Collor, Dilma, PRN, PT... e Cabral

Clayton Romano

Eis duas razões contrárias aos que apostam na semelhança entre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello (PRN), em 1992, e a atual crise enfrentada por Dilma Rousseff (PT): Dilma não é Collor, e PT não é PRN.

Collor conheceu a política no berço. Herdou de pai e mãe as facilidades do poder. Ganhou de presente a prefeitura de Maceió (1979), iniciando a carreira pela ARENA como “prefeito biônico” (isto é, por indicação do governador, sem escrutínio popular).

Sem encerrar o mandado, elegeu-se deputado federal pelo PDS (1982) e votou em Paulo Maluf (PDS) no Colégio Eleitoral (1985). Migrou para o PMDB, pegando carona na breve onda do Plano Cruzado para conquistar o governo de Alagoas (1986).

Virou factoide nacional sob o epíteto de “caçador de marajás”. Deixou o PMDB rumo ao recém-criado Partido da Juventude (PJ), depois convertido em Partido da Reconstrução Nacional. Pelo PRN, tornou-se presidente da República (1989).

Cassado da presidência (1992), teve seus direitos políticos suspensos por 8 anos. Filiou-se ao efêmero PRTB (1997). Disputou e perdeu o governo de Alagoas (2002), para ser eleito senador quatro anos depois. Filado ao PTB (2007), reelegeu-se senador (2014).

Dilma conheceu a política na escola. Após freqüentar tradicionais colégios belorizontinos, foi na escola pública (1964) que aderiu à Política Operária (POLOP), reunião nacional de organizações de esquerda avessas ao “reformismo” do PCB.

Em Minas Gerais, a Mocidade Trabalhista deu corpo à POLOP desde o início (1961). E foi a partir da seção mineira (1967) que surgiu o Comando de Libertação Nacional (COLINA), empenhado na resistência armada à Ditadura Militar (1964-85).

Já como dirigente do COLINA, celebrou a união a Lamarca (1969) e criação da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares). Detida (1970) durante a temida Operação Bandeirante (OBAN), cumpriu pena no presídio Tiradentes (1970-72).

Sob a Anistia (1979), ajudou a organizar o PDT de Brizola. Assessora parlamentar (1980-85), secretária municipal (1986-88), estadual (1991-94 e 99-2002) e ministra (2003-10). Filiada ao PT (2001), chegou à presidência (2010). E reelegeu-se (2014).

Quanto ao PRN, resta pouco a resenhar. Sequer seu célebre filiado o suportou. Sua trajetória se resumiu a 41 deputados federais eleitos (40 em 1990 e apenas 1 em 1994), 2 senadores (1990) e nenhum governador. Logo alterou sua certidão para PTC (2000).

O PT, por sua vez, dá o que falar. Reúne milhares, entre adeptos e adversários, desde a fundação (1980). De mocinho a vilão, venceu as últimas 4 disputas presidenciais e, segundo o Datafolha, é ainda hoje o partido preferido entre os brasileiros (11%).

Uma razão, porém, une Collor, Dilma, PRN, PT: o toma lá dá cá, usado desde Cabral.

Clayton Romano, historiador e coordenador do Curso de Graduação em História da UFTM (2014/2016).

Texto publicado na edição de 30/07/2015 do Jornal de Uberaba.
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