Caras de pau

Clayton Romano

Um espectro ronda o país. É o espectro do comunismo, aqui erroneamente associado aos 13 anos de governo petista e consagrado como o próprio inferno em vida caso o PT volte a governar. Ocorre que o “anticomunismo” ora propalado é, na verdade, “antipetismo”.

E tal como suas respectivas antíteses, comunismo e petismo são coisas bem diferentes. Não é preciso muito para notar. É simples. Comunistas lutam pelo fim do capitalismo e de suas contradições. Petistas praticam a gestão do capitalismo numa versão popular.

Se houve momento em que setores do PT exibiam certa verve socialista, há muito esse tempo passou. Os petistas exibem facilidade descomunal em conciliar capital e trabalho ao menos desde o início dos anos 1990. Aspecto visto também nos aliados que somou.

Lula venceu em 2002 numa aliança com o Partido Liberal, extinto PL. Governou com velhas raposas. Em 8 anos, José Sarney, Fernando Collor, Paulo Maluf, entre outros, compuseram em algum instante a base governista no Congresso Nacional. E tem mais.

Nem mesmo o principal partido de oposição escapou. Minas Gerais, por exemplo, viu “Lulécio”, voto em Lula para presidente e Aécio Neves (PSDB) para governador em 2002 e 2006, e “Dilmasia”, voto em Dilma e Antônio Anastasia (PSDB) em 2010.

Pragmático que só ele, o petismo tratou e aliou-se com praticamente todo o arco partidário. Na extrema esquerda o PCO é exemplar. Criado após a expulsão da corrente Causa Operária do PT, serve hoje aos propósitos da estratégia petista e do lulismo.

Na extrema direita, petistas já foram vistos de braços dados com partidários do PP e mesmo do DEM (parte significativa da atual bancada do PT na Câmara dos Deputados acaba de despejar seus votos em Rodrigo Maia). Sem falar de PRB, PSD, PR, PTB, etc.

Não há, portanto, qualquer possibilidade de associação do petismo ao comunismo. Quem assim procede o faz por ignorância ou má-fé, supondo que “ser de esquerda” significa necessariamente “ser comunista”. Nada disso. A noção de “esquerda” traz outras forças.

No Brasil comporta comunistas, assim como socialistas, libertários, social-democratas, setores trabalhistas, nacionalistas, liberais. Pode-se “ser de esquerda” e não “ser comunista”. Parece ser esse o caso do petismo e de seu capitalismo popular brasileiro.

Não é preciso ser guru de ninguém, nem morar nos states, nem escrever livros caça-níqueis (e otários) para ver que petismo e comunismo não são sinônimos. Nunca foram. Insistir no estratagema sabendo da notória distinção implica em mentir descaradamente.

Aquele que age desse modo recorre ao centenário anticomunismo brasileiro (do qual, vale dizer, petistas compartilham desde a fundação do PT em 1980) tentando ressuscitar o fantasma do comunismo, que, no passado, já oprimiu os cérebros das elites locais.

Cria-se uma fantasia, algo sem amparo na realidade dos fatos, e passa-se a difundir distorções como se verdades fossem. “Teóricos” da “nova direita” são os grandes operários da falácia vendida aos quatro cantos de que o PT é comunista. Caras de pau.

Clayton Romano, historiador vinculado ao Departamento de História da UFTM.

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