O grande partido do Brasil
Clayton Romano
Que a deposição de Dilma Roussef (PT) não foi impeachment nem "golpe", já se sabe. O que ainda não se sabe é o que faziam os defensores da deposição da ex-presidente vestidos com a camisa da seleção de futebol em manifestações de cunho político.
Sim, lá também estava a bandeira nacional, sempre presente nas mobilizações políticas do Brasil pós-ditadura. Mas a onipresença do verde-amarelo, desta vez, sugeria irrestrito "patriotismo" de seus participantes, certos de que livrariam de vez o país da corrupção.
Havia, portanto, claro viés "nacionalista" nas alegorias adotadas durante as manifestações anti-Dilma. E ainda que difuso (afinal, foi de Wall Street a Duque de Caxias), tal "nacionalismo" foi majoritariamente estampado na "amarelinha" da CBF.
Daí a dúvida: o que fez uma multidão valer-se do símbolo maior do futebol brasileiro para expressar seu "nacionalismo", seu "patriotismo", sua luta "anticorrupção"? Dito de outro modo, por que raios aqueles brasileiros mobilizaram o futebol ao fazer política?
Não é de hoje que o futebol tem presença cativa na formação da identidade nacional. Desde que desembarcou aqui, trazido nas malas de Charles Miller (1894), significou muito mais que mero esporte. Apropriado por subalternos Brasil afora, fez-se popular.
Ganhou as várzeas, ergueu estádios. Coroou rei um descendente de escravos e incluiu milhões à vida coletiva, isto é, ao exercício do associativismo. Rara obra da sociedade civil feita sem tutela, concessão ou subvenção estatal, logo se tornou alvo da política.
Getúlio Vargas e CBD (Confederação Brasileira de Desportos) oficializaram a simbiose ainda nos anos 1930. A partir de então e até hoje, o futebol e mais precisamente a seleção brasileira ocupam lugar de destaque na composição da identidade do país.
Traumas e sucessos da seleção são traumas e sucessos da nação. Vide o "complexo de vira-lata" (1950) e o "Brasil potência" (1970). Ou então o "país do Real" (1994) e o "trágico 7x1" (2014). Ato contínuo, aqui resultado de futebol assume dimensão política.
As duas décadas de ditadura militar (1964-85), porém, operaram uma conversão decisiva. Interditados os canais de representação e participação política, tendo dois partidos criados artificialmente (ARENA e MDB), coube ao futebol um papel inédito.
Mais que simples "alienação" ou mera expressão identitária, os militares dedicaram ao esporte bretão a tarefa de representação e participação civil da sociedade. Calados partidos, sindicatos e movimentos, a res publica se fez em arquibancadas e gerais.
E se a vida pública migrara da política para os campos de futebol, gerações de brasileiros passaram então a extrair dali noções essenciais para seu comportamento político. Inevitável, a precária identificação política deu luz a um partido de novo tipo.
Criada em 1979, atual sinônimo de corrupção, a CBF é o grande partido do Brasil.
Clayton Romano, historiador vinculado a Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) e editor de bandeira-vermelha.blogspot.com.
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