Doutor em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP-Franca). Docente vinculado ao Departamento de História da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM).
Resumo: Os 21 anos de Ditadura Militar (1964-1985) transformaram profundamente o Brasil, conciliando modernização econômica, sufocamento político e desigualdade social. Promoveram aceleração do capitalismo brasileiro e complexificação de sua sociedade civil, feitos caros ao americanismo, mediante a atualização industrial e tecnológica de seu histórico iberismo. Novos atores sociais entraram em cena, que, movidos por logos de mercado e politicamente tutelados, deram forma e sentido ao associativismo civil posto em prática no país a partir de então. Fizeram surgir dois “Brasis”, neopentecostal e bolsonarista, que hoje convergem em pontos cruciais de seus projetos ético-políticos. O breve ensaio a seguir, em vez de pretender apresentar fórmulas definitivas, tampouco esgotar o tema, busca lançar luz sobre questão tão atual e cara ao Brasil.
“O signo da cruz nos cabos das espadas”
A América era o vasto império do diabo, de redenção impossível ou duvidosa, mas a fanática missão contra a heresia dos nativos confundia-se com a febre que provocava, nas hostes da conquista, o brilho dos tesouros do Novo Mundo. Bernal Diaz del Castilho, fiel companheiro de Fernão Cortez na conquista do México, escreve que chegaram à América ‘para servir a Deus e a sua Majestade e também por haver riquezas’ (GALEANO, 1979, p. 25).
O movimento reaccionario, que se seguiu á queda de Napoleão e ao Congresso de Vienna, havia creado para o Velho Mundo um estado de conflicto permanente entre os representantes das dynastias, que as espadas da Santa Alliança haviam reposto nos seus thronos, e as massas populares, de cujas aspirações se faziam echo as assembléas parlamentares. Dynastias e Parlamentos luctaram, desde 1814, por mais de meio seculo, pelo domínio exclusivo dos apparelhos do governo politico das sociedades. Os chefes de dynastias, - Reis, Imperadores, Principes – apoiados nos exercitos da Santa Alliança, recusavam-se a abdicar das suas velhas prerrogativas: julgando-se ainda donos, por direito divino, do governo dos povos, repeliam o principio da soberania popular como humilhante e incompativel com sua dignidade de Reis, cujo direito vinha, não das massas, mas de Deus (VIANNA, 1925, p. 11).
A simbiose entre fé e política não é fenômeno recente, e responde, em termos gerais, pelo advento do estado-nação e da própria concepção de política em tempos modernos. Esteve na raiz do colonialismo europeu visto de leste a oeste desde o século 15, da conquista da América ao domínio na África, Ásia e Oceania. Criou estados, ergueu impérios, patrocinou guerras. A ousadia de Maquiavel ao vislumbrar fé e política cindidas, iniciativa à época punida com cárcere e condenada à imoralidade nos séculos seguintes, deu forma à moderna razão de estado, mas não nos moldes imaginados em 1513 n’O Príncipe (2010). Pois, às raias de completar um quarto de século 21, compreender os termos da incessante interação entre fé e política permanece matéria urgente mundo afora. Não seria diferente no Brasil.
Que guarda profundas especificidades em relação a outras partes do globo e mesmo se comparado a vizinhos na América Latina. Gigante pela própria natureza, com dimensões continentais, destino de 4,8 dos 10,7 milhões de escravizados africanos (SCHWARCZ, 2019, p. 22-23), o Brasil, então colônia, se viu sede do império português após a fuga da Corte em 1808. Única monarquia constitucional (1822) num continente repleto de repúblicas erguidas com guerras nacionais de libertação do jugo colonial, exceto o breve interregno monarquista no México (1821-1823), se fez república sem público, numa “revolução” sem povo (1889). Declarou-se oficialmente laico em 1890, embora exibisse 99,7% de população católica no primeiro censo realizado no país, ainda durante o império (1872).
Degolou Canudos (1897), monumental síntese do encontro entre fé e política no país, no debute do exército republicano. Deu vida (e poder) a Padre Cícero, assistiu ao recrutamento constituinte da Liga Eleitoral Católica (1933), combateu comunistas brasileiros numa “Guerra aos ‘sem Deus’” (MARIANI, 1998, p. 152-153), emulou o “catolicismo político” da Ação Integralista Brasileira (1932-1937). Fundou seu Partido Democrata Cristão (1945) e aplaudiu marchas da “Família com Deus pela Liberdade” às vésperas do golpe de estado que depôs João Goulart (PTB), inaugurando 21 anos de Ditadura Militar (1964-1985). Sua atual carta constitucional (1988), diz o preâmbulo, promulgou-se “sob a proteção de Deus”, e as cédulas emitidas por seu Banco Central estampam “Deus seja louvado”.
O Brasil hoje assiste ao avanço político de denominações neopentecostais, fruto da ampla propagação social verificada a partir dos anos 1970. Estima-se que até 2030 a maioria da população brasileira se declare pertencente a uma das inúmeras instituições religiosas ligadas ao protestantismo, superando séculos de supremacia católica. Em 2021, as igrejas evangélicas regularizadas já respondiam por “sete em cada dez estabelecimentos religiosos no país” (BALLOUSSIER, 2024, p. 12). A Igreja Universal do Reino de Deus, maior entidade neopentecostal do país, tem seu próprio partido desde 2005, o atual Republicanos. Por fim, a bancada evangélica no Congresso Nacional saltou de 33 parlamentares durante a Assembleia Constituinte (1987-1988) para 202 dos 513 deputados federais eleitos em 2022.
Brasil neopentecostal
A reforma protestante iniciada por Lutero (1517) se fez presente desde os primeiros passos da colonização no Brasil, por meio de missionários enviados por Calvino (1557). No século seguinte, a ocupação holandesa fundaria 22 igrejas protestantes no Nordeste, sendo a Igreja Reformada Holandesa do Recife a primeira delas (1630). Depois vieram as igrejas Anglicana (1882), Luterana (1824), Presbiteriana (1862), Metodista (1871) e Batista (1871). A Assembleia de Deus, a maior igreja pentecostal no mundo, surgiu em Belém do Pará (1911), com dissidentes da Convenção Batista Brasileira. A expansão de denominações evangélicas, em ritmo lento e constante, acelerou-se sobremaneira a partir dos anos 1970, coincidindo com o “milagre brasileiro”, surto de crescimento econômico ocorrido entre 1968 e 1973.
Coincidiu também com advento do novo pentecostalismo ou neopentecostalismo no Brasil. A rigor, são consideradas “três grandes ondas” na história do protestantismo mundial: puritana, metodista e pentecostal, sendo esta última a responsável por transpor “a fronteira dos mundos anglo e hispânico em larga escala” (MARIANO, 2010, p. 28). No Brasil, as duas primeiras denominações pentecostais foram a Congregação Cristã do Brasil, criada em São Paulo (1910), e, no ano seguinte, a já mencionada Assembleia de Deus em Belém. São registradas então outras três ondas no pentecostalismo brasileiro: pentecostalismo clássico, com igrejas surgidas entre os anos 1910 e 1950, deuteropentecostalismo [1], durante a década de 1960, e neopentecostalismo, dos anos 1970 em diante (MARIANO, 2010, p. 32).
Pentecostalismo clássico, deuteropentecostalismo e neopentecostalismo partilham características comuns, entre as quais, “antiecumenismo, líderes fortes, uso de meios de comunicação de massa, estímulo à expressividade emocional, participação na política partidária, pregação da cura divina” (MARIANO, 2010, p. 36). O neopentecostalismo, no entanto, promove profunda “ruptura com os tradicionais sectarismo e ascetismo pentecostais” e “representa uma mudança muito grande nos rumos do movimento pentecostal” (Idem). Distingue-se por exacerbar a “guerra espiritual”, enfatizar a Teologia da Prosperidade, liberalizar usos e costumes, além de estruturar empresarialmente suas igrejas, que “agem como empresas e, pelo menos algumas delas, possuem fins lucrativos” (Ibidem).
Havia solo fértil para tanto e por muitas razões. O Brasil experimentava seu acesso tardio, dependente, subalterno ao capitalismo do século 20 desde os tempos de Getúlio Vargas, primeiro como “revolucionário”, na linha de frente do golpe de estado que depôs o governo Washington Luís (1926-1930), depois ditador (1937-1945), por fim presidente eleito (1950-1954). Os 50 anos em 5 de Juscelino Kubitschek (1955-1960) empreenderam certa aceleração ao capitalismo no Brasil, em tal ritmo que nem a renúncia de Jânio Quadros (1961) e o golpe em João Goulart (1964) interromperam. Quando os militares se apossaram da cadeira presidencial, trataram de combinar crescimento econômico, silenciamento político e clivagem social, tornando empresários, torturadores e escroques seus novos atores sociais.
A fórmula do “milagre” econômico dos militares somava endividamento externo, (contraído pelo estado para financiamento da iniciativa privada), superexploração do trabalho e concentração de renda. O ministro da economia de então resumia a receita dizendo primeiro fazer o bolo crescer para, depois, repartir. E o bolo cresceu. O Produto Interno Bruto (PIB) saltou a partir de 1966, chegando perto dos 12% em 1968 e batendo na casa de 14% em 1973, mais de 10% de aumento em relação a 1964 (3,4%) E sem repartir, o bolo do ministro embatumou-se em arrocho salarial e agudização da desigualdade social. Sobrepostos, os processos de industrialização, associativismo civil e urbanização, tão caros ao capitalismo, tornado frenético no Brasil, produziram consumidores, associações e favelas.
O capitalismo finalmente convertia-se em fenômeno de massa, completava-se, enfim, “a revolução burguesa no Brasil” (FERNANDES, 2005), obra repleta de contradições, dual tal qual um “ornitorrinco” (OLIVEIRA, 2013). Crescimento exponencial do PIB, 8ª economia do mundo, à base de “desequilíbrios regionais e concentração industrial” (CANO, 1985), conjugando crescimento e pobreza, a revolução executada pela Ditadura Militar impôs termos contemporâneos ao capitalismo no Brasil. O americanismo (GRAMSCI, 2007) dos militares encarnou o secular iberismo brasileiro (HOLANDA, 2007), atualizando-o industrial e tecnologicamente, alterando os marcos das sociedades econômica, política e civil do país. Empresa em vez de estado. Técnico em vez de político. Negociante em vez de cidadão.
Tamanhas fendas geradas permitiram a novos personagens entrar em cena (SADER, 1988). O associativismo civil, necessariamente apolítico, em tese apartidário, floresceu mediante sindicatos tutelados, apenas dois partidos parlamentares e centenas de opositores exilados, trancafiados, trucidados. Sem política, sem partido, sem liberdade de expressão, a proliferação de ações e associações civis ocorrem à margem da vida oficial do país, muitas vezes percorrendo guetos, morros e vielas. Atada, a sociedade civil se move para onde a sociedade política não a alcança, mobilizando, para tanto, vasto rol de valores, cálculos e comportamentos típicos das relações econômicas estabelecidas em sociedade, tais como lucro, custo-benefício, vantagem. Brasileiro gosta de levar vantagem em tudo, certo?
O “milagre” dos militares rápido se desfez em calamidade. O PIB de 14% logo recuou para 8,15% (1974) e 5,17% (1975), desabando pouco depois para -4,25 % (1981) e -2,93% (1984). Em contrapartida, as taxas de inflação explodiram ano a ano: 101,73% (1981), 100,54% (1982), 135,03% (1983), 192,12% (1984) e 225,99% (1985), quando civis voltaram à presidência do país. O “milagre econômico”, na prática, se fez “calamidade social”. Os índices de homicídio, por exemplo, denunciam a gravidade da situação, registrando aumento progressivo a partir de 1989, ano da primeira eleição direta para presidente do Brasil desde 1960, empurrando aos governos civis a crise social gerada pelos militares: saltam, entre 1989 e 1999, de 28.767 para 42.947 homicídios ao ano (IPEA, 2024), números de guerra civil.
Estas foram as bases do Brasil neopentecostal e da propagação de igrejas-empresas, sobretudo nas camadas populares, reféns da calamidade social resultante da aceleração do capitalismo efetuada durante a Ditadura Militar, assustadoramente desigual e violenta. Não foram apenas as denominações neopentecostais e mesmo pentecostais que se disseminaram no período, também os católicos, desde o Concílio Vaticano II (1962-1965), exerciam sua renovação carismática, expressa de diferentes modos. Um deles foram as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), com ações centradas em comunidades populares reunidas a partir de demandas e interesses coletivos imediatos: alimentação, habitação, saneamento, saúde, trabalho. Houve ainda diversas iniciativas de espíritas em sentido similar e menor alcance.
Católicos, espíritas, pentecostais, neopentecostais encontraram um Brasil em guerra civil real, porém não assumida. As principais denominações neopentecostais de hoje foram criadas em tal contexto e prosperaram, confirmando, elas mesmas, a propriedade de sua Teologia da Prosperidade: Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra (1976), Igreja Universal do Reino de Deus (1977), Comunidade da Graça (1979), Igreja Internacional da Graça de Deus (1980), Renascer em Cristo (1986) (MARIANO, 2010, p. 32). Somadas à expansão também de denominações pentecostais como Assembleia de Deus, Igreja do Evangelho Quadrangular, Deus é Amor, florescem mediante ao difuso e amplo processo de privatização das relações sociais no Brasil, orientadas por logos de mercado, razão de tamanho êxito.
Brasil bolsonarista
Convém admitir, de início, que bolsonarismo é uma designação inapropriada, porque incapaz de capturar todo o alcance do fenômeno que pretende definir. Sim, há bolsonarismo, isto é, um conjunto de concepções e comportamentos tipicamente vinculados às figuras de Jair Bolsonaro, descendentes e adeptos. No entanto, o bolsonarismo é antes resultado e não causa de fenômeno maior e mais profundo, que não se limita a Bolsonaro ou a seus seguidores, mas que, ao contrário, os explica. Trata-se de caudaloso rio navegado desde as caravelas, em cuja fonte estão represados séculos do autoritarismo brasileiro, expresso por meio de seus componentes históricos: escravidão e racismo, mandonismo, patrimonialismo, corrupção, desigualdade social, violência, raça e gênero, intolerância (SCHWARCZ, 2019).
Bolsonarismo também é termo recente e talvez por isso tão impreciso. Não exista até 2018 e, com a vitória de Bolsonaro nas eleições presidenciais daquele ano, tornou-se obrigatório para designar o ascenso eleitoral e político de conservadores em geral. Via-de-regra sua cronologia parte do ciclo de manifestações em 2013 [2], romanticamente batizado de “jornadas de junho”, com grande apoio popular e forte crítica às instituições necessárias a qualquer vida democrática: partidos, poderes executivo, legislativo e judiciário. Edifício que desabou sobre Dilma Rousseff, presidente deposta em 2016, atestando tanto o esgotamento dos anos do Partido dos Trabalhadores (PT) na presidência da república (2003-2016), quanto a emergência de grosso caldo conservador de viés antipolítico, antipartidário, “antissistema”.
Bolsonarismo teria sido então o adensamento de pautas, práticas, personagens originalmente desconexos, sintetizados por Bolsonaro, eleitoralmente vitorioso em 2018. Métodos e discursos de Bolsonaro, descendentes e seguidores, passaram assim a subsidiar definições de todo tipo, dentre as quais, a noção de fascismo ou neofascismo se sobressai [3]. Não faltam, de certo, indícios dados nesse sentido por Bolsonaro, descendentes e seguidores. Não haveria espaço aqui para citar todos. Existem, porém, ao menos três razões que inviabilizam a utilização de fascismo ou neofascismo para a caracterização do bolsonarismo: 1) incapacidade de produzir seu partido único; 2) forte apego às suas liberdades individuais; 3) materialmente afeito às relações privadas de mercado; logo apartidário, liberal e privatista.
Bolsonaristas, sujeitos do bolsonarismo, sem dúvida portam caracteres fascistas, mas não todos e nem de maneira universal. Não há como comprovar que todo bolsonarista seja necessariamente fascista, porque bolsonarismo transcende ao fascismo ou neofascismo e, por isso, portador de especificidades que muito o distancia da matriz fascista. Bom exemplo são bolsonaristas trajados com camisas by Nike da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), entidade privada, em tese, vergando bandeiras de Israel [4], Estados Unidos, Ucrânia, em manifestações por voto impresso, intervenção militar, fim do Supremo Tribunal Federal (STF). Uma bazófia expressa por sujeitos tidos como raio em céu azul, como se bolsonaristas tivessem surgido somente a partir de 2018, como se não existissem pegadas na areia.
Que, deixadas bem antes de Bolsonaro, revelam bem o peso de gerações mortas sobre o cérebro dos vivos. Partem do surgimento da Escola Superior de Guerra (ESG), em 1949, que unificou a formação superior dos militares brasileiros com base na doutrina de segurança nacional comandada pelo Pentágono. A estratégia estadunidense visava garantir domínio continental no contexto pós-Segunda Guerra, enfatizando a aliança civil-militar para impedir qualquer avanço comunista (real ou imaginário), por menor que fosse. Dava-se assim a solda necessária entre sociedade política e sociedade civil, por obra da sociedade econômica, convertida em mediadora da relação entre público e privado. Fórmula com plena vazão no Brasil, realizada a ferro e fogo durante 21 anos por cinco militares oriundos da ESG.
Na fachada democrática da Ditadura Militar, que não podia se assumir ditatorial por dizer haver livrado o país da “ditadura comunista”, todos os vice-presidentes (eleitos indiretamente junto a presidentes militares) foram civis. O comando da economia esteve a cargo de civis. E mesmo aparelhos de repressão e extermínio de opositores dispuseram de fortuna civil. A Operação Bandeirante (OBAN), melhor exemplo não há, reuniu capital privado, corpo profissional e orientação militar, e pode ser apontada como ponto de partida para o estabelecimento de “esquadrões da morte” a partir da segunda metade dos anos 1970, grupos paramilitares dedicados ao extermínio social, envolvendo policiais e militares da ativa e/ou reformados, que vendiam seus serviços à iniciativa privada, berços das milícias de hoje.
O saldo ético-político da obra civil-militar esguiana se fez sentir no curso do processo de consolidação democrática no Brasil e pode ser mensurado com base nos dados acima [clique na imagem para ampliar]. A partir de 1989, ano da primeira eleição direta desde 1960, até 2006, quando se deu a primeira reeleição de Lula (PT), os índices são reveladores. “Democracia” com menos da metade das preferências em 1989, “Ditadura” beirando e “Indiferença” rompendo a marca dos 20%, e “Não sabe ou não respondeu” com impressionantes 15,7%. Sim, a preferência democrática vai a 64,8% e 71,4% nas duas pesquisas de 2006, mas chama ainda mais a atenção a resiliência dos índices colhidos por “Ditadura”, “Indiferença” e “Não sabe ou não respondeu”. A opção por ditadura pouco oscila à medida em que se afastam os 21 anos de Ditadura Militar.
O percentual de indiferentes idem, retraindo-se significativamente apenas na segunda pesquisa de 2006. E mesmo o índice de “Não sabe ou não respondeu”, persistindo próximo a 15% até 1997, registrava média considerável 21 anos após a eleição (indireta) do primeiro governo civil (1985). É nessa faixa de adeptos da ditadura, indiferentes e nulos que vicejam as bases do mal denominado bolsonarismo. Antes de Bolsonaro em 2018, tais sujeitos despejaram seus votos presidenciais majoritariamente em Collor e Maluf (1989), FHC e Enéas (1994 e 1998), Serra (2002 e 2010), Alckmin (2006) e Aécio (2014). Militar expulso do Exército por tramar atentado civil por aumento salarial, o próprio Bolsonaro se valeu desse público para se eleger vereador (1988) e depois deputado federal por 7 vezes (1990-2014).
Durante a votação para abertura do processo de impeachment de Dilma, em 17 de abril de 2016, bradou: “Perderam em 64, perderam agora em 2016. Pela família e pela inocência das crianças em sala de aula, que o PT nunca teve”. E mais: “Contra o comunismo, pela nossa liberdade, contra o Foro de São Paulo, pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”, exaltando o torturador da ex-presidente na Ditadura Militar. Para finalizar, emendou: “Pelo Exército de Caxias, pelas nossas Forças Armadas, por um Brasil acima de tudo e por Deus acima de todos”. Numa tacada, sempre em poucas palavras, Bolsonaro sintetizou os termos mais sinceros do encontro entre Brasil neopentecostal e Brasil bolsonarista, antecipando em mais de 2 anos a consagração de 2018.
Eis a ética neopentecostal, feita de guerra espiritual, Teologia da Prosperidade, liberalização de costumes e igreja-empresa, abrigada no espírito bolsonarista de guerra aos “sem Deus”, liberdade do privado, moralismo religioso e mercantilização da violência (e da política), e sua exaltação. Quando, em 1905, Weber publicou A ética protestante e o espírito do capitalismo (2003), certamente não imaginou o alcance que sua obra teria, tampouco previu os desdobramentos da interação entre protestantismo e capitalismo havidos desde então. E menos ainda vislumbrou o impacto pentecostal para a difusão da ética protestante onde não existia pecado, ao sul do Equador. Suas versões neopentecostais, politicamente aninhadas no bolsonarismo, traduzem a simbiose entre fé e política legada pela Ditadura Militar no Brasil.
Notas
[1] “... Tendo em conta que a segunda onda mantém o núcleo teológico do pentecostalismo clássico, mas se estabelece quarenta anos depois e com distinções evangelísticas e ênfases doutrinárias próprias, optamos por nomeá-la de deuteropentecostalismo. O radical deutero (presente no título do quinto livro do pentaleuco) significa segundo ou segunda vez, sentido que o torna muito apropriado para nomear a segunda vertente pentecostal...”. Cf. MARIANO, Ricardo. Neopentecostais. Sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. 3ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2010, p. 32.
[2] Como ocorre, por exemplo, em: ANDERSON, Perry. Bolsonaro 2019. In: Brasil à parte: 1964-2019. São Paulo: Boitempo, 2020, p. 121-165.
[3] Há farta literatura empenhada em interpretar o bolsonarismo em termos de fascismo ou neofascismo. Um dos exemplares pode ser conferido em: COSTA, Henrique. Fascismo na sociedade sem classes: uma interpretação do bolsonarismo [2019]. Disponível em: <https://diplomatique.org.br/fascismo-na-sociedade-sem-classes/>. Acesso em: 13 ago. 2024.
[4] Para sionismo cristão, ver: SAND, Shlomo. A invenção da terra de Israel. Da terra santa à terra pátria. São Paulo: Benvirá, 2014, p. 151-218.
Referências
Uberaba/MG, 15 de agosto de 2024.
Feriado de Nossa Senhora D’Abadia, padroeira do município de Uberaba.
BALLOUSSIER, Anna Virginia. O púlpito: fé, poder e o Brasil dos evangélicos. São Paulo: Todavia, 2024.
CANO, Wilson. Desequilíbrios regionais e concentração industrial no Brasil: 1930-1970. São Paulo: Global; Campinas: Editora da UNICAMP, 1985.
FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil. Ensaio de interpretação sociológica. 5ª ed. São Paulo: Globo, 2005.
GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. 8ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. v. 4 (Temas de cultura. Ação católica. Americanismo e fordismo). 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26ª ed. 27ª reimp. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
IPEA, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Atlas da violência. Homicídios. v. 27. Disponível em: <https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/dados-series/328>. Acesso em: 13 ago. 2024.
MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe e escritos políticos. São Paulo: Folha de S.Paulo, 2010.
MARIANI, Bethânia. O PCB e a imprensa. Os comunistas no imaginário dos jornais (1922-1989). Rio de Janeiro: Revan; Campinas: UNICAMP, 1998.
MARIANO, Ricardo. Neopentecostais. Sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. 3ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2010.
OLIVEIRA, Francisco de. Crítica à razão dualista. O ornitorrinco. 1ª ed. 4ª reimp. São Paulo: Boitempo, 2013.
SADER, Eder. Quando novos personagens entraram em cena: experiências, falas e lutas dos trabalhadores da grande São Paulo: 1970-80. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. Sobre o autoritarismo brasileiro. 2ª reimp. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Martin Claret, 2003.
VIANNA, Oliveira. O occaso do Imperio. 2ª ed. São Paulo: Companhia Melhoramentos, 1925.
Uberaba/MG, 15 de agosto de 2024.
Feriado de Nossa Senhora D’Abadia, padroeira do município de Uberaba.

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