Clayton Romano
Bastou pouco mais de um mês para a fantasia se desfazer. Hoje está claro que o governo de Jair Bolsonaro (PSL), ao contrário do que supunham aqueles que nele depositaram votos e esperanças, não será a consagração em vida da terra prometida. Não mesmo.
Primeiro porque o ex-capitão e seu séquito são expressão viva da precária formação democrática da sociedade pós-Ditadura Militar (1964-1985). Algo que não requer muito esforço para se confirmar, haja vista a abundância de declarações e gestos bolsonaristas.
A enorme dificuldade em lidar com o contraditório, via de regra apelando à violência para afirmar argumentos ou simplesmente para eliminar antagonistas, tem sido até aqui comportamento comum dos novos ocupantes de gabinetes e palácios no Planalto Central.
Reflexo de gente incapaz de lidar de modo democrático com divergências e conflitos, faz brotar toda sorte de iniciativas de cerceamento à cidadania. O fim das liberdades (de cátedra, de opinião, de expressão, de escolha, etc.) dá o tom da “nova (?) era”.
É a democracia do “prendo e arrebento”. Monolítica, lembra a nefasta “dialética dos punhos”, “dos revólveres”, da Itália fascista (1922-1945). “Respeitar a democracia”, como tem dito o ex-capitão e atual presidente, não basta. É preciso dizer qual democracia.
O Brasil também não será o paraíso na terra porque, diferentemente do anunciado, o governo Bolsonaro não é nem está imune à corrupção e suas diversas formas de ilicitude. Uma rápida consulta aos jornais do último mês e meio fornece vários exemplos.
Primeira-dama recebendo depósito de investigado. Presidente confirmando o depósito (!). Vice com filho faturando alto salário, ministros (isso, no plural) com longa capivara nos registros policiais (caixa dois, improbidade administrativa, candidaturas laranjas). Pode?
Nenhum exemplo, porém, diz mais que o envolvimento do senador Flávio Bolsonaro (PSL/RJ) com inacreditável sequência de transferências bancárias que somam milhões e com dirigentes de associações criminosas no Rio de Janeiro, alguns dos quais foragidos.
Aliás, “zero-um” não é o único envolvido com milicianos. Além do primogênito, o atual presidente está até o pescoço nessa. Não precisa ser expert. Dê um Google e veja tantas quantas manifestações de Jair Bolsonaro em apoio às milícias se quiser achar. É fácil.
Resumo da ópera: o presidente da República e seu filho senador da República se relacionam com organizações comprovadamente criminosas, que afrontam o poder do Estado e desprezam o conjunto de leis que deveriam regular a vida do país. Incrível!
O mitológico conto de fadas vendido durante as eleições de 2018 foi de vez para o beleléu quando prometeu uma nova forma de fazer política e entregou o mais do mesmo. A tal reforma da previdência, por exemplo, vai lesar a maioria. O que há de novo nisso?
Ingerência do governo na eleição do presidente do Senado é o quê? O novo-velho Brasil.
Clayton Romano, historiador vinculado ao Departamento de História (UFTM).
Nenhum comentário:
Postar um comentário