Nada de Fiat Elba

Clayton Romano

Imagine a cena. Uma presidência da República acossada por graves denúncias de corrupção, envolvendo auxiliares e aliados próximos. Sem base parlamentar, assiste a sucessivas derrotas no Congresso Nacional.

Sua fragilidade política é tamanha, que o avanço da CPI dedicada ao escândalo lhe corrói o restante do respaldo adquirido nas urnas. Sim, porque grande parte do apoio popular disse adeus após se fazer sentir os efeitos do rígido ajuste econômico.

A sociedade faz seu papel e põe o bloco na rua, com os estudantes à frente. Cada vez mais, amplos setores sociais se somam à multidão, vindos principalmente da classe média, que, duramente afetada pelo arrocho governamental, radicaliza-se.

O principal partido de oposição também faz barulho, vislumbrando no êxito das manifestações a vitória perdida nas eleições. Daí muito de seus protagonistas e simpatizantes bradarem ao fim de cada ato: “Terceiro turno! Terceiro turno!”.

O coro ganha corpo. Grandes veículos de comunicação estampam abertamente sua adesão. As evidências surgem cristalinas, dizem os magistrados. A situação é insustentável e a queda, inevitável. “Impeachment, já!”.

Pois bem. A trama tecida acima resume os instantes derradeiros da presidência de Fernando Collor de Mello (PRN), primeiro presidente eleito pelo voto direto num intervalo de 29 anos (1960-1989) e, até aqui, único presidente cassado da República.

Convém relembrar. Neto e filho da tradicional política alagoana, Collor saltou de prefeito biônico de Maceió à presidente do Brasil numa década (1979-1989). Passou por ARENA, PDS e PMDB, antes de fundar o nebuloso Partido da Reconstrução Nacional.

Venceu Lula (PT) na primeira eleição em dois turnos no país. Empossado (15/3/1990), promoveu o maior arrocho monetário de nossa história, com o confisco compulsório dos valores em conta corrente e caderneta de poupança de milhões brasileiros.

No Congresso, trocou a velha guarda da Constituinte (1987-1988), Ulysses Guimarães (PMDB/SP) à frente, por novos operadores políticos, entre eles, Renan Calheiros (PMDB/AL), Roberto Jefferson (PTB/RJ) e Romero Jucá (PMDB/RR).

Instituiu a “República das Alagoas” para o desagrado do establishment de Brasília. Deu carta branca a seu tesoureiro de campanha, Paulo César Farias, e viu seu irmão Pedro Collor, aparentemente deixado de lado nas transações, botar a boca no trombone.

Denúncias, investigações, indícios, provas... O castelo de cartas desmoronou em questão de meses. Collor não tardou a deixar a presidência, primeiro afastado pela Câmara (29/9/1992), depois condenado pelo Senado (29/12/1992).

Hoje senador (PTB/AL), Collor volta a ser notícia. Nada de Fiat Elba, apenas carrões.

Clayton Romano, historiador e coordenador do Curso de Graduação em História da UFTM (2014/2016).

Texto publicado na edição de 24/07/2015 do Jornal de Uberaba.
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