100 anos de anticomunismo no Brasil


Clayton Romano

Karl Marx, se vivo fosse, estaria incrédulo. Como também estariam Georg Hegel, Immanuel Kant, Heráclito de Éfeso e todos os demais dialéticos da história da humanidade. Afinal, como fundar a antítese antes da tese? Ora, este é o Brasil!

Pois aqui o anticomunismo (isto é, a negação da tese comunista, uma antítese ao comunismo) brotou sem que houvesse um comunista sequer em solo nacional. Dito de outro modo, o anticomunismo brasileiro veio a luz opondo-se a uma miragem.

Diferente de outras partes do mundo, especialmente a Europa, onde os ensaios de Marx e Engels eram difundidos e também combatidos desde a conversão da Liga dos Justos (1836) em Liga Comunista (1847), o Brasil desconhecia o marxismo. Ou quase isso.

Obra de ilustres letrados, as primeiras menções surgem sob impacto da Comuna de Paris (1871) e revelam que a maioria de seus autores não leu Marx. A primeira citação nominal a Marx no país (abril de 1871) se deu em órgão oficial do Partido Liberal (!).

A confusão reinava mesmo entre aqueles dispostos a compreender os autores do Manifesto Comunista. Tobias Barreto via Marx como "o mais valente pensador do século" e definia o comunismo como sinônimo do "mais alto grau de servidão" (1887).

Euclides da Cunha, por sua vez, equiparou Marx aos contra-revolucionários Spencer e Comte, e sentenciou: "O socialismo, que tem hoje uma tribuna em todos os parlamentos, não precisa de se despenhar nas revoltas desmoralizadas da anarquia" (1892).

Considerando o manuseio sempre superficial e impreciso de anarquistas, socialistas, reformistas e círculos operários, resta pouco a resenhar sobre o "socialismo científico" de Marx e Engels no Brasil, entre o final do século 19 e a primeira década e meia do 20.

Até a data da Revolução Bolchevique (7/11/1917), portanto, comunista não havia no país. Poucas horas depois sua antítese já amanhecia estampada nos jornais. A edição de 9/11/1917 do Correio da Manhã (RJ), por exemplo, mais parece uma ata de fundação.

"A vontade de ferro de Kerensky vencida pela indisciplina militar", anunciava a página 3. Empenhado em desqualificar a revolução, prossegue o jornal: "deposto Kerensky pelo Conselho de Soldados e Operários, a Rússia entra em franco regime de anarquia".

Ao notar que a "derrota de Kerensky" era fruto de "uma situação que talvez seja a única registrada em toda a história", assimila a lição e proclama na sequência o artigo 1º do anticomunismo: "conter uma nação em desordem com o inimigo dentro da pátria!".

No caso do Brasil, o "inimigo dentro da pátria" veio apenas com fundação do PCB (25/3/1922), que, desde então e em detrimento de seu real poder de fogo, tornou-se alvo imediato de toda e qualquer insanidade dedicada a "conter uma nação em desordem".

E hoje o Núcleo de Estudos Marxistas (UFOP) responde por crime de desobediência...

Clayton Romano, historiador vinculado a Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) e editor de bandeira-vermelha.blogspot.com.

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