Marx no reino do agronegócio brasileiro

Clayton Romano
Doutor em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP-Franca). Docente vinculado ao Departamento de História da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM).

Karl Marx (1818-1883) publicou em vida somente o primeiro dos três livros d’O Capital (1867), sua obra máxima. Nela, sistematiza reflexões de toda uma vida dedicada a compreender as entranhas desse sistema de produção, circulação e consumo de mercadorias, destinado ao acúmulo de capital. E o faz de modo diferente da economia política de matriz liberal então em voga, abstendo-se da ode à “mão invisível” do mercado. 

Marx confronta o “misticismo científico” dos liberais ao terreno da vida concreta, cotidiana, coletiva. E ao fazê-lo, amplia extraordinariamente as estreitas margens daquela economia política, conferindo-lhe tempos, lugares, sujeitos, convertidos em razão de ser de conceitos até ali idealmente, isto é, abstratamente formulados. A análise das relações materiais e imateriais estabelecidas em sociedade encontra, enfim, sua dimensão histórica.

São de seres sociais, pois, as mãos nada invisíveis a dirigir o mercado. Seres movidos por necessidades e interesses, particulares e comuns, ávidos por capital. A quem cabe definir qual o valor de uma Ferrari? Ao mercado, sacrossanto ente de personalidade instável, ora calmo, ora nervoso, ora ansioso (e talvez por isso indecifrável para muitos), ou ao conjunto de relações humanas afeitas a produzir, circular, consumir e, claro, acumular Ferraris?

Não, Ferrari não havia no tempo de Marx, mas a constatação é válida a toda e qualquer mercadoria, de batatas à Rolex. O que define o valor de dada mercadoria, diz Marx, é a síntese entre seu valor de uso e seu valor de troca, equação ditada por necessidades e interesses, particulares e comuns, de seres sociais dedicados a produzir, circular, consumir e acumular mercadorias. Vida humana em sociedade, o mercado nada tem de abstrato.

Ainda que tais seres sociais se deixem guiar por razões naturais, teológicas, metafísicas ou científicas, o vasto sistema de produção, circulação, consumo e acúmulo de capital, a que chamamos de capitalismo, atende primordialmente ao que Marx chama de “reino da necessidade” e “reino do interesse”. As transformações havidas na história derivam assim da capacidade de seres sociais, reunidos em classes, irem da necessidade ao interesse.

O próprio advento das classes sociais já revela a transmutação de necessidades particulares em interesses comuns. Uma vez estabelecida a propriedade privada enquanto necessidade particular, criando assim a classe de proprietários e, consequentemente, a classe dos não-proprietários, a manutenção e a expansão desse regime revelam interesses comuns entre proprietários, que exercem poder de classe ao tornar geral, universal, interesse apenas seus.

Por exemplo. Qual a necessidade de se confiar 40% das propriedades rurais no Brasil a míseros 1,4% de proprietários rurais, menos de 80 mil almas num país com mais de 210 milhões de habitantes? A quem interessa tal regime de propriedade fundiária, a que chamamos de latifúndio, se não aos 78,7 mil latifundiários brasileiros? E olha que estes são números colhidos há mais de uma década pelo sistema nacional de cadastro rural (2013).

Nada indica que tenha havido redução nesse quadro, ao contrário, dada a pretensa unanimidade erigida em torno do chamado “agronegócio”. Responsável por cerca de 25% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2023, o agrobusiness é ufanado por promover verdadeira revolução industrial no campo, tal a monta de tecnologia, maquinário, capital empregados na produção e exportação agropecuárias do país. Daí sua importância no PIB.

Celebrado “celeiro do mundo”, com 41% do seu território de dimensão continental composto de áreas agricultáveis, o Brasil convive, porém, com índices inaceitáveis de fome e pobreza. De acordo com relatório da FAO (órgão das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), publicado em julho de 2022, 61,3 milhões de pessoas lidaram com algum tipo de insegurança alimentar no Brasil, das quais 8,7 milhões sequer tiveram acesso à comida.

Segundo dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV), também de 2022, 62,9 milhões de pessoas viviam com renda per capita mensal de até R$ 497, sendo que 8% desse total registrava situação de extrema pobreza, com até R$ 145 de renda per capita mensal. Na outra ponta desse cabo de guerra, ainda conforme a FGV, 0,01% da população, (algo próximo à 15 mil pessoas) celebrou aumento de 95% em sua renda entre 2017 e 2022.

Ao açambarcar propriedade e renda (vale lembrar, 1% dos mais ricos abocanham praticamente um terço, 28,3%, da renda total no Brasil), as classes materialmente dominantes do país proclamam o portentoso PIB do agronegócio como de interesse nacional. Confirmam, com isso, não apenas a revolução industrial em curso no campo, como também atestam nova passagem do “reino da necessidade” ao “reino do interesse”.

Karl Marx, acredite, segue vivo no reino do agronegócio brasileiro. Impossível? Não aqui.

Nenhum comentário:

Postar um comentário