“Eu quero votar pra presidente”

Clayton Romano

Faz 30 anos que a frase acima estampou o clamor de toda a nação, então exausta de 20 anos de ditadura militar. Ruas, praças, faixas, bandeiras... O Brasil se pintou de verde-amarelo, como se mandasse às favas as normas marciais no uso de cores e símbolos nacionais.

Brasileiros de todos os gêneros, cantos e classes atestavam a plenos pulmões que a “democracia tutelada” dos militares estava com os dias contados. Agremiações, lideranças e militantes de vários matizes políticos, lado a lado, produziam um cenário de unidade nacional jamais visto no país.

Mas nem tudo eram flores. A “despolitização da política”, conduzida a ferro e fogo por duas décadas, conferia larga vantagem aos militares.

A ditadura instaurada em 1964 rasgou duas constituições, uma democrática (1946) e outra escrita pelos próprios ditadores (1967). Fechou e interveio em sindicatos. Empastelou e censurou órgãos de imprensa. Cassou mandatos, extinguiu partidos e instituiu à fórceps o bipartidarismo (1966 a 1979). Suprimiu o voto direto para presidente (desde 1965), governadores e prefeitos (1966 a 1982). Exilou, perseguiu e executou opositores, difundindo um torpe estranhamento em relação à política.

Também pesavam as amarras de uma constituição “biônica” (1969), que garantia ao processo de abertura política o ritmo “lento, seguro e gradual” desejado pelos militares. Os comunistas do PCB, por exemplo, percebiam tais limites e defendiam não apenas o voto direto para presidente, mas a eleição de uma Assembléia Nacional Constituinte para elaboração de uma nova carta constitucional, entendimento então compartilhado por outros atores políticos.

A dinâmica e os interesses originados pela reorganização do pluripartidarismo, porém, falaram mais alto. Afinal, a Lei da Anistia (1979) trouxe de volta várias lideranças exiladas. Com a criação dos novos partidos e as expressivas vitórias das oposições em 1982, sobravam candidatos à presidência. Pragmático, o “Diretas Já” veio ao mundo.

A luta por eleições diretas para presidente se constituiu em matéria-prima do maior movimento político já protagonizado no Brasil. De norte a sul, reuniu inédita multidão, produzindo cenas arrebatadoras, alianças improváveis e personagens inesquecíveis.

Mas a esperança não sobreviveu à noite de 25 de abril de 1984. Após votação no Congresso Nacional, a emenda constitucional de Dante de Oliveira (PMDB/MT) foi arquivada por não alcançar o mínimo de votos necessários a sua aprovação. Soluços e frustração por toda parte. Começava assim a “Nova República”.

Os jovens de hoje podem estranhar, mas houve um dia, 30 anos atrás, em que a nação inteira chorou por não votar pra presidente. E mensurar o espesso fel daquela derrota talvez ajude a compreender melhor o atual desencanto com a política e seus atores.

Clayton Romano é docente do Departamento de História da UFTM e secretário político do PCB Uberaba.

Texto publicado na edição de 03/09/2014 do Jornal de Uberaba.

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