” na consulta não se sustenta.
Mas um ponto mencionado por Ana Lúcia teve sim amparo nos fatos: “Houve o uso recorrente do telefone celular pelos mesários em suas posições de trabalho, o que pode ter facilitado a troca de informações privilegiadas”. Sim e em favor da chapa derrotada, prática insistentemente coibida por fiscais na seção eleitoral do HC-UFTM.
Aliás, teria sido mais oportuno se a ex-reitora dissesse com todas as letras o que faziam tantos supervisores e dirigentes do HC em torno das urnas lá instaladas, assediando votantes nos corredores, conduzindo eleitores até a mesa de votação. Miseravelmente, prática comum no HC em períodos eleitorais desde a Faculdade de Medicina (FMTM).
A verdade é uma só, inescapável: os derrotados jamais imaginavam perder os postos. Perderam. E perderam mais, além da compostura. Perderam o respeito. Por si mesmos, por suas respectivas contribuições ao destino da UFTM, e por seus pares vencedores, profissionais sérios que dedicam parte importante de suas vidas à universidade.
Perderam ainda a eleição no Consu, que não se deixou seduzir pelo canto de sereia das eventuais “irregularidades” na consulta universitária. Fábio venceu a votação no conselho superior com 31 votos (52%) dos 59 votantes. Luiz Fernando, 24 votos. Patrícia e Norma Lúcia da Silva tiveram 1 voto cada. No desempate, Patrícia venceu com folga (59%).
Houve “irregularidade” na escolha do Consu? Não parece. Afinal, aí está o atual apego dos derrotados à “legalidade” da lista tríplice, usada como justificativa para a nomeação do ex-vice-reitor derrotado na consulta e no Consu. E se é assim, como a “novela de escolha do reitor da UFTM” (Jornal da Manhã, 28 ago. 2018) se arrastou por tanto tempo?
“MEC não indica reitor da UFTM e alega desconformidades em lista” (Jornal da Manhã, 22 ago. 2018). Se a lista tríplice foi concebida sem “irregularidades” e se seu envio fica estatutariamente reservado à presidência do Consu, então ocupada por Ana Lúcia e Luiz Fernando, aí residiria a raiz das “desconformidades” apontadas pelo MEC, não?
“O que realmente ocorreu na UFTM?”, título da publicação da professora Ana Lúcia, é uma pergunta ainda sem resposta. Sem revelar as razões de tamanha demora e de chulo zelo, para dizer o mínimo, no envio ao MEC da lista tríplice (sem “irregularidades”), a indagação da ex-reitora não pode ser respondida. A “desconformidade” explica a demora.
Espera que durou um ano e fez recrudescer antagonismos entre os grupos dirigente, derrotado na consulta e no Consu, e subalterno, vencedor na consulta e no Consu. Também permitiu aos derrotados repetir a esmo sua “verdade sem fatos” (fake news?) aos quatro cantos de Brasília: houve “irregularidade de esquerda” na UFTM. Falso.
Os fatos a negam. “Trinta e um votos salvam a lista tríplice da UFTM”, resumiu Wellington Cardoso, jornalista e Secretário Municipal de Defesa Social na atual gestão de Paulo Piau (MDB), em sua coluna após a votação no Consu (Jornal da Manhã, 26 jun. 2018). Será que o colunista que integra o governo do outrora relator do Código Florestal é comuna?
Se é isso, cabe avisá-los, porque de certo nem Cardoso nem Piau saibam. Inacreditável. A mentira (paira) sobre a UFTM.
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