“Nanicos”?

Clayton Romano

“Nanico”, expressão popular para anão, miúdo, pequenino. É também designação comum para “partido pequeno” ou, pior, “partido de aluguel”. E no atual jogo eleitoral, tornou-se ainda sinônimo para medíocre, grotesco, exótico.

Ensina o dito popular que quando algo diz muita coisa, acaba dizendo coisa alguma.

Na prática, ao se rotular como “nanico” um conjunto de pessoas, programas e partidos absolutamente diversos, cria-se a falsa impressão de que são todos iguais, simplesmente porque são “nanicos”. A partir daí, a ridicularização rola solta. “Nanico” algum escapa.

Há 32 partidos políticos registrados no TSE, 22 dos quais com representação no Congresso Nacional. Desses, apenas PT, PMDB e PSDB são considerados “grandes partidos”, claro, em termos de quantidade de parlamentares, não de qualidade política.

Depois, vem um bolo com cerca de 10 “partidos médios” (inclusive em quantidade de parlamentares). Daí para baixo, a rotulação é geral: tudo “nanico” e ponto final. Aliás, para muitos, todos os partidos são “nanicos”, exceto a trinca supra citada.

Tanto que há tempos o Brasil assiste ao Fla-Flu entre PT/PMDB x PSDB. Seria a herança bipartidária, deixada pelos militares, falando alto em tempos de democracia?

Não se sabe. O certo, porém, é que a “esterilização política” da sociedade brasileira, levada a cabo por duas décadas de ditadura, fez brotar por aqui o “partido-empresa”. Vários partidos brasileiros (“grandes”, “médios” e “nanicos”) são “empresas políticas”.

Fruto de um sistema eleitoral nem público nem privado, como de resto é o próprio estado, o tal “partido-empresa” virou obessão em todos os partidos do país, sem importar o verniz ideológico, salvo raríssimas exceções. O PCB entre elas.

O “partido-empresa” transforma política em mercadoria, direitos em moeda e interesses em capital. Não à toa, o protagonismo na “festa da democracia” jaz reservado a poucos, com a força da grana sustentando o “mercado político”.

Sem cacife para pleitear o topo, os demais “partidos-empresas” negociam então seu tempo de TV em troca de apoio. Vem daí aquela sopa de letrinhas no canto da propaganda eleitoral.

Estes são os “partidos de aluguel”, sejam eles “grandes”, “médios” ou “nanicos”.

Logo, “partido de aluguel” diz respeito a “partido-empresa”, não a “partido pequeno”. E “partido pequeno” não supõe proporcional qualidade política, pois há pequenos partidos com razoáveis atributos políticos.

O rótulo de “nanico” não deixa ver nada disso.

Clayton Romano é docente do Departamento de História da UFTM e secretário político do PCB Uberaba.

Texto publicado na edição de 01/10/2014 do Jornal de Uberaba.

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