Clayton Romano
Desde sua fundação, em 1980, o Partido dos Trabalhadores (PT) é tema de matéria controversa. Talvez porque os petistas vieram ao mundo questionando tudo e a todos.
Era um partido de trabalhadores, mas rechaçava qualquer vínculo com o trabalhismo. Era um partido de esquerda, mas recusava ser associado aos comunistas do PCB. Era um partido democrático, mas renegava a matriz liberal que lhe deu vida.
Sem assumir laços com o espectro político passado, este frequentemente tido como populista por seus militantes, o PT bradava por uma “nova política”. Sem vícios e atores da “velha política”, os petistas se diziam “diferente de tudo que está aí”. E de fato eram.
Vinham de todos os cantos da sociedade civil. Das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) à trotskistas de toda ordem. Dos barbudos oriundos do “sindicalismo autêntico” do ABC aos remanescentes da resistência armada à ditadura. De intelectuais a peões.
Todos unidos pela crença de “fazer a diferença” ao “fazer diferente”. Tanto que essa “lógica da diferença” se constituiu em pedra basilar para os petistas, acarretando numa postura ambígua do PT e num histórico repleto de contradições.
Os petistas foram a favor das Diretas Já, em 1984, mas se abstiveram na vitória de Tancredo Neves (Aliança Liberal) no Colégio Eleitoral, em 1985. E ainda expulsaram os parlamentares do partido que votaram em Tancredo.
O PT foi a favor da Assembléia Constituinte, em 1987, mas não assinou a Constituição, em 1988. Também foi a favor de impeachment do Fernando Collor (PRN), em 1992, mas se eximiu do clamor por união nacional no governo Itamar Franco (PRN/PMDB).
Os petistas foram contra o Plano Real, em 1994, mas fizeram Lula assinar a Carta aos Brasileiros, em 2002, assegurando a estabilidade gerada pelo Real. Foram contra a emenda da reeleição, em 1997, mas hoje postulam 16 anos seguidos no governo federal.
O PT foi contra as privatizações de Collor, Itamar e Fernando Henrique (PSDB), mas não reverteu uma sequer em 12 anos no poder. Foi contra as oligarquias regionais, mas desfila sem pudor com José Sarney (PMDB), Paulo Maluf (PP), Kátia Abreu (PSD), etc.
Os petistas se dizem amadurecidos. Os críticos acusam o PT de trair bandeiras históricas. Os petistas se ufanam por promoverem a “maior distribuição de renda da história”. Os críticos imputam ao PT o “maior esquema de corrupção da história”.
Sem aquela velha opinião formada sobre tudo, o PT surge sempre disposto a desdizer aquilo tudo que disse antes. Se hoje é estrela, amanhã se apagou. Se hoje odeia, amanhã tem amor. E se um dia foi de esquerda, amanhã ninguém sabe.
Metamorfose ambulante. Haverá melhor definição para o PT?
Clayton Romano é docente do Departamento de História da UFTM e secretário político do PCB Uberaba.
Nenhum comentário:
Postar um comentário