Historiador vinculado ao Departamento de História (UFTM)
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| Imagem: Chumbo Gordo. |
A vitória de liberais e nacionalistas resultou no arranjo político-institucional de 1849. Sem guilhotinar cabeças como os franceses (1789), instituiu a monarquia constitucional dinamarquesa em vigor. A trajetória e a obra de Andersen trazem a marca da simbiose entre conservadorismo e liberalismo, tão em voga neste Brasil do século 21.
Filho de sapateiro, perdeu o pai ainda criança. Conviveu com a miséria. Teve parte de seus estudos bancados por Frederico VI (1768-1839). Até hoje repercute o debate sobre eventual elo genealógico de Andersen à nobreza dano-norueguesa. Publicou diversos contos e é reconhecido como o precursor da literatura destinada às crianças.
Quem não conhece O Patinho Feio (1843)? Um cisne criado entre patos, rechaçado por ser estranho e diferente quando filhote, e que crescido se dá conta de sua beleza ao se ver ao lado de cisnes, passando a ser respeitado por todos. Moral rasa da história: o excluído (burguês) é mais belo (aristocrata), logo superior (evoluído).
Inspirado em antigo conto popular, A Pequena Sereia (1837) explicita ainda mais a fusão entre liberalismo e conservadorismo. Caçula de seis sereias salva um príncipe da morte ao subir à superfície pela primeira vez. Apaixonada por ele, dá em troca sua voz a uma bruxa para se tornar humana. Preterida, se recusa a matá-lo para voltar a ser sereia.
Morre após ele se casar com outra, mas ao contrário das demais sereias não desparece como espuma no mar. Vira espírito, recompensada por sua devoção ao ser amado. Em resumo, uma sereia (subalterna) ama um príncipe (realeza) e, desprezada, não o sacrifica (revolução) por amor (romantismo), alcançando assim a eternidade (constituição).
(Sem perder o fio da meada, o casamento entre liberais e aristocratas está longe de mera história da carochinha, encontrando eco no Brasil do presente. Não custa lembrar: o empresário Luiz Philippe de Oleáns e Bragança, deputado federal eleito em 2018 pelo Partido Social Liberal (PSL/SP), exibe a nobiliarquia de Príncipe de Orleáns e Bragança).
Voltando ao 19. Andersen não retratou o conservadorismo liberal dinamarquês apenas sob apaixonado romantismo, sublinhando com leveza e graça evidentes limites da realeza. A Roupa Nova do Rei (1837) é exemplar, pois expõe com humor a soberba e as fragilidades do absolutismo. Mostra como o monarca, de fato, era o bobo da corte.
Ludibriado por dois "vigaristas" que diziam tecer trajes vistos apenas por aqueles que “tivessem as qualidades necessárias para desempenhar suas funções”, o rei, “apaixonado por roupas novas”, encomendou então novo traje aos supostos tecelões, que simulavam a confecção e os nobres, ao testemunharem fingindo ter tais "qualidades", atestavam vê-lo.
O tempo passava e os "vigaristas" extorquiam o rei enquanto ele enviava emissários para checar o trabalho. Quando enfim anunciam o término, os tecelões ouvem dos cortesãos: “É magnífico!”. À sua volta subordinados alardeavam a beleza das peças. O monarca, porém, não via tecido ou roupa alguma diante de si:
“'Mas o que é isto?” – pensou o rei. 'Não estou vendo nada! Isso é terrível! Serei um tolo? Não terei capacidade para ser rei? Certamente não poderia acontecer-me nada pior.' E assim pensando, exclama: 'É realmente uma beleza esse tecido!' 'E merece minha melhor aprovação'”.
Os "vigaristas" seguiam: “Aqui estão suas calças. Este é o colete!!! Veja, Vossa Majestade, aqui está o casaco!! Finalmente, dignai-vos a examinar o manto!! Estas peças pesam tanto quanto uma teia de aranha. Quem as usar mal sentirá o seu peso”. “Que bem assenta este traje em Sua Majestade!!!". E arrematavam: "É uma roupa magnífica!”.
Ao rei finalmente se trajar e dizer “pronto”, "camaristas" correram a segurar o manto e “começaram a andar com as mãos no ar, carregando nada, pois também eles não se atreviam a dizer que não viam coisa alguma. À frente o rei andava orgulhoso e todos os que o assistiam das ruas e das janelas, exclamavam: 'Como está bem-vestido o rei!'...”.
Impressionante. Dois séculos depois Hans Andersen traduz como poucos a farsa criada em torno do processo de escolha e nomeação do atual reitor da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), que viveu a eleição de Fábio César da Fonseca por sua comunidade universitária e seu Conselho Superior (Consu), e tem hoje outro reitor.
Nunca será demais recordar: Luiz Fernando Resende dos Santos Anjo, que assina como atual reitor da UFTM, foi derrotado tanto para se reeleger vice-reitor quanto a encabeçar a lista tríplice enviada ao MEC em 2018. Ao se submeter ao escrutínio do Consu, justificou-se acusando fraude na consulta universitária que deveria orientar a decisão do conselho.
Se tramou por mais de um ano uma roupa nova para a UFTM, com semelhante matéria-prima utilizada pelos "vigaristas" de Andersen: “nada”. As acusações protocoladas na Polícia Federal e Ministério Público Federal restaram arquivadas por policiais e bacharéis. Não importa. Nobres são somente aqueles que veem.
Preocupados em se fazer crer, fabricaram um dossiê contra Fábio, convertido em infiltrado secreto da KGB a serviço do Foro de S.Paulo, logo membro ativo da revolução comunista mundial. Novamente o engodo se fez notar. Circulou até uma sátira nas redes sociais, ligando o vencedor na consulta e no Consu ao Illuminati; pode?!
Não importa. Nalgum momento alguém haveria de enxergar a vestimenta tecida. E tal qual o conto de Andersen, realmente houve quem disse ver algo onde nada havia. Neocamaristas, neocortesãos, neoprimeiro-ministro, todos aclamaram a veracidade da nova roupa real, costurada por neotecelões tão embusteiros quanto os de Andersen.
E mesmo a cidade à primeira vista, procurando expressar suas “qualidades”, se pôs a admirar as recém-criadas vestes. Basta ver a defesa ardorosa dos apaniguados. No conto coube a uma criança, a uma menina da multidão gritar de súbito: “O rei está nu!!!”.
“'Ouçam! Ouçam o que diz esta criança inocente!' – observou o pai a quantos o rodeavam. Imediatamente o povo começou a cochichar entre si. 'O rei está nu! O rei está nu!!' – começou a gritar o povo. E o rei ouvindo, fez um trejeito, pois sabia que aquelas palavras eram a expressão da verdade, mas pensou: 'O desfile tem que continuar!!' E, assim, continuou mais impassível que nunca e os camaristas continuaram, segurando a sua cauda invisível”.
A realeza da UFTM tenta seguir com o desfile, mas todo povo já sabe: o rei(tor?) está nu!

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