16 de agosto

Clayton Romano

A oposição ao governo de Dilma Rousseff (PT), PSDB à frente, convocou nova manifestação para 16 de agosto, domingo. Em pauta, o impeachment de Dilma, entremeado a brados de “combate à corrupção” e coisas do gênero.

A data não foi escolhida a esmo. 16 de agosto de 1992, também um domingo, viu parte expressiva da sociedade brasileira exercer histórica rebeldia civil. Vestida de preto, uma multidão invadiu cidades, praças e avenidas, clamando numa só voz: “Fora, Collor!”.

Lembremos. Fernando Collor de Mello (PRN), àquela altura, já estava na berlinda. Após surgir na presidência da República como um raio em céu azul, acumulava em pouco mais de 2 anos amplo desgaste popular. Plano Collor I, II, Jet Ski, CPI do PC...

Estudantes e sindicatos cobravam sua saída nas ruas, insuflados por detalhes diários sobre “cachoeira na Casa da Dinda”, “contas fantasmas”, “Fiat Elba”, etc. Numa terça-feira, 11 de agosto de 1992, milhares ocuparam o centro da capital paulista.

Collor surgiu 2 dias depois, visivelmente alterado. Aos urros, conclamou “todo o Brasil” a vestir as “cores da bandeira nacional” no domingo, em apoio ao governo. Segundo ele, seria a resposta da “maioria que trabalha” a “minoria que atrapalha”.

Detalhe: o apelo presidencial ao verde-amarelo ocorreu durante solenidade oficial com cerca de 1.500 taxistas, custeada com recursos da Caixa Econômica Federal. Daí o discurso do presidente ser intercalado com gritos de “dá-lhe Collor” e “fora Lula”.

Às 19h50 do sábado, 15 de agosto, Collor apareceu em rede nacional para anunciar a devolução da última parcela dos “cruzados novos” bloqueados em março de 1990. Na verdade, uma desesperada tentativa de reconquistar a popularidade perdida. Em vão.

Na segunda-feira, 17 de agosto, os jornais estampavam o dia anterior: “São Paulo protesta por mais de 7 horas”, “Passeata toma beira da praia no Rio”, “15 mil protestam em Belo Horizonte”, “Brasília tem luto e carreata de 20 km”.

“Collor reúne 300 pessoas na Dinda”, porém, resumiu melhor o fracassado clamor verde-amarelo. E também por isso 16 de agosto de 1992 tornou-se um marco, pois escancarou a recusa dos brasileiros ao “fenômeno” dos 35 milhões de votos em 1989.

A partir de então, multiplicaram-se manifestações Brasil afora. Atos que, se não igualavam, ao menos retomavam as grandes concentrações das “Diretas Já” em 1984. Enfim, 47 dias depois Collor deixava o Palácio do Planalto pela porta dos fundos.

A atual oposição à Dilma-PT, PSDB à frente, aposta que o efeito será o mesmo de 23 anos atrás, com o 16 de agosto de 2015 abrindo caminho para a queda da presidente. Há, no entanto, uma diferença crucial: os opositores de 1992 nada deviam.

Hoje, ao contrário, não se pode dizer o mesmo. PSDB à frente.

Clayton Romano, historiador e coordenador do Curso de Graduação em História da UFTM (2014/2016).

Texto publicado na edição de 04/08/2015 do Jornal de Uberaba.
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