Mesma moeda

Clayton Romano

A velha máxima “onde a ARENA vai mal, um time no Nacional” se tornou clássico exemplo de interferência política no futebol. Mas essa história começa bem antes da Ditadura Militar e alguns de seus vestígios podem ser notados ainda nos anos 1930.

Houve naquele período dois fatos importantes para o futebol brasileiro: o advento do profissionalismo (1933) e a afirmação da CBD (Confederação Brasileira de Desportos), atual CBF, no comando do futebol, posição consolidada com a Copa da França (1938).

Quando o escrete nacional fez ótima campanha e voltou com o 3º lugar, o artilheiro da competição (Leônidas, com 7 gols) e apenas uma derrota, polêmica, para a campeã Itália. O bom resultado no mundial garantiu à CBD controle sobre o futebol nacional.

Getúlio, por sua vez, anotava: “A perda do team brasileiro para o italiano causou grande decepção e tristeza no espírito público, como se tratasse de uma desgraça nacional”. E também mirava longe: “O jogo monopolizou as atenções” (Diário, 1995, v.2, p. 140).

De fato, é comum indagar se a Era Vargas, especialmente o Estado Novo (1937-45), teria interferido na questão do profissionalismo, através de recompensa financeira aos “trabalhadores da bola”. Ou se teria tentado estatizar o futebol no país. Quem sabe.

Na prática a Rádio Nacional, ela sim estatal, ecoava “Mengo, tu é o maior” aos quatro cantos do Brasil. Getúlio desfilava em São Januário e Dutra arrematava a cadeira n.º 1 do Maracanã. Dutra dava terrenos e Getúlio facilitava empréstimos ao rubro-negro.

Nada demais, portanto, ter “arenas” privadas financiadas a fundo perdido por órgãos e recursos públicos. Como não estranha ver patrocínio de banco oficial estampado em uniformes de clubes: aqui, público e privado são sempre sócios. Inclusive no futebol.

Após o Maracanazo (1950), JK e Jango não deixaram de colher dividendos com o bicampeonato mundial (1958-62). Se bem que, nesse quesito, antecedente histórico algum supera a desenvoltura dos militares diante do tricampeonato no México (1970).

Teve de tudo. Antes, durante e depois. A começar por general travestido de técnico, quando não o demitindo. Ou então, a CBD incorporar a rigidez dos militares à preparação física da seleção, supostamente para superar o fiasco na Inglaterra (1966).

Fora das quatro linhas, a Ditadura se valeu da conquista dos craques para vender seus slogans de “Brasil: ame-o ou deixe-o” e “Ninguém mais segura este país”. Sem falar dos fuscas zero-quilômetro doados aos jogadores por certo governador biônico. E mais.

Filho da união entre militares e CBD, o atual Campeonato Brasileiro nasceu como Campeonato Nacional (1971). E a medida que os ditadores e seu partido (ARENA) definhavam, o Nacional inflava. Começou com 20 clubes (1971) e chegou a 94 (1979).

Crasso, o caso resume a fina sintonia entre futebol e política. Duas faces, mesma moeda.

Clayton Romano, historiador e coordenador do Curso de Graduação em História da UFTM (2014/2016).

Texto publicado na edição de 18/09/2015 do Jornal de Uberaba.
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