Clayton Romano
Doutor em História pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e docente vinculado ao Departamento de História da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM)
Resumo: Bolsopetismo é uma expressão criada por dissidentes bolsonaristas com generosa repercussão na grande imprensa brasileira. Denuncia a identificação de características comuns a expressões ético-políticas frontalmente antagônicas no contexto político e histórico, associando bolsonarismo e petismo e/ou lulismo, incluindo termos similares (bolsolula, bolsolulismo, bolsolulopetismo). Este breve ensaio parte da provação contida na expressão bolsopetismo para verificar as bases históricas de bolsonarismo, lulismo e petismo, destacando especificidades e eventuais congruências, de modo a indicar qual o lugar do bolsopetismo na história.
Palavras-chave: Bolsopetismo, antipetismo, bolsonarismo, lulismo, petismo.
Bolsopetismo
Terra de contrastes, país de paradoxos, lugar por excelência da “revolução passiva” segundo o gramscismo de Luiz Werneck Vianna, solo onde tese e antítese habitam um mesmo ator, não tardou para o Brasil registrar novo rebento. Bolsopetismo passou a designar não faz muito tempo, em forma de denúncia, a coexistência de práticas e concepções comuns a bolsonaristas e petistas.
Em sentido mais amplo, o termo assume outras nomenclaturas (bolsolulismo, bolsolula) e termina por envolver também o lulismo, associando-o (fundindo-o) ao petismo, donde bolsolulopetismo. Em todos os casos o sentido é o mesmo: apontar para a aproximação entre padrões ético-políticos expressos por bolsonarismo e lulismo e/ou petismo, sob rechaço de bolsonaristas, lulistas, petistas.
A associação entre bolsonarismo e lulismo e/ou petismo é inglória, de fato, por uma série de razões, a começar pelas posições assumidas por seus atores na atual quadra da disputa política no Brasil, ao liderarem polos opostos. O confronto, o antagonismo e não a unidade ou a proximidade é o que marca a relação política entre bolsonaristas e lulistas e/ou petistas, sem muita margem para contato.
Também pudera. Bolsonarismo, lulismo e petismo são fenômenos político-culturais distintos, portadores de caracteres próprios, específicos, e em vários aspectos bem distantes quando comparados entre si. O reacionarismo de conservadores em torno de Jair Bolsonaro, por exemplo, não encontra similar entre adeptos de Luiz Inácio Lula da Silva e do Partido dos Trabalhadores.
A turba bolsonarista, do mesmo modo, não se dedica a outra coisa senão a promover e garantir o saque ao capital político acumulado por lulismo e/ou petismo. Sem dúvida, o bolsonarismo veio ao mundo como expressão radicalizada e não menos decidida do antipetismo visto desde longa data, elevado à enésima potência na derrubada de Dilma Rousseff. Bolsonaro deve 2018 aos antipetistas.
Sim, pois o antilulismo mostrava-se saciado ao saber de Lula encarcerado. O embate de Jair Bolsonaro contra Fernando Haddad, um dos “postes de Lula”, aferrou-se assim ao antipetismo para garantir o triunfo eleitoral. Derrotar o “candidato do PT” era o fio do rosário de promessas em 2018, que iam do “se gritar pega centrão, não fica um, meu irmão” ao fim do “aparelhamento estatal” (sic).
Apelar ao antipetismo para vencer eleições, requentando táticas do anticomunismo de antanho, não se trata propriamente de novidade por aqui. Fernando Collor fez o mesmo 29 anos antes, valendo-se inclusive de fake news, à época sem tal denominação e veiculadas em rede nacional, em vez dos atuais disparos em massa nas redes sociais. Collor também deveu 1989 ao neófito antipetismo.
À moda tucana, isto é, conduzidas sob costumeiro garbo, todas as candidaturas do PSDB à presidência igualmente recorreram ao antipetismo, sobretudo aquelas que disputaram os segundos turnos contra Lula (José Serra, 2002, e Geraldo Alckmin, 2006) e Dilma (Serra, 2010, e Aécio Neves, 2014). Até a derrocada de Aécio, abatido por corrupção, o antipetismo abrigara-se no PSDB.
De modo que, embora lhe seja cativo, o antipetismo não concentra todos os termos do bolsonarismo. Ao contrário, a partir de suas especificidades políticas e históricas, o bolsonarismo é que mobiliza a seu favor o antipetismo difundido na sociedade brasileira, imprimindo-lhe coloração própria. O antipetismo não resume o bolsonarismo. O bolsonarismo, sim, resume o antipetismo.
Bolsonarismo
Quais são então as bases do bolsonarismo? A questão é recente, inexistente antes da eleição de 2018. Até ali a onda conservadora que varreu o país com a vitória de Bolsonaro era observada, estudada e compreendida, desde as jornadas de 2013, como expressão de certo conservadorismo engajado, renovado em sua organização e bastante hábil no manuseio das mídias sociais.
Fenômeno planetário, a ascensão política de partidos e movimentos conservadores também fora detectada no caso brasileiro antes de Bolsonaro, convertido em mito, catalisar o conservadorismo reacionário ao oferecer-lhe feição partidária e força eleitoral. Até a eleição de 2018, no entanto, bolsonarismo não havia, fosse como fato histórico ou como fenômeno político.
Filho das classes intermédias, ávidas por “levar vantagem em tudo” e domadas pelo “instinto animal do mercado”, Bolsonaro é um dos seres produzidos segundo orientação ético-política do militarismo brasileiro, obra de avançada instituição da sociedade política do país. Coube, pois, ao exército dar vida ao “animal político” Jair Bolsonaro, tornando-o ator coletivo em meio a tropa.
Criação da sociedade política, atuando para fins privados (afinal, Bolsonaro foi banido do exército por planejar um atentado à cidade do Rio de Janeiro em busca de aumento salarial), fez carreira como parlamentar, primeiro eleito vereador e logo depois deputado federal por sucessivos mandatos. Foram 15 anos como militar (1973-1988) e 30, o dobro, como político (1989-2019).
Motivo do banimento militar, seu extremismo encontrou vazão no largo leito da política. O corporativismo quase sindical em favor do militarismo (e suas corporações: forças armadas, polícias civil e militar, milícias), somou-se à defesa radical do projeto societário vivido durante a ditadura militar, promovendo liberdade de mercado sob terrorismo de estado, opção de 15% dos brasileiros.
A atuação política de Bolsonaro (e similares Brasil adentro) manteve mobilizada uma faixa da população que, ao curso da democratização, sempre declarou-se favorável ao retorno dos militares ao poder. Sérias pesquisas dedicadas ao tema apontam uma variação entre 10% e 20% nos índices de apoio à ditadura desde o retorno civil à presidência. Bolsonaro é expressão desse público.
A ciência política também diz que o esgotamento do ciclo dos militares no poder, oficialmente decretado em 1985, ocorrera mais em função do colapso da legitimidade desfrutada pela ditadura junto a amplas camadas sociais, do que em razão de decidida adesão da sociedade brasileira aos valores e procedimentos democráticos. Havia palco, portanto, para a transição pactuada havida.
Bolsonaro, entre outros congêneres, compõe a anômala conciliação democrática no Brasil, capaz de conferir mandato político ao arbítrio via sufrágio universal, eleger sucessivamente, por três décadas, quem homenageia torturador, condecora homicida, emprega miliciano. Antitético, o extremismo belicoso em Bolsonaro e alhures acumulou força política e densidade eleitoral por via democrática.
O conservadorismo de Bolsonaro, reacionário em sua motivação original ao tentar conter o tempo histórico, retroagindo-o, acena simultaneamente ao livre movimento da história. Em termos gerais, recorre às bases do militarismo brasileiro tanto por atualizar a equação positivista de ordem e progresso, quanto por preconizar livre inciativa sob arbítrio público, fórmula assumida na ditadura.
A aliança empresarial militar, base da “aliança para o progresso” brasileiro a partir de 1964, previa endividamento público para financiamento da iniciativa privada, priorizando a concentração de capital através da superexploração do trabalho. Eis a receita do “milagre econômico” e seu PIB de 13% (1973), que ainda hoje soa como canto de sereia a setores médios e mesmo proletarizados.
As condições políticas para o sucesso da empreitada eram garantidas a ferro e fogo por obra do aparato repressivo estatal, que, herdado da ditadura de Getúlio Vargas (1937-1945), fora “modernizado” pelos militares. Da fachada democrática do bipartidarismo e suas eleições indiretas ao silenciamento de opositores (cassação, exílio, prisão, tortura, morte), esterilizou-se a política.
Na união entre empresários e militares, a economia esteve terceirizada aos primeiros e a política, aos segundos. Fatos dizem mais que palavras. Todos os 12 ministros da Fazenda da ditadura militar, entre titulares e interinos, eram economistas (incluindo um banqueiro). Nenhum militar. Já a temida Operação Bandeirante uniu capital empresarial e expertise militar na empresa de trucidar oponentes.
A Oban continha a essência das atuais milícias, isto é, empresa militar privada, com recrutamento da força de trabalho entre corporações militares para garantia de controle e domínio político-social. Atuando segundo interesses privados, visa circulação e acúmulo de capital mediante prestação de serviço. Da Oban de ontem advém a matriz do empresário militar, do miliciano de hoje.
Do mesmo modo, o bloco histórico de sustentação daquela aliança empresarial militar já indicava as raízes do bloco político que se fez hegemônico ao longo da democratização, hoje representado nas maiores bancadas temáticas do Congresso Nacional em 4 bês: bala, bíblia, boi e bola. Ainda que as 3 últimas não sigam à risca a cartilha do militarismo brasileiro, partilham de igual autoritarismo.
Militares e milicianos, neopentecostais e carismáticos, latifundiários e industriais, além de setores médios e proletarizados radicalizados, todos em marcha, vergando suas respectivas amarelinhas da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), contra o lulismo e/ou petismo, rumo à mitificação de Bolsonaro. Eis os bolsonaristas. Acrescido de sujas táticas de comunicação, eis o bolsonarismo.
Lulismo
Se Bolsonaro é filho da sociedade política sob escrutínio militar, Lula é “filho do Brasil”, da sociedade civil sufocada e posta à margem pela ditadura militar. Filho da miséria, migrou com a família em busca de subsistência material. Suburbano, reconheceu-se portador de direitos ao inserir-se no mundo do trabalho especializado, via Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI).
Operário, peão, apartidário, apolítico, forjado nas linhas de produção da grande indústria capitalista, ingressou na vida sindical por recreação, em 1968. Conheceu o maior sindicato metalúrgico da América Latina após expurgo e intervenção promovidos pelos militares. Assumiu funções auxiliares na diretoria até ser eleito presidente do sindicato de metalúrgicos do ABC, em 1975.
Rechaçando vínculos ou aproximações com as tradições sindicais de cunho trabalhista, socialista ou comunista, Lula sintetizava o autoproclamado “sindicalismo autêntico”, posteriormente “novo sindicalismo”, apontando para uma representação sindical autônoma e independente dos interesses da classe trabalhadora. Explorando o conflito como tática de negociação, liderou greves históricas.
O modo como Lula encarnava os interesses da classe, atuando sem intermediários organizativos, decodificando a disputa política em acesso ao mundo dos direitos por meio da relação de compra e venda da força de trabalho, o transformou numa ideia. “Eu não sou um ser humano, sou uma ideia”, sintetizou Lula instantes antes de sua prisão, em 2018, ironicamente às portas do sindicato do ABC.
Essa ideia chamada lulismo nasceu no ABC, espontaneamente, entre final dos anos 1970 e início dos 1980. Inicialmente se espraiou através daquele novo sindicalismo fabril, então ainda exercido de modo difuso, enquanto legítima expressão de setores subalternos daquela sociedade civil politicamente esterilizada pelos militares, sem contato com a sociedade política, exceto por coerção.
Também por isso radicalizados em relação a organismos partidários e instituições políticas. Quanto aos primeiros, fruto do distanciamento patrocinado pelo bipartidarismo da ditadura militar e seu terrorismo de estado, fazendo da política matéria ora de tecnocratas, ora de “subversivos”. Quanto às instituições políticas, basta citar a justiça do trabalho como mero cartório das indústrias.
“A CLT é o AI-5 dos trabalhadores”, sentenciava Lula, então líder do ciclo de greves do ABC, denunciando as amarras estatais na livre negociação entre capital e trabalho. Longe de oferecerem garantias, uma vez transmutados em “justiça do capital”, legislação e órgãos trabalhistas inibiam o exercício em escala industrial da liberdade de mercado na relação de compra e venda de trabalho.
Em outra declaração da mesma época, Lula mirava os partidos. Diante do restabelecimento do pluripartidarismo, em 1979, e perguntado sobre a filiação política daquele partido que estava ajudando a criar, dizia não importar se seria “trabalhista, comunista, fascista”, desde que fosse um “partido da classe trabalhadora”. Era o PT, anunciado nos termos daquele novo sindicalismo fabril.
Não, o Partido dos Trabalhadores não foi criação exclusiva do lulismo. E sim, embora embrionário se comparado a outras expressões ético-políticas presentes na fundação do PT, o lulismo foi um dos criadores do PT. Aliás, associado ao petismo, o lulismo responde ainda por emular a formação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST).
Mas, de fato, o lulismo consistia àquela altura em matéria desforme, sem orientação político-cultural definida ou mesmo um centro difusor. No entanto, Lula contou desde então com ampla cobertura midiática, o que lhe conferiu rápida projeção nacional, alargando sobremaneira as bases iniciais do lulismo e, em igual medida, irrigando o antilulismo em amplos setores sociais.
A imagem de Lula já rodava o país despertando empatias e antipatias, a ideia já pulsava quando o PT foi criado, em 1980, também pelas mãos do lulismo. Com o PT, porém, a ideia adquire direção política e organização cultural, passando a figurar em derradeiro ponto de unidade do petismo, ele próprio resultado de composição ético-política entre atores e concepções de diversos matizes.
A necessária inter-relação entre lulismo e petismo não os funde ou os confunde. São fenômenos distintos que se realimentam, onde a criatura abriga o criador e lhe dá razão de ser, sendo a recíproca proporcionalmente verdadeira, conforme a conjuntura. Se o lulismo foi a liga que conferiu ponto ao petismo, o petismo foi porto seguro ao lulismo em momentos de tormenta.
O PT converteu Lula em ativo eleitoral. Lula fez do PT sua trincheira política. O petismo ativa o lulismo em troca de votos, em busca de capital político, aliás, como fez e faz com tudo e todos que encontra pela frente. O lulismo faz do petismo sua rede de proteção, ganhando com isso consistência programática e perspectiva histórica, o que garante a Lula sua existência não humana.
Houve momento em que não era possível ser lulista sem ser petista, assim como era razoavelmente permitido ser petista e não ser lulista. À medida que lulismo e petismo negociam seus acessos à sociedade política, há troca de posições e, com a chegada de ambos ao governo federal, o contrário passa a ser padrão. Hoje é comum haver lulista não petista e raro encontrar petista não lulista.
Certo é que o lulismo não vem à luz a partir do governo Lula e seu pacto conservador, reformista, gradual, como diz a ciência política. Assim como registrar a simples existência daquele petista não lulista do passado ou a deste lulista não petista do presente, confirma lulismo e petismo enquanto fenômenos recíprocos e específicos, o que afasta o uso de termos como lulopetismo, por exemplo.
Petismo
O lulismo deveu ao petismo sua existência política até a vitória de Lula, em 2002, condição que se repetiu após a condenação (2017), a prisão (2018), a soltura (2019) e a reabilitação de seus diretos políticos (2021). Desde seu rebento, na esteira do ciclo grevista, o petismo atuou para manter o lulismo politicamente vivo e ativo, mobilizando-o como seu princípio interno de unidade e coesão.
Feito entidade metafísica, Lula paira entre tendências e dissensos colecionados no interior do PT. Personifica o moderno proletariado urbano, moldado na linha de produção do capitalismo industrial, segundo toda a sorte de contradições estruturais presentes na formação sócio-histórica brasileira. Sintetiza misérias e riquezas do Brasil profundo, notadamente injusto, desigual, vasto e popular.
Operário livre de dogmatismo político, recrutado em escala industrial, disciplinado sob a palmatória do capital. Aos olhos de egressos das fileiras socialistas e comunistas, Lula materializava assim uma nova classe operária, enfim portadora de condições objetivas e subjetivas para a deflagração do processo de emancipação proletária, tarefa da revolução brasileira adiada por quase um século.
Sob protagonismo de Lula, aqueles novos personagens entraram em cena e arrebataram densa miríade de adeptos do socialismo e de dissidentes do comunismo, todos interessados em construir caminhos originais para a revolução brasileira, isto é, desvinculando o caso brasileiro de modelos externos, em evidente crítica ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e à experiência soviética.
Socialistas e comunistas dissidentes comungavam com “sindicalistas autênticos” similar rechaço à presença política anterior de trabalhistas e comunistas em sindicatos e partidos vinculados à classe trabalhadora. Tanto que, ao lado do “novo sindicalismo”, propalou-se o advento de uma “nova esquerda”, erguida sob eixo democrático popular. Falou-se inclusive em “socialismo petista”.
Se havia algo àquela altura, portanto, a unir socialistas, ex-comunistas e novos sindicalistas certamente não era o apego às tradições comunistas no interior da esquerda brasileira. Se havia apelo a concepções e símbolos socialistas, definitivamente não se tratava da ostentação da foice e martelo leninistas, tornando impraticável desde então a associação entre petismo e comunismo.
O PT jamais foi ou sequer se portou como um partido comunista, nem mesmo em seu radicalismo inicial, quando temas da literatura socialista ainda interferiam significativamente no teor político do petismo. Do mesmo modo, sua opção por “democracia interna” para o convívio entre tendências e correntes políticas diversas, condição basilar de sua existência, se opunha ao centralismo comunista.
Socialistas majoritariamente oriundos de frações trotskistas e sobreviventes da luta armada na ditadura militar, muitos dos quais ex-comunistas rompidos com o “reformismo” do PCB, deram coloração socialista aos novos sindicalistas, garantindo ao PT assento cativo na esquerda brasileira. Registravam muitas divergências e a mesma fé em romper com as bases do comunismo brasileiro.
Novos sindicalistas, socialistas, ex-comunistas e cristãos, pois iniciativas de renovação entre católicos e protestantes ativaram o associativismo social em setores subalternos daquela sociedade civil dos militares. As católicas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), por exemplo, tiveram importância crucial na constituição do PT ao lhe permitir alcance nacional desde a fundação.
Fala-se até em cebismo para designar o relevo das CEBs na conformação original do petismo, através de associativismo social feito à revelia de atores, organismos e instituições da sociedade política. Prática associativa também vista entre protestantes, particularmente ente denominações pentecostais e neopentecostais, embora com presença significativamente menor no petismo.
O associativismo social-cristão, por obra da teologia da libertação ou da teologia da prosperidade, deu vazão empírica à formulação petista de democracia social, somando-se ao novo sindicalismo fabril na denúncia dos devaneios programáticos mediante a urgente vida cotidiana. Antepondo prática à teoria, convertiam necessidade de subsistência material em interesse político imediato.
Somaram-se ainda ao petismo estratos médios radicalizados, concentrados em centros urbanos, reunindo profissionais liberais, servidores públicos, micros e/ou pequenos empresários. Atores distintos sem centros próprios de elaboração ou difusão, apostavam na ação política por meio de iniciativa individual, privada, self made, e professaram certo liberalismo social radical.
Lulismo, socialismo, ex-comunismo, cristianismo social, liberalismo social, considerados em suas variações e decomposições, constituem a base original do petismo, que, com defecções e acréscimos moleculares, não sofreu alterações substantivas com o passar dos anos. Informam as razões mais sinceras das saídas e chegadas de atores em mais de 40 anos de PT e petismo.
Não se trata, porém, de reduzir o petismo a mero repositório de expressões ético-políticas diferentes e conflitantes em múltiplos aspectos. Ao contrário, trata-se de destacar sua capacidade político-cultural de acomodar por tanto tempo sujeitos tão díspares, ainda que mantenham contatos bilaterais, pois nenhum deles sintetiza sozinho o petismo, enquanto o petismo alcança a eles todos.
Nem Lula, nem socialismo, nem cristianismo, nem liberalismo. Petistas expressam uníssonos o petismo quando mobilizam a equação entre custo e benefício, própria às relações econômicas, para disputa de hegemonia e acúmulo de capital político. Produto de seu tempo e intelectual coletivo de setores subalternos da sociedade civil, o PT transformou cálculo econômico em cultura política.
Lugar na história
A marca do tempo é implacável. Integra a natureza social dos seres. Dita marcos e limites. Impõe condições. Cobra reflexão. Exige ação. Bolsonarismo, lulismo e petismo são expressões distintas, porque nascidos em lugares distintos, é certo, mas são antes filhos do mesmo tempo. São criações da esterilização política sob capitalismo selvagem. Carregam consigo a marca daquele tempo.
Tempo de ditadura, de fachada democrática e conteúdo arbitrário. A aliança empresarial militar fez valer seu americanismo via iberismo. Alargou sobremaneira o acesso às relações capitalistas de produção, circulação e consumo oferecendo em troca precárias condições de subsistência e superexploração da força de trabalho. Ativou o associativismo social mediante clausura política.
Renovou a arena política com a extinção de 13 partidos eleitoralmente registrados em 1965, criação de dois partidos artificiais, intervenção e expurgo em centenas de sindicatos, cassação, exílio, prisão, tortura e morte de opositores. A vida política deixou ruas e praças para ser ação exclusiva de gabinetes e delegacias, substituindo sua dimensão popular por tecnocratas civis e militares.
Bolsonarismo, lulismo e petismo trazem essa marca do tempo. Cada qual a seu modo, sintetizam e expressam o sentido político daquele projeto societário posto em prática durante a ditadura, expondo a adoção de concepções e comportamentos imanados desde a sociedade política sob tutela militar, e que encontram múltiplas formas de aderência entre setores subalternos da sociedade civil.
Criação da sociedade política, embora sem exercer função dirigente, portador ético-político da aliança empresarial militar vitoriosa em 1964, Bolsonaro é a Ibéria personalista e autoritária em busca da América associativa e democrática até certo ponto. O bolsonarismo, por sua vez, novo bloco histórico empresarial militar entre bala, bíblia, boi e bola, visa a Ibéria partindo da América.
Criação do Brasil profundo diante de um torno industrial, portador ético-político de estratos sociais marginalizados da sociedade civil e completamente alijados da sociedade política, o lulismo é a síntese contraditória entre iberismo e americanismo, pois seu personalismo messiânico ampara-se em bases coletivas e despersonalizadas, ainda que limitadas, desde os tempos do novo sindicalismo.
Criação da sociedade civil visando acesso à política, portador ético-político do cálculo convertido em concepção e comportamento político-culturais, o petismo tem no PT o moderno intelectual coletivo surgido desde baixo e no petista, o engajamento típico dos intelectuais orgânicos. Comuns ao americanismo, PT e petista insistem, porém, em conciliar com fórmulas tradicionais da Ibéria.
Fenômenos distintos, sem dúvida, que partilham a mesma base real, isto é, a esterilização política dos militares com consequências e desdobramentos no curso da democratização civil, uma vez não demolido todo o edifício autoritário, nem mesmo após a constituição de 1988. Exibem ainda igual destreza com o cálculo custo-benefício, embora somente o petismo o tome por cultura política.
Usado por bolsonaristas dissidentes e, coincidência ou não, prontamente elevado a jargão na grande imprensa, o termo bolsopetismo em si diz muito pouco. Superficial porque carente de rigor analítico, pretende descrever a maré a partir da espuma. Sugere aproximações pela aparência e dão vida a toda sorte de delírios. Se não contribuí como categoria de análise, talvez ajude a pensar.
Se nem isso for capaz, o bolsopetismo encontrará lugar apenas na lata do lixo da história.
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