Clayton Romano
Durou pouco mais de um ano. Até que Lula, sempre ele, tratasse de botar ponto final na celeuma. Ao lado de Dilma Roussef, vítima do "golpe de 2016", e após comparar-se a Getúlio, JK e Jango, anunciou: "Estou perdoando os golpistas" (30/10/17).
Talvez nem fosse essa a intenção, mas o "perdão" de Lula é o epitáfio definitivo da narrativa do "golpe de 2016", enfim sepultada. Natimorto, o discurso de "golpe" perambulava desde então tal qual alma penada. Que descanse em paz.
Ora, sinais evidentes de que a narrativa do "golpe" não sobreviveria foram vistos ainda durante o longo processo de deposição da presidente. Quando Dilma afinal foi apeada da presidência e a lona do circo começou a descer, a certeza se fez: não teve golpe.
Numa ironia da vida, tinha razão o coro "não vai ter golpe" entoado por defensores da presidente. Não teve mesmo. O que não quer dizer que a interrupção do segundo mandato de Dilma Roussef tenha sido um impeachment, como tantos fantasiam.
Impeachment, nos termos originalmente pretendidos pelo legislador constituinte, prevê a cassação dos direitos políticos (logo, também do mandato) por condenação em crime de responsabilidade. A deposição de Dilma não teve uma coisa nem outra.
As tais "pedaladas fiscais" jamais configuraram crime de responsabilidade sob a Constituição de 1988. Tanto que Fernando Henrique (1995/2002), Lula (2003/10) e mesmo Dilma (2011/14) "pedalaram" à exaustão sem qualquer trauma constitucional.
E ainda assim, forçando a vista para enxergar nisso um crime, não houve impeachment quando se permitiu que assumisse o vice Michel Temer, outro que "pedalou" no exercício de suas funções constitucionais, já no segundo mandato de Dilma (2015/16).
Se Dilma cometeu crime de responsabilidade, Temer o cometeu também. Se Dilma foi "impichada", Temer deveria ser "impichado" também. Coube ao Senado e ao STF, por fim, enterrar de vez o impeachment ao manter os direitos políticos de Dilma. R.I.P.
Extraído de modo maroto da Constituição para legitimar um processo de deposição mediante existência de prévia maioria política, o impeachment serviu apenas como um invólucro de superficial democracia ao garantir "direito de defesa" à acusada. E só.
A narrativa do "golpe", aliás, começa a ruir justamente aí. Ou haverá na história da humanidade outro "golpe de Estado" com "direito de defesa" concedido ao golpeado? Difícil. Haverá "golpe de Estado" sem fratura integral com o grupo dirigente? Não.
Como explicar então que 4 ministros presentes na última reforma ministerial de Dilma (2/10/2015) estivessem na composição do primeiro ministério de Temer (12/5/2016)? Sem falar em Meirelles, Geddel, Jucá, vindos da era Lula para a "ponte para o futuro".
"Golpe" não houve, mas faltava algo. Não falta mais. Lula deu adeus ao "golpe". Fim.
Clayton Romano, historiador vinculado a Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) e editor de bandeira-vermelha.blogspot.com.
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