Clayton Romano
A geleia programática do republicanismo brasileiro garantiu historicamente o surgimento de pérolas partidárias em solo nacional. Indício do hiato existente entre vida política e vida vivida, sempre terminou por exibir enorme distância entre partidos e cidadãos no Brasil.
Função política e participação partidária estão reservadas à ação de poucos e doutos desde o Império. A profusão de partidos surgidos após a criação da República (1889), de norte a sul, se deu em grande parte graças a oligarquias e grupos restritos de interesse.
Mesmo partidos operários, muitos oriundos do anarco-sindicalismo e animados pela presença de imigrantes europeus (sobretudo, italianos e espanhóis), foram organizados sem amplo engajamento. É exemplar o caso do PCB e de seus nove fundadores (1922).
A inédita mobilização em torno de nova Constituição (1934) não impediu (e talvez tenha até estimulado) a supressão dos partidos durante o Estado Novo (1937-1945). Dizia-se à época que não deveria haver intermediários entre líder político (chefe de Estado) e povo.
Vale lembrar que o próprio Getúlio Vargas, ditador que suprimira a existência dos partidos políticos por quase uma década, se tornaria criador de duas das principais legendas partidárias entre 1945 e 1965: PSD e PTB, nessa ordem, hegemonizaram o período.
Todos os partidos então existentes foram cassados pela Ditadura Militar (1964-1985), que, para simular um ambiente democrático, forçou o aparecimento de ARENA e MDB. Os militares criaram na prática um bipartidarismo artificial que reforçou a aversão partidária.
Há 30 anos Fernando Collor de Mello era escolhido o primeiro presidente eleito por voto direto desde Jânio Quadros (1960), concorrendo pelo neófito PRN, ou Partido da Reconstrução Nacional, fundado no ano anterior (1988) sem registro de presença popular.
O PRN elegeu Collor (1989), poucas dezenas de deputados federais (40 em 1990 e 1 em 1994) e dois senadores (1990). Praticamente deixou de existir com o impeachment (1992) e, como todo partido brasileiro em crise, alterou sua nomenclatura para PTC (2000).
Também criado em 1988, o PSDB veio ao mundo por obra de dissidentes do PMDB, egressos do “MDB autêntico” (grupo que liderou a resistência democrática que pôs fim à ditadura). Venceu para a presidência (1994 e 1998) aliado ao PFL, dissidência da ARENA.
Certamente o mais exitoso projeto partidário visto até ali, o PT assumiu a Presidência da República (2003) após ter perdido três eleições presidenciais consecutivas (1989, 1994 e 1998), já com mais de duas décadas de vida (1980). Deixou o poder acossado (2016).
Não deveria haver estranhamento, portanto, quando surgem ocorrências de candidaturas-laranja no partido do atual mandatário da nação. Afinal, o PSL, ou Partido Social Liberal (1994), bem representa a bazófia vista nos programas políticos dos partidos brasileiros.
Traz liberal no nome, mas se declara conservador. Diz ser herdeiro do “liberalismo social”, de garantias individuais atreladas aos direitos sociais e atuação do estado, mas se dispõe a privatizar o patrimônio nacional sem dó. Sem consistência, sem polpa, o PSL virou suco.
Clayton Romano, historiador vinculado ao Departamento de História da UFTM.
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