Clayton Romano
Doutor em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP-Franca). Docente vinculado ao Departamento de História da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM).
A sabedoria popular parece ter razão quando diz ser o Brasil um país sem memória. Mas uma criança, um menino de 8 anos, não se esquece das coisas com facilidade. Nascido e crescido na maior cidade do hemisfério sul, viu in loco, sentado nos ombros do tio, a maior concentração humana então já registrada na história brasileira. Encantado, fascinado, feliz, descobriu a praça, a massa, a vida, política por natureza, ali coletiva por vontade expressa.
Vale do Anhangabaú, São Paulo. 16 de abril de 1984. Após passeata iniciada na Praça da Sé, realizou-se comício por eleições diretas para presidente, num país que há 24 anos elegeu seu último presidente (e também o vice) por voto direto e que há 20 anos convivia com militares na presidência da República. Naquela tarde-noite, um menino, uma criança de 8 anos, esteve entre as mais de 1 milhão e 500 mil pessoas lá presentes. Inesquecível.
O comício das “Diretas” no Anhangabaú tratou-se do maior ato político já visto no Brasil. Jamais tamanho contingente humano se dirigira ao mesmo tempo e a um mesmo lugar por vontade política (feito superado apenas 32 anos depois, durante o processo de deposição de Dilma Rousseff). Ato notável de uma sociedade politicamente sufocada por 20 anos de Ditadura Militar (1964-1985), economicamente espoliada com inflação em 239% (1983).
A turba que hoje, 40 anos depois das “Diretas”, prega a volta dos militares ao poder certamente o faz por ignorância. Ou má-fé. Sim, porque não há como ignorar o caos econômico, político e social em duas décadas de ditadura, a menos que não o tenham vivido. O Brasil estava quebrado, em profunda recessão econômica. Quem podia, estocava alimentos para o mês todo ao receber o salário e assim não vê-lo tragado pela inflação.
O “choque de capitalismo” dado pelos militares fez o Brasil figurar entre as oito maiores economias do mundo, agudizando mazelas seculares deste país latifundiário, escravista, excludente. A combinação de envidamento externo para financiamento público do capital privado, gerou a perversa fórmula do “milagre brasileiro”: superexploração do trabalho + concentração do capital. Acesa em finais dos anos 1960, a bomba explodiu nos 1980.
Seu impacto social foi terrível. Ampliou sobremaneira o abismo entre ricos e pobres, visto, por exemplo, na proliferação de mansões e favelas em grandes e até médias cidades. Portentosos viadutos dos militares tornavam-se moradia aos desvalidos. O arrocho salarial empurrava para a periferia o outrora suburbano, convertendo o antigo malandro da boemia em moderno homem de negócios. Traficantes e esquadrões da morte logo tomaram lugar.
A facção Comando Vermelho surgiu por obra dos militares, ao confinarem presos sociais e presos políticos no presídio de Ilha Grande, Rio de Janeiro, unindo estratégia política à sobrevivência social. Os esquadrões da morte surgiram da aliança civil-militar que promoveu e sustentou 21 anos de ditadura, a partir da indústria de perseguição, tortura e morte montada na Operação Bandeirante. Finda, vendeu extermínio social a preço módico.
Importante frisar. Tanto o advento do crime organizado de entorpecentes, chamado de tráfico, quanto a oferta de mão de obra especializada, isto é, policial-militar, para extermínio e extorsão social, fenômeno hoje encarnado por milícias, são frutos da atuação política dos militares. Que demoliram o edifício democrático erguido a duras penas, repleto de contradições, entre as ditaduras do Estado Novo (1938-1945) e a militar. E fracassaram.
Autoproclamada “revolução redentora”, rasgou a Constituição de 1946 (a primeira elaborada por parlamentares eleitos por voto direto a sobreviver mais de uma década) alegando combate à “ameaça comunista”, mesmo com o Partido Comunista Brasileiro (PCB) na ilegalidade desde 1947 e em oposição a João Goulart, presidente deposto pelo Golpe Militar de 1º de abril de 1964. Uma ditadura que precisava de fachada democrática.
Que criou dois partidos artificiais (Aliança Nacional Renovadora – ARENA e Movimento Democrático Brasileiro – MDB), elegeu governadores por voto indireto (via assembleias estaduais) até 1982 e presidentes militares, sempre por voto indireto, até deixar de existir, em 1985, derrotada pelas “Diretas”. Sim, a emenda à Constituição de voto direto para presidente obteve no Congresso Nacional maioria insuficiente para sua aprovação.
Menos de um ano depois, porém, o mesmo Congresso elegeu Tancredo Neves (PMDB), por voto indireto, pondo fim a 21 anos de militares na presidência da República. Sempre tratado como derrota, o movimento das “Diretas” deu ao país sua mais viva experiência de política enquanto vontade coletiva de massa, feita a partir do encontro, do amor entre gerações, sendo por isso inigualável. Feliz, o Brasil se fez na rua, em multidão, aos abraços.
“Você me abre seus braços. E a gente faz um país” (Marina Lima e Antônio Cícero, 1984).
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