“Se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão”

Clayton Romano

Doutor em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Professor-adjunto vinculado ao Departamento de História da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM).

A pérola no título acima foi cantarolada por Augusto Heleno Ribeiro Pereira, general de exército, maior patente militar em tempo de paz, durante convenção eleitoral do Partido Social Liberal (PSL), em 2018. Na ocasião, Heleno parodiou famoso samba eternizado por Bezerra da Silva (1927-2005), “Reunião de Bacana” (1981), popularmente conhecido por seu refrão “Se Gritar Pega Ladrão”.

Vestido com a farda dos incautos, o general da reserva Augusto Heleno era então um dos soldados daquela cruzada anticorrupção, antissistema, antipartido, antipolítica, reunida em torno de Jair Bolsonaro. Associava a corrupção atual à verve fisiológica do bloco político parlamentar, garantia de governabilidade em todos os mandatos presidenciais desde a Ditadura Militar (1964-85).

Omitindo o fato de Bolsonaro ser produto das franjas desse bloco político parlamentar, o general dizia que o capitão da reserva, banido do Exército por tramar um atentando por aumento salarial, primeiro vereador e depois deputado federal por 30 anos (1989-2019), daria fim ao fisiologismo do bloco partidário por não ceder à destinação de vultosos recursos em troca de maioria legislativa.

Pouco tempo separam o batuque de Heleno do Bolsolão e seus R$ bilhões a parlamentares da base aliada, leia-se Centrão. O general nega “hoje a existência desse Centrão”. “Naquela época existia à disposição na mídia várias críticas ao Centrão. Não quer dizer que hoje exista Centrão”, alega. Para Heleno, tal mudança de posição trata-se de “evolução de opinião”, “parte do show político”.

Está certo. Toda gente tem direito a mudar de opinião, de “evoluir”, como sugere o general, que, no entanto, vai além e dobra a aposta: “E não reconheço hoje a existência desse Centrão”. Como assim? De tão sólido, o fisiologismo do Centrão desmanchou-se no ar? Seria Augusto Heleno marxista? Ou toda a trama envolvendo atos de corrupção se desfez então por obra da Providência?

O general nada diz. Os fatos, porém, contradizem Heleno, mais uma vez. O Centrão está aí, vivíssimo. Possui organicamente 10 partidos: Partido Progressista (PP), Partido Social Democrático (PSD), Partido Liberal (PL), Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Partido Social Cristão (PSC), Partido Republicano da Ordem Social (PROS), Republicanos, Solidariedade, Avante e Patriota.

Dispõem juntos de razoável musculatura política. Somada, a dezena de partidos elegeu exatos 187 deputados federais, em 2018, e atualmente conta com 204. Possui nominalmente 15 senadores e 5 governadores estaduais. Nas eleições de 2020, venceu em 2.489 dos 5.570 municípios brasileiros. Ocupa ainda o Ministério das Comunicações (PSD) e a Secretaria de Governo (PL) de Bolsonaro.

Augusto Heleno nega hoje a existência do Centrão para não ter que admitir o óbvio, que general, capitão e toda a tropa aderiam de peito aberto ao fisiologismo político-partidário brasileiro, do qual o Centrão é genuína expressão. E mesmo que admitisse tratar com o bloco político, enquanto exigência da governabilidade, diria o general que o Centrão não foi criado por ele ou Bolsonaro.

Ledo engano. O Centrão é justamente o saldo histórico do projeto ético-político executado pelos militares ao longo da ditadura. O estéril bipartidarismo instituído criou partidos artificiais, amalgamas do quadro pluripartidário extinto por ato institucional. Aliança Nacional Renovadora (ARENA) e Movimento Democrático Brasileiro (MDB) formam a base do atual quadro partidário.

A transição pactuada, via Colégio Eleitoral, se fez através da atração dos polos moderados de ARENA e MDB, criando um centro político conservador, conciliador e fisiológico que garantiu o retorno civil à presidência. A Aliança Democrática de Tancredo Neves e José Sarney, em 1985, uniu emedebistas moderados e arenistas “liberais” dissidentes, e venceu com ampla maioria parlamentar.

O Centrão ganhou vida própria durante o governo Sarney (1985-90), controlando o curso e o ímpeto da Constituinte (1987-88). Vem daí sua cláusula pétrea, pronunciada por Roberto Cardoso Alves, então deputado federal (PMDB/SP), que apelou à São Francisco de Assis ao descrever a relação do bloco político com o governo: “é dando que se recebe”. Sob tal régua se fez a Constituição (1988).

E mais: a oração franciscana manuseada enquanto equação política afirmou-se durante a democratização, orientando os termos nada programáticos do chamado presidencialismo de coalizão brasileiro. Aspecto insistentemente reafirmado a cada mandato presidencial desde então: Collor (1990-92), Itamar (1992-95), FHC (1995-1999 e 1999-2003), Lula (2003-2007 e 2007/2011).

Dilma herdou o Centrão montado por Lula, diluído na base aliada, sobrevivendo ao primeiro mandato (2011-2015), mas não ao segundo (2015-2016). Temer (2016-2019), por sua vez, deve ao Centrão os proventos da aposentadoria de ex-presidente da República. Bolsonaro é a bola da vez, repetindo o procedimento dos antecessores. Todos alvos do fisiológico Centrão, obra dos militares.

Nenhum comentário:

Postar um comentário