Clayton Romano
Dizia Nelson Rodrigues: “foi o escrete que ensinou o brasileiro a conhecer-se a si mesmo” (Jornal dos Sports, 27/5/1962), pois “nós também ‘vivemos’ o futebol, ao passo que o inglês, ou o tcheco, o russo apenas o joga” (Jornal dos Sports, 20/6/1962).
É verdade. Há muito o futebol deixou de ser apenas um esporte por aqui, se é que um dia chegou a ser “apenas” esporte. Talvez quando aportou, em finais do século 19, acomodado nas malas do descendente britânico Charles Miller. Mas parou por aí.
Sofreu desde muito cedo rápida apropriação popular. Várzeas alargaram o aristocrático círculo de Jockey e Tênis Club, substituindo-os em certos casos. Vide o destino do tradicional Velódromo Paulistano, convertido no primeiro estádio de futebol do país.
Segundo consta, lá nasceu a figura do “torcedor”, então “torcedora”, devido ao gesto de “senhoras e senhoritas” que iam ao campo assistir as partidas e “torciam” desesperadamente seus lenços durante os jogos. Daí “torcer”, “torcida”, “torcedor”.
O fato é que a proliferação do futebol como prática social condiz com a busca de parcela expressiva da sociedade por espaço na vida do país. E como num desaguar de rios, barreiras e interdições econômicas, políticas e culturais tiveram vazão no futebol.
Pois lá, dentro das quatro linhas, miserável se revelava gênio e negro, outrora escravo, era coroado rei. Subalternos de toda sorte passaram a ser vistos, outros tantos se viram representados. Do ato de correr atrás da bola, enfim, se fez associativismo social.
Coletivo por natureza, mantinha vivos ideais ancestrais de honra, heroísmo e glória, atualizando-os às modernas relações de competição, ascensão e acumulação. Tomado de assalto já no início no século 20, viu brotarem clubes, ligas e torneios Brasil afora.
Embora não fosse empresa, partido ou igreja, exibia atributos supostamente exclusivos à trinca. Os clubes, por exemplo, eram (e ainda são) obra de associação civil com firmas, presidentes e seguidores. Sintetizavam (e sintetizam), ao seu modo, fragmentos do país.
E mais: a disseminação de clubes e torneios recrutou milhares, milhões, a ponto de não haver currutela de norte a sul sem um mísero campo de futebol, com suas respectivas agremiações e torcidas. Invadiu oficinas, gabinetes e altares; isto é, se fez nacional.
Ao longo dos últimos cento e poucos anos, brasileiros de toda parte aprendem a “viver” o futebol de maneira que não fazem ingleses, tchecos ou russos. Até porque a história e os dilemas desses países lhe reservam outros espaços, enquanto aqui urge tão vital.
“Viver o futebol”, portanto, se não faz do brasileiro “uma nova experiência humana” (Fatos & Fotos, junho de 1962), como queria Rodrigues, ao menos expõe sua forte presença na identidade nacional. Em resumo, somos brasileiros graças ao futebol.
Ou melhor, somos uma “pátria em calções e chuteiras” (O Globo, 26/5/1976). E ponto.
Clayton Romano, historiador e coordenador do Curso de Graduação em História da UFTM (2014/2016).
Texto publicado na edição de 11/09/2015 do Jornal de Uberaba.
+ Veja cópia da versão impressa.
Fonte: RODRIGUES, N. A pátria de chuteiras. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013.
Nenhum comentário:
Postar um comentário