Doutor em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP-Franca). Docente vinculado ao Departamento de História da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM).
Lula (PT) demitiu Maria Rita Serrano, então presidente da Caixa Econômica Federal (CEF), e nomeou Carlos Antonio Vieira, economista indicado pelo Centrão. Substituiu uma servidora de carreira alçada à presidência da CEF graças ao prestígio entre trabalhadoras e trabalhadores da instituição, por um servidor de carreira bancado pelo maior consórcio ético-político vigente desde a redemocratização, iniciada há quatro décadas.
Não por outro motivo que documento do Partido dos Trabalhadores (PT), recém-divulgado, volte suas baterias contra o Centrão. Óbvio. É o bloco político-parlamentar quem realmente ameaça a conhecida ânsia petista por hegemonia, seja no atual mandato de Lula, seja em relação ao curso do processo de organização e condução da política no Brasil. Petistas disputam espaço com o Centrão, embora prescindam dele para governar.
Ao trocar Serrano por Vieira, Lula ratificou uma vez mais (e como se ainda fosse preciso) a aparente pedra de toque do presidencialismo de coalizão brasileiro: “ninguém governa sem o Centrão”. Mantra que num passado recente entoava “ninguém governa sem o PMDB”. Caso clássico de criador tragado pela criatura, o hoje MDB se diluí entre outros partidos no interior desse conglomerado programaticamente flácido e avidamente fisiológico.
Nem mesmo Bolsonaro (PL) escapou. Sua bravata de “mais Brasil, menos Brasília” ruiu em poucos meses de governo, recorrendo ao Centrão para escapar do impeachment, às custas do erário público. Patrocinou a maior compra de apoio político no Congresso Nacional de que se tem notícia. O bolsolão fez o mensalão parecer brincadeira de criança, tal o volume de recursos públicos destinados por Bolsonaro ao consórcio político-parlamentar.
Que, afinal, poupou o mandato de Bolsonaro, mas não lhe garantiu outro. Tão logo proclamada a vitória de Lula no 2º turno de 2022, por estreita margem, lá estava em rede nacional Arthur Lira (PP/AL), então presidente da Câmara dos Deputados, comandante-chefe do Centrão e aliado eleitoral de Bolsonaro, para reconhecer o resultado da eleição e, assim, inviabilizar politicamente o patético golpismo fantasiado em frente aos quartéis.
Lira fez mais. Ao pular da nau bolsonarista, ativou a chave do presidencialismo de coalizão, acenando com as vantagens oferecidas pelo consórcio, pavimentando sua permanência no comando da Câmara. Com apoio do PT, ora veja, Arthur Lira recebeu a maior votação já obtida no legislativo federal: 464 votos entre 509 parlamentares presentes (91,16%). Uma quase-unanimidade que contrasta com a polarização política expressa no país. Incrível?
Nem tanto. O recorde de Lira atesta a originalidade do presidencialismo brasileiro, que cobra do governante a formação de ampla coalizão parlamentar para efetivo exercício da presidência da República. Condição agravada num pluripartidarismo que dispõe de mais de duas dezenas de partidos políticos com representação no Congresso Nacional. A coalizão que reelegeu Arthur Lira para a presidência da Câmara dos Deputados reuniu 20 partidos.
Mas nem sempre foi assim. Por longos 15 anos (1965-79), eram apenas dois partidos: Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e Movimento Democrático Brasileiro (MDB). O primeiro, criado para dar fachada democrática a uma ditadura que não podia se assumir ditatorial, e o segundo, ocupando o espaço destinado à oposição legal numa democracia de fachada, informam a base do pluripartidarismo instituído a partir de 1979 e ainda em vigor.
ARENA e MDB, transformados em Partido Democrático Social (PDS) e Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), em 1979, estiveram rigorosamente em todos os governos desde a eleição de Tancredo Neves (PMDB) e José Sarney (ex-presidente da ARENA e do PDS) no Colégio Eleitoral, em 1985. E foi durante a Constituinte (1987-88) que dissidentes do PDS e peemedebistas afeitos ao fisiologismo deram vida ao Centrão.
Seu lema ao nascer, “é dando que se recebe”, comprovava o teor ético-político legado por 21 anos de Ditadura Militar (1964-85). Deu forma à celebrada Constituição de 1988 e 5 anos a Sarney (1985-90). Apoiou e derrubou Collor (1990-92). Manteve Itamar (1992-95). Elegeu e reelegeu FHC (1995-2003). Logo apoiou e depois reelegeu Lula (2003-11). Apoiou e derrubou Dilma (2011-16). Bancou Temer (2016-19). Sustentou Bolsonaro (2019-2023).
Seu método, “criar dificuldade para vender facilidade”, anima gerações sucessivas de parlamentares eleitas e eleitos por voto direto. Diante da miríade do pluripartidarismo brasileiro e de sua característica fragilidade programática, cabe ao Centrão reunir e expressar os termos mais sinceros da ética-política sustentada por grande parcela da sociedade brasileira. Multipartidário, dá vazão a contraditórios hibridismos tão nacionais.
Liberal na economia, conservador nos costumes, fisiológico na política. Assim é o Brasil?
Nenhum comentário:
Postar um comentário