É mentira!

Clayton Romano

Repetir uma mentira até torná-la verdade. Atribuído a Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Adolf Hitler, o famoso estratagema jamais teve sua autoria confirmada, fato que parece soar como um irônico atestado à sua eficácia.

O crédito, porém, faz jus a Goebbels. Nem tanto por ser ele seu formulador, mas sim por ser um exímio executor. Artífice de uma associação sem precedentes entre política e comunicação, o ministro da propaganda nazista fez da mentira sua matéria-prima.

Valendo-se dos avanços então vistos nos meios de comunicação (imprensa, rádio e, sobretudo, cinema) num tempo em que a televisão ainda era uma ambição e a internet, uma utopia, Goebbels criou uma "indústria cultural da mentira".

A mentirosa alegação de conspiração "judaico-bolchevique", por exemplo, tida como culpada por degenerar a nação, alimentou a máquina do holocausto ao ser difundida em escala industrial como verdade em telas de cinema, ondas de rádio, páginas de jornal.

Absurda porque desprovida de base real, a suposta trama entre judeus e comunistas visando saquear a Alemanha era uma fantasia nazista. Extravagante como qualquer fantasia: repleta de exageros, abundante em arquétipos e avessa a realidade dos fatos.

Como numa boa história de ninar, a credibilidade do enredo independe da sua veracidade. Basta que o narrador, investido de alguma autoridade, conduza seu ouvinte ao encantamento com um mundo irreal. Mesmo que para isso mobilize o medo e o ódio.

Joseph Goebbels morreu há 72 anos. Seu estratagema, no entanto, está mais vivo que nunca. Pior: surge amplificado sobremaneira em relação ao original graças ao desenvolvimento assombroso verificado nas tecnologias de informação e comunicação.

Hoje, Facebook, Instagram, Twitter, Whatsapp, Youtube, compartilham informação e conteúdo em velocidade e alcance estratosféricos. Convertidas em ferramenta política à la Goebbels, tais "redes" são muito mais nocivas que a máquina nazista de antanho.

Agora catalogada como fake news, a tática de produzir e propagar mentiras não para de colecionar vítimas. Sempre a partir da distorção dos fatos, disseminando medo e ódio, já elegeu o presidente da "maior democracia do planeta" e depôs uma presidente no Brasil.

Por aqui, aliás, o estratagema assume contornos peculiares, exibindo versões que oscilam entre a tragédia e a farsa. Alguns exemplares são hilários. Como o brado "Lula e PT são comunistas". Ou "não houve corrupção na ditadura militar". Nada mais falso.

Mas o cenário muda quando a mentira repetida de modo industrial flerta com o trágico. É o caso de um vídeo obscuro, para dizer o mínimo, que circulou logo após estrondoso assalto a uma transportadora de valores, ocorrido na madrugada de 6/11 em Uberaba.

Lá diz que a ação foi obra de "guerrilha da esquerda ditadora". Pode?! É mentira!

Clayton Romano, historiador vinculado a Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) e editor de bandeira-vermelha.blogspot.com.

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